Advogado que é advogado sabe bem o que é ter de lidar com devedores. É uma merda, inevitavelmente, o papel de cobrador de fraque, mas é uma merda especialmente acentuada nesta altura. Há dias reuni com um sujeito que deve uma pequena fortuna, na casa dos trintas, com aquela pinta de bon vivant bonitão. Com uma execução suspensa por celebração de um acordo de pagamento que também não cumpre. "Então como é, meu amigo?" perguntei-lhe eu, usando linguagem apropriada. "Ah, tempos dificeis estes, também eu tenho quem me deva, é assim que é a vida é hoje em dia, infelizmente, em vez de gerir o dinheiro que temos gerimos a dívida, como dizia o outro...". E eu ouvia-o e via-o, a interromper a conversa para mexer no Blackberry, os botões de punho e toda uma outra série de detalhes mais ou menos evidentes e chegou a minha vez de o interromper para o informar que ia prosseguir com a execução. Ele ainda esboçou um sorriso, ao informar-me que a sociedade já não tinha bens em nome próprio - mas perdeu-o logo quando comuniquei que ia requerer que ela prosseguisse junto dos sócios. A ideia de perder o seu carro e o seu Blackberry foram suficientes para passados dois dias fazer uma transferência no valor das prestações do acordo já vencidas. E depois há a Dona E., que conheci hoje e que há oito meses deixou de conseguir pagar a renda do restaurante que explora. Primeiro, pagava o que podia, o que nos últimos tempos traduz-se em nada. A Dona E. que diz que toda a vida trabalhou, que nunca se imaginou numa situação como a que vive agora, que treme ao falar comigo, que não para de falar para tentar explicar o que escapa ao seu entendimento e que me leva a pensar que só tem vergonha quem não tem razões para a ter.
terça-feira, 20 de março de 2012
sexta-feira, 16 de março de 2012
Teste Americano
a) “A love like that was a serious illness, an illness from which you never entirely recover";
b) “Love is all right for those who can handle the psychic overload. It's like trying to carry a full garbage can on your back over a rushing river of piss”;
c) “Love is by definition an unmerited gift; being loved without meriting it is the very proof of real love...I'm crazy about you even though you're neither intelligent nor decent, even though you're a liar, an egotist, a
bastard.”
bastard.”
d) "A man can be happy with any woman, as long as he does not love her".
e) "I love him to hell and back and heaven and back, and have and do and will”.
f) Todas as anteriores, estamos a falar de amor e nada faz sentido.
[citaçõezinhas do Bukowski, da Slyvia Plath, do Kundera e Oscar Wilde, não pela ordem certa, que não estou para isso].
Indigestão
Depois do almoço - e perante a fatalidade do fim das cápsulas no escritório, agravada ainda por um atraso na chegada da encomenda das mesmas- fui à pastelaria ao lado do meu trabalho beber um café. A beber sumo de laranja natural e a partilhar uma tosta, lá estava o casal Pipoca-Arrumado. Ela é um encontro mais ou menos comum, uma vez que o estaminé dela é aqui perto, agora ele, nunca o tinha visto e receava o dia, dizia sinceramente a quem, conhecendo a proximidade dos espaços laborais, me perguntava se já tinha tido tal visão privilegiada. Tive hoje e não me daria ao trabalho de escrever este post se não fosse só para desmentir aquele post cagão onde ele dizia que estava com um bronze do caraças porque tinha ido correr no calçadão e etc e blá blá.
Não está.
...
Já percebi porque é que esta semana foi uma sucessão de desilusões, recuos e merdas. É porque não partilhei o video do Kony e o Universo deve ter ficado zangado comigo.
Adenda
O post anterior foi determinado por um ultimato pessoal. Ou era uma sessão de negação amor-próprio ou era ir para cama afogar a almofada. Não sou assim tão espectacular, só para que saibam está a aparecer -me celulite no rabo.
Notas da experiência adquirida II
Podemos ser espectaculares - epá vou deixar o plural e fingir que isto não tem nada a ver comigo porque tem - eu posso ser espectacular e mesmo assim preparar-me para a eventualidade do que o que marca as pessoas ser aquilo que fiz mal. Em tempos, entrava em esquemas de esmagamento de amor próprio, perguntava durante dias a fio em que parte da cadeia da árdua tarefa de agradar aos outros tinham fracassado, questionava porque é que tudo corria bem ao mundo inteiro menos a esta pobre diaba. Por isso, em tempos, desisti do meu trabalho, entreguei-me a uma depressão de quase três anos onde existiram dias em que não saía da cama, contentei-me com uma vida em modo piloto automático. Mas passou. Agora tive uma semana onde só se lembraram de mim pelo mau, parece que combinaram todos, lembrarem-se de ninharias. E eu no meu modo zen, a tentar explicar que eram ninharias e a acabar por agravar tudo, porque quem se chateia por ninharias não admite que as classifiquemos como tal e fica pior do que um drag queen a quem se tira a peruca. E há pouco, estava sentada a tentar ler um pouco e senti um desânimo filho-da-puta, um ponto de interrogação gigantesco a perguntar "why the effort?". E depois lembrei-me: porque sou espectacular. E ainda há gente que não percebeu isso.
[e sobre as vantagens de seguir em frente ainda que amachucado recomendo ainda este que decerto já terão lido, mas que vale a pena reler]
quarta-feira, 14 de março de 2012
...
Não há pior que crime que a injustiça. Poderiamos dizer que a injustiça é a consequência de todo o crime e, em alguns casos, aquilo que também o motiva mas eu vou além disso. A injustiça per se é um acto criminoso, agravado quando cometida por alguém que apregoa a sua imaculada noção de justiça. É por isso que ficamos tão chocados com vemos um juiz a aplicar uma pena que sabemos ser imerecida, seja porque é demasiado leve ou demasiado pesada, porque há uma exigência que recai sobre aquela pessoa de ter uma capacidade maior do que o comum para a razoabilidade. Este texto não era para ser necessariamente sobre a injustiça mas achei que estava a um passinho de distância. Ocorreu-me tudo ao ouvir aqueles argumentos secos e vazios de conteúdo pela excessiva premeditação, era injusto mas ia além disso. Lembrei-me de algo que ele me disse, há tempos de forma indirecta, que «todos nós eramos merda» e «que a ética era evitar sujar os outros». Pergunto agora também de forma indirecta, como é que alguém é capaz de dizer algo tão real e verdadeiro e depois, porque lhe é conveniente, fazer de conta que aquilo não lhe é aplicável.
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