Já disse algumas vezes por aqui e por todo o lado, que salvo raras excepções, não vejo televisão. Em certas noites, em que caminho a passadas largas para uma inevitável acefalia, lá me deito na minha caminha, encostada em mil almofadas e dedico uns minutos a ver qualquer coisa. Rapidamente, fico enojada e deixo-me disso - e nem me atrevo a parar um pouco na esplêndida ficção nacional que passa nos canais genéricos no período compreendido entre as 21.30 e as 0.00, introduzindo-nos a vilões maquiavélicos de patilhas vincadas que matam até os animais de estimação do inimigo, a boazinhas que são mesmo boazinhas e vestem-se como alguém que é muito boazinho se deve vestir, assim com vestidos rodados e com totós, e claro, àquela senhora engraçada da mercearia ou do café, que faz rir meio mundo com o facto de ser tão castiça e típica, naquela forma de encher o copo de vinho. Já me perdi. Enfim, das outras vezes que me sento no sofá com intenções de ver televisão, acabo a fazer outras coisas mais interessantes, como dormir ou dar beijinhos. Hoje vinha para o trabalho e percebi porque não devo continuar a ver televisão. Dei de caras com a publicidade à nova edição dos Ídolos. A Barbára Guimarães enfiada num top de padrão indefinido foleiro, provavelmente para lhe dar aquele ar pop que o programa tanto exige, acompanhada do tipo que é muita bruto e chama os concorrentes de azeiteiros, esquecendo-se que ele próprio é bastante azeiteiro, mais esses dois vultos da música portuguesa, Pedro Abrunhosa e o Tony Carreira. Dois poetas, cada um à sua maneira, um a acorrentar-se à porta do Rivoli, outro a aquecer os corações das senhoras emigrantes em França que não têm um homem charmoso daqueles para lhes atenuar as saudades da pátria. É o chamado circo de aberrações da era moderna.
quarta-feira, 21 de março de 2012
O amor que me prometeste
É como aquela nota de dez euros que perdi há dias. Será apanhado por alguém que lhe dará um uso pior do que eu.
terça-feira, 20 de março de 2012
...
Advogado que é advogado sabe bem o que é ter de lidar com devedores. É uma merda, inevitavelmente, o papel de cobrador de fraque, mas é uma merda especialmente acentuada nesta altura. Há dias reuni com um sujeito que deve uma pequena fortuna, na casa dos trintas, com aquela pinta de bon vivant bonitão. Com uma execução suspensa por celebração de um acordo de pagamento que também não cumpre. "Então como é, meu amigo?" perguntei-lhe eu, usando linguagem apropriada. "Ah, tempos dificeis estes, também eu tenho quem me deva, é assim que é a vida é hoje em dia, infelizmente, em vez de gerir o dinheiro que temos gerimos a dívida, como dizia o outro...". E eu ouvia-o e via-o, a interromper a conversa para mexer no Blackberry, os botões de punho e toda uma outra série de detalhes mais ou menos evidentes e chegou a minha vez de o interromper para o informar que ia prosseguir com a execução. Ele ainda esboçou um sorriso, ao informar-me que a sociedade já não tinha bens em nome próprio - mas perdeu-o logo quando comuniquei que ia requerer que ela prosseguisse junto dos sócios. A ideia de perder o seu carro e o seu Blackberry foram suficientes para passados dois dias fazer uma transferência no valor das prestações do acordo já vencidas. E depois há a Dona E., que conheci hoje e que há oito meses deixou de conseguir pagar a renda do restaurante que explora. Primeiro, pagava o que podia, o que nos últimos tempos traduz-se em nada. A Dona E. que diz que toda a vida trabalhou, que nunca se imaginou numa situação como a que vive agora, que treme ao falar comigo, que não para de falar para tentar explicar o que escapa ao seu entendimento e que me leva a pensar que só tem vergonha quem não tem razões para a ter.
sexta-feira, 16 de março de 2012
Teste Americano
a) “A love like that was a serious illness, an illness from which you never entirely recover";
b) “Love is all right for those who can handle the psychic overload. It's like trying to carry a full garbage can on your back over a rushing river of piss”;
c) “Love is by definition an unmerited gift; being loved without meriting it is the very proof of real love...I'm crazy about you even though you're neither intelligent nor decent, even though you're a liar, an egotist, a
bastard.”
bastard.”
d) "A man can be happy with any woman, as long as he does not love her".
e) "I love him to hell and back and heaven and back, and have and do and will”.
f) Todas as anteriores, estamos a falar de amor e nada faz sentido.
[citaçõezinhas do Bukowski, da Slyvia Plath, do Kundera e Oscar Wilde, não pela ordem certa, que não estou para isso].
Indigestão
Depois do almoço - e perante a fatalidade do fim das cápsulas no escritório, agravada ainda por um atraso na chegada da encomenda das mesmas- fui à pastelaria ao lado do meu trabalho beber um café. A beber sumo de laranja natural e a partilhar uma tosta, lá estava o casal Pipoca-Arrumado. Ela é um encontro mais ou menos comum, uma vez que o estaminé dela é aqui perto, agora ele, nunca o tinha visto e receava o dia, dizia sinceramente a quem, conhecendo a proximidade dos espaços laborais, me perguntava se já tinha tido tal visão privilegiada. Tive hoje e não me daria ao trabalho de escrever este post se não fosse só para desmentir aquele post cagão onde ele dizia que estava com um bronze do caraças porque tinha ido correr no calçadão e etc e blá blá.
Não está.
...
Já percebi porque é que esta semana foi uma sucessão de desilusões, recuos e merdas. É porque não partilhei o video do Kony e o Universo deve ter ficado zangado comigo.
Adenda
O post anterior foi determinado por um ultimato pessoal. Ou era uma sessão de negação amor-próprio ou era ir para cama afogar a almofada. Não sou assim tão espectacular, só para que saibam está a aparecer -me celulite no rabo.
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