quarta-feira, 2 de maio de 2012

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Se naquela altura já existisse Facebook ou blogues o James Stewart não se dedicaria à janela para ver a vizinha da frente nos seus exercícios matinais. Consecutivamente, tinha-se perdido o pretexto para um bom filme. Actualmente, a nossa indiscrição anda livremente à solta nos meios mencionados: não só abrimos as páginas para ver o que se passa no mundo e na vida dos outros, como abrimos essas mesmas páginas para permitir que os outros saibam da nossa. Aqui falamos do coração, dos desgostos amorosos que nos pesam no peito e estilhaçam a alma, as histórias engraçadas vividas a dois; preocupações e ansiedades mais ou menos justificadas e assumidas, continuidade felizes com direito a grinaldas e berços. Falamos do emprego, dos colegas, das férias, da exposição a que fomos, do filme que vemos, da música que ouvimos naquele preciso momento, em repeat, enquanto escrevemos. No Facebook, mostramos as fuças, não só falamos das férias como pomos lá as fotos, com um monumento por trás. Assumimos amizades e conhecimentos. Actualizamos o status se ficamos numa relação ou deixamos de estar - há quem o faça várias vezes por mês, contou-me uma amiga minha que assistiu a isto por parte de um casal que expôs o caos que vivia com o casar e descasar contínuo que aparecia nas páginas iniciais de para aí seiscentas pessoas. Dizemos onde estudámos e trabalhamos e partilhamos no rectângulo próprio os nossos estados de espírito. A indiscrição de que falo, aquela que todos nós vivemos seja lá em que grau, não é contudo ilimitada. As pessoas acabam por ter, ainda que inconscientemente, um mecanismo bloqueador que só as permite passar um determinado "x" de informação acerca do que se passa na vida delas. O que por sua vez não significa que tal travão seja sempre o adequado, as pessoas acabam por não parar de falar do que não devem onde não devem. Acabam sim,  infelizmente, a ter duzentos e doze amigos no Facebook e trezentos e dois seguidores no Blogger e contudo, em alturas de grande necessidade - aquelas em que precisam realmente de alguém que as oiça e que fale de volta - começam a correr essas listas, até que elas ficam reduzidas a duas, uma pessoa. Às vezes nenhuma, porque não sentimos que confiamos o suficiente para partilhar a nossa vida.  Aparentemente está tudo à distância de um enter, aparentemente, porque do outro lado pode não haver nada além de histórias e fotos, outra vida traduzida em bombeamentos de uma outra realidade que também só subsiste na unilateralidade do que passa.

terça-feira, 1 de maio de 2012

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«Não sei porquê, a operação não resultou - esta iniciação ao vácuo de pertença. Talvez eu fosse, logo à partida, demasiado excêntrica. O que faziam esses escolhidos botões de rosa do mulherio americano nas reuniões das suas irmandades? Comiam bolo; comiam bolo e faziam comentários maldosos sobre os rapazes com quem saíam no sábado à noite. O privilégio de ser alguém exibia a sua outra face - a pressão de ser igual a toda a gente; isto é, a ninguém».

América! América! - Slyvia Plath

segunda-feira, 30 de abril de 2012

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Após dias a fazer de conta que tal objecto não existe, pego no meu telemóvel 93. Vejo que tenho uma mensagem nova. Arritmia, respiração acelerada mas custosa, ondas de calor.  Conjugada com alegria, esperança, súbita crença nos pastorinhos de Fátima. Abro a mensagem e obviamente é o operador a impingir-me não sei o quê. Todas as manifestações corporais voltam lentamente ao normal. Tristeza, desilusão, súbito desprezo pela Humanidade. E assim, numa questão de segundos, passou-se do ponto alto para o baixo deste fim-de-semana.

Agora em imagens:




domingo, 29 de abril de 2012

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Ir à Feira do Livro encerra em si um paradoxo: sai-se lá de mais pobres e mais ricos. Aqui o Gato Tobias observa os títulos, um tanto ou quanto desiludido por eu só ter trazido obras que ele já leu durante a sua juventude, coisas que agora estão aquém do nível do seu intelecto e grau de eruditismo.

sábado, 28 de abril de 2012

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As pessoas reagem sempre de forma muito proactiva e despachada quando se trata de dar conselhos sobre coração partido alheio. Na falta de acolhimento de tais  ditames do almanaque da sabedoria emocional, o diagnóstico será automático e envolverá, de certeza, uma tendência para o abismo do masoquismo. Mas também é do senso-comum que não escolhemos por quem nos apaixonamos. Nem a pessoa mais racional e bem resolvida do mundo está imune a um toque certeiro de Eros, que a desarme de todas as construções que anteriormente a tornavam racional e bem resolvida.  Não podermos escolher por quem nos apaixonamos não é só  um facto,  é uma fatalidade. Se tivéssemos essa opção não existiriam bebés feios.

To cut or not to cut

Dispensam-se opiniões masculinas, que vão todas no mesmo sentido.