terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

O comentador anónimo-insultuoso: um breve estudo da figura ou se S. António tentou com os peixes eu tentarei com os demais

1 -Introdução

O presente texto não tem como ambição explicar este fenómeno da blogosfera, projecto que arrisco a dizer, seria impossível, devido a infinidade de nuances que se consegue antecipar, logo através de uma primeira e superficial abordagem. Pretende-se assim elaborar uma breve resenha da figura, esperando que não só sirva de mecanismo de auxílio para quem tem de lidar com esta situação - e não sabe como, porque não a entende -, mas que também sirva de mote para posteriores desenvolvimentos, por gente mais empenhada do que eu.

2 - A origem

O comentador anónimo-insultuoso é facilmente imaginado como alguém que na escola primária era alvo de chacota por parte dos seus colegas. A iminente obesidade infantil alimentada pelos lanchinhos de bollycao e bongo poderia ser um motivo de gozo, tal como uma fealdade provocada por uns óculos extremamente graduados, lábio leporino ou até quem sabe, uma pequena corcunda. Tal não passa de mito, afirmam os historiadores. A criança comentador anónimo-insultuoso era alvo de gozo e piadas por parte dos seus pares sim, mas devido a algo muito menos subjectivo do que as razões supra-expostas: a falta de inteligência. Contudo, como não possuia inteligência sequer para perceber que não era muito inteligente, cresceu convencido que era "normal", e como tal detentor de uma opinião válida como toda a gente que consegue estruturar uma ideia autónoma e própria. A pré-adolescência e adolescência revelaram-se épocas cruéis, onde o agora jovem começa a perceber que as suas posições podem-no afectar de alguma forma. Assim, começa a guardá-las para si, usando-as só quando sabe que não pode ser confrontado.

2 - A motivação

Tranvestida de boa, a motivação do comentador anónimo-insultuoso pode ser estranha e perigosa na sua substância. Acontece muitas vezes virem em defesa de alguém que gostam, de um blogger que seguem e com o qual o autor vítima do ataque discorda. Daqui levantam-se duas questões pertinentes:
                                    - Qual a relação que estas pessoas têm com a pessoa que não conhecem e que se sentem na obrigação de defender? Será que este comentador anónimo insultuoso anda a cortar várias partes de fotografias de revistas e depois cola-as todas juntas numa só figura, que depois idolatriza como a/ o blogger "x"? Será que em grandes alturas de grande dificuldade pensa "oh blogger x só posso contar contigo, se me concederes este desejo prometo que passo a ir trinta vezes por dia ao teu blogue em vez das habituais vinte?".
                                    - Como é que estas pessoas reagem na vida real quando um amigo real é criticado. Imaginemos que o Francisco chega-se ao pé do seu amigo, comentador anónimo-insultuoso, e desabafa." hoje estava numa reunião importante, a apresentar as minhas ideias e tal e depois o António veio e disse que aquilo não devia ser nada assim, que deveria ser assado, e etc...". Será que o comentador anónimo-insultuoso, vai secretamente esperar que a noite se ponha, para ir rebentar os quatro pneus do António, e escrever-lhe em espuma de barbear no vidro da frente "está mas é calado, oh filho-da-puta"?

3 - A explicação

O comentador anónimo insultuoso não entende que um dos princípios máximos da nossa sociedade é exactamente a liberdade de expressão, que faz com que sejamos livres para gozar inclusive com os chefes de estado. Não é só algo que é permitido que se faça, é um valor constitucional que pode e deve ser usado sem qualquer receio de constrangimento. A liberdade de expressão tem especial relevância quando queremos usá-la para criticar algo negativamente. É exactamente aqui que a mente do comentador anónimo-insultuoso fica toda preta e isto porque ele é apologista que "no seu blogue cada qual escreve o que quer", "que quem não gosta não lê" , "quem não gosta é ressabiado e invejoso". Ora, se é verdade que cada qual no seu espaço pode escrever o que quer, também é verdade que eu posso criticar, há uma sujeição a isso que todos nós subscrevemos quando publicamos coisas. "Quem não gosta não lê" e "se não gosta tem inveja", são ambos argumentos que falham e explica-se porquê através de um exemplo: todos gostavam da Casa dos Segredos? E gozavam com a Cátia porquê, porque tinham inveja dela? Bem, agora pensando um pouco, talvez não seja um bom exemplo...

4 - Conclusão

A crítica é uma prática saudável, mesmo a crítica jocosa que, pasme-se não tem de ser maldosa.  Quem não consegue perceber isto, é porque é ele próprio na verdade bastante mal-formado. O mais curioso disto tudo, é o facto do comentador anónimo-insultuoso ficar incomodado pela crítica ou gozo a algo que gosta. E como arma de ataque a isso faz não só aquilo que inicialmente o perturbou (a crítica), como alarga os limites até à ofensa, no cúmulo da incoerência. "Ai é, quem é tu achas que és para falar assim dos outros. Só por isso vou deixar-te um comentário a dizer que és uma merda!". À falta de urbanidade acresce então o anonimato - este explicado pelos complexos do costume, de gentinha medrosa e de merda que na vida real não deve ter coragem piar e na vida blogosférica só o tem, porque lhes é dada esta opção. São pessoas que como são capazes de fazer isto, acham que se deixassem o nome ou a ligação para o blogue delas, o "ofendido" e os defensores do ofendido, iriam fazer-lhe o mesmo. E isto é só revelador, mais uma vez, da incapacidade destas pessoas em perceber que felizmente, não somos todos iguais.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

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Tenho uma nova gata - temporariamente digo eu, dividida entre quer arranjar-lhe um dono e o ronron dela na manta polar que faz com que eu emane ternura por todos os poros da pele. Ele pergunta-me que nome lhe vou dar, respondo que não sei. Ele sugere "Miranda" e eu reajo entusiasticamente. Ele, incentivado pelo meu feedback, continua, Miranda como a princesa maltratada, que depois do naufrágio vai parar à ilha e é protegida por Ariel*. Ao que eu respondo "oh, só me lembrei da ruiva"**.

* alusão à "Tempestade" de Shakespeare.
** alusão ao Sexo e a Cidade, da HBO.

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Não é uma experiência inédita minha - aquela tida na infância de repetir, com variações de velocidade e entoação, a mesma palavra. Ao fim de um tempo, "passarinho" deixava de ser "passarinho", era apenas uma conjugação de sons, que embora me parecessem familiares, estavam já destituídas de qualquer sentido ou valor para o mundo da comunicação. Esta brincadeira é útil, porque ao fim de um tempo é inevitável o confronto com a fragilidade da nossa maior ferramenta como seres humanos. Consecutivamente, aprende-se a respeitar o peso das palavras e a guardá-la para as ocasiões certas, coisa extremamente importante num mundo onde as pessoas tendem a abusar de tudo que podem fazer sem gastar dinheiro, universo de actividades no qual se inclui o falar. A falta desta experiência de auto-descoberta explica que exista tanta gente, que por tudo e por nada, diga coisas como "adoro-te" e contudo, já não sinta à ponta de um corno, nem sequer empatia por quem os ouve e acredita que aquela exteriorização linguística tem o valor tido como normal.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Tentei explicar hoje mas entretanto desisti, fica o desabafo

Discutir quem nasceu primeiro, se a cabra, se o cabrão, é algo exactamente igual à questão da galinha e do ovo. Somos um ciclo contínuo de corações despedaçados a stilletos ou bota de tropa e todos já magoámos e fomos magoados.  Por isso vá, chega de lamúrias e chega de culpas.

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Na passada quarta-feira a Ourivesaria Aliança fechou na Rua Garrett, ao fim de 103 anos de existência. Agora é que é Lisboa. Agora é que te vais tornar memorável e inesquecível para todos os turistas, com estes produtos únicos que eles não podem adquirir lá nas terras deles, mas felizmente, podem fazê-lo aqui em lojas tipicamente alfacinhas como a Apple, a Nespresso, a Swarovski, a H&M e todas as marcas do grupo Inditex.  Podemos ir ao Vitaminas,  que teve o bom gosto de pôr uma plaquinha em letras antiquadas à porta, para fazer de conta que está ali há muito tempo, há tanto como estava a Ourivesaria Aliança, por exemplo. Antes olhava para o Chiado e reconhecia aquela Lisboa de Fernando Pessoa, aquela que o Eça descrevia tão bem. Hoje sei que ganharam os Dámasos Salcedes desta terra, com as suas noções do que é "chique a valer".

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Há sempre um dia, em que apesar de toda a literatura lida, percebemos que não temos vocabulário suficiente para responder a todos os desafios da vida...

..., conclui hoje, na farmácia, na hora de almoço. Depois de descrever a tosse assolapada que não me tem largado nas últimas duas semanas, e que me interrompe os telefonemas, faz com que me engasgue às refeições, não me deixa dormir e a senhora pergunta-me:

« E a expectoração tem que cor?»

E eu, encolhi os ombros e respondi,"cor de ranhoca".

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Ontem, encostei-me à parede daquele antro, de olhos fechados e alheada da única preocupação que me permito ter nas noites que saio - beber a cerveja antes que ela fique morta. A permissão desse alheamento - além do desperdício da imperial, despejada para um canto minutos mais tarde - abriu as portas para as outras preocupações anormais nestas circunstâncias. A noite consegue ser muito filha da puta, acho que todos temos essa noção. Descremos da existência de vampiros e espíritos, mas reconhecemos que as verdadeiras entidades do submundo, as mais sinistras, estão dentro de nós. Do mal ao menos, penso, há quem dê para fazer confissões, admitir que anda a dormir com x; outros mandam mensagens que acordam uns confusos destinatários que ficam a matutar naquele conteúdo, normalmente intimista, durante uns dias, enquanto o remetente nem se lembra daquilo; uns acabam a urinar na rua, elas atrás de um carro preocupadas em não molhar os sapatos, eles no cúmulo exibicionista da genitália, sem sequer saberem o que têm calçado. A mim, não me dá para fazer essas figuras, por isso é que digo que não é mau, que podia ser pior. Mas sim, encosto-me à parede, observo primeiro as minhas duas amigas que discutem a sério por um assunto de gajas, e penso depois, naquele momento de olhos fechados em que me abstraio da cerveja, que tenho sorte. Aquele homem é o melhor homem do mundo, e digo-o livre de suspeições, assente em critérios objectivos. E contudo, há tantos momentos em que quero fugir dele. Em que tenho raiva dele. O meu problema é que sou aquele estilo de miúda que se identifica com uma letra dos The Cure, em vez de com uma da Adele. Depois desse momento, atirei então o que restava da bebida para um canto e dirigi-me ao bar para pedir outra.