sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

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Uma das minhas fantasias - românticas, entenda-se- era que um dia me dissessem as três primeiras palavras do "All my loving". Instrução que eu, lamechas e obediente, respeitaria só para dar continuidade ao resto do verso.

Nunca aconteceu e a partir de hoje já não vale.

Soon it will be gone forever



[ O fim de muitas relações é assim. Com analgésicos emocionais de teor alcóolico ou químico. Diz-se coisas que não são sentidas - o que se sente é uma dor e um pânico indescrítivel não necessariamente causados pela outra parte, mas sim só pelo mau prenúncio. Sim, andamos direitos, vestimo-nos, utilizamos talheres à refeição e temos um sistema de comunicação mais complexo mas somos animais: e como todos os animais, quando descontentes mordemos e depois, numa segunda fase, ficamos tolhidos a um canto, desejosos que nos deixem em paz e sossegados da vida. E é aí que temos de aproveitar para fazer um breve período reflexivo. Breve, antes que tudo se perca para sempre.]

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Tenho uma grande embirração com  a PSP, justificada aviso já, por razões pessoais e profissionais. Contudo, a embirração passa a completo desprezo e a um sentimento de descredibilidade total quando vejo agentes a incomodaram constantemente um sem-abrigo que pára na Rua Garret com o pretexto de lhe perguntarem se tem os cães que o acompanham vacinados e com chip electrónico. Ameaçam sempre, se ele não tratar disso a curto prazo, da próxima vez levar-lhe os animais para o canil. De facto, só para um sádico ou para um atrasado mental é que parece razoável dizer tal coisa a alguém que a) não tem mais ninguém nem nada no mundo além daqueles animais que o seguem religiosamente; b) não tem dinheiro para comer. É a segunda vez que assisto à cena e deixo que a mesma me persiga o dia inteiro pela crueldade deles, pela minha cobardia. Por não ser capaz de lhes dizer, que a cinco minutos dali, na Rua Augusta e no Rossio, encontra-se droga, iPhones, cordões de ouro, todos oferecidos à descarada por gente que nada faz por disfarçar o negócio, exactamente porque sabem que a autoridade freudiana do bastão trazido à cintura só se aplica aqueles de quem os polícias não têm medo.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

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Sinto-me mais confiante com este novo turn face do destino quando na mesinha da recepção do meu novo escritório os clientes podem encontrar além do Público do dia e do Courrier Internacional, a última edição da Vanity Fair e da Elle inglesa.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Arriscar a Cabeça

“In spite of everything I loved you, and will go on loving you-on my knees, with my shoulders drawn back, showing my heels to the headsman and straining my goose neck-even then. And afterwards-perhaps most of all afterwards-I shall love you, and one day we shall have a real, all-embracing explanation, and then perhaps we shall somehow fit together, you and I, and turn ourselves in such a way that we form one pattern, and solve the puzzle: draw a line from point A to point B...without looking, or, without lifting the pencil...or in some other way...we shall connect the points, draw the line, and you and I shall form that unique design for which I yearn. .”

Vladimir Nabokov, "Invitation to a beheading"

Momento alto do ano até agora

Chego a casa ao meio dia e um quarto na seguinte figura: vestido preto tão curto que nem se vê por debaixo do casaco, botins com não sei quantos centímetros, ramelas pretas da maquilhagem que não chegou a ser tirada antes de dormir, o cabelo que ontem caia-me pelas costas em suaves ondulações transformado numa juba à Twisted Sister; mais a clutch, que é um acessório apropriado para se usar a um domingo para se ir à rua beber café, como bem sabem. Na sala de estar, meio apáticos pela velhice e meio excitados por terem chegado a 2012, os meus avózinhos de oitenta anos que tinham vindo para almoçar.

domingo, 1 de janeiro de 2012

One thing is certain, we'll never give in



Mal me vê aborrecida, amuada, triste ou se por outro lado é ele que pura e simplesmente quer desarmar-me e ficar a observar-me entregue e enternecida, recorre ao Youtube. Os videos com gatos são uma via fácil - podem estar a correr em passadeiras, a roubar comida do barbecue aos donos ou a fazer outra coisa extremamente cute pelas quais os gatos são tão apreciados pelas pessoas de requintado gosto. Episódios de filmes da Disney, em especial da Pequena Sereia e da Bela Adormecida, também são garantia de um mel automático da minha parte. Mas ontem, enquanto esperávamos pela meia-noite, ele decidiu puxar pela cabeça e pelos galões e ir desenterrar a música preferida da minha infância, cujo single naqueles vinis pequeninos, ainda tenho para aí. Subitamente, soube-me muito bem este caminho (quase) na recta final para os trinta, soube-me muito bem esta vida, soube-me muito bem sentir esta esperança de menina que fica bem-disposta e optimista só por ver um coro de sapos.