quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

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Nunca fui aquele estilo de mulher que aguardava ansiosamente pelos saldos. Que ronda determinada peça durante meses ao jeito de ave de rapina para finalmente, após uma espera que parece sem fim e inúmeras vezes que se sai insastifeita com o que se leva vestido (porque se pensa "ah agora aquele casaco é que ficava aqui bem") , comprá-la cinco euros mais barata. Tenho muitos defeitos mas a forretice não é um deles e acredito que mereço tudo que o dinheiro que ganhei me permite comprar - por isso, durante anos, se via uma coisa, se gostava dela e se me gostava de ver com ela, trazia-a para casa nesse mesmo dia comigo. Simple as that. Acontece que - não sei se já sabem - estamos em crise. E além da crise generalizada que me leva o dinheiro através dos mesmos meios que leva a todos, tive este ano a minha crise pessoal originada por ter voltado a estudar e pelo meu conflito existencial-profissional que me levou a fazer alguns disparates acerca dos quais não me pronuncio. O que interessa para o tema em questão é que o desafogo não era o mesmo e sim, por força das circunstâncias também eu me tornei a mulher que já tem vergonha de entrar na Aldo porque sabe que os funcionários vão lançar um sorriso trocista porque adivinham que ela vai lá ver aquelas botas mas não as vai comprar. Sim, este ano esperei pelos saldos. E esperei pelos saldos para reafirmar que não sou uma mulher de esperar pelos saldos. As coisas bonitas desaparecem. As coisas pequenas desaparecem. As coisas bonitas e pequenas que já tinhamos visto e conseguimos reecontrar estão discretamente inseridas na Nova Colecção.

Não, não vou entregar-me à bílis, ver o lado positivo da coisa é o que profetizam para a felicidade ali ao virar da esquina. Sendo assim respiro fundo, sorrio e penso: ao menos não gastei dinheiro.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Natal

Há uns anos combinámos o nosso primeiro encontro num sábado à noite. Cheguei ao Príncipe Real com quarenta e cinco minutos de atraso, com o nervoso típico da situação mais um adicional pela vergonha daquele atraso parvo e injustificado que não, não foi planeado para criar mais expectativa e fazê-lo sofrer de antecipação. Do nervoso "de vamos ver como isto corre" passámos ao nervoso "ai que isto está a correr muito bem". De todas as noites que tive na minha vida - podia quantificá-las mas não estou para isso - aquela foi a única que qualifico como perfeita, como de filme charmoso que inspira quem vê a ser romântico, a atirar-se sem coletes de balas para os braços de outra pessoa com quem se sonha ficar para sempre.  Enquanto esperávamos numa escada por lugar sentado num bar, aconteceu aquilo e ele disse-me aquilo e aí sim, nesse momento a 27 de Dezembro daquele ano, amedrontada, deslumbrada, rendida, fiz a transição da mera existência para a vida. Nasci. Neste 27 de Dezembro não muito mudou, aqui estou amedrontada, deslumbrada, rendida, apaixonada por ti.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

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Os blogues são tal e qual as drogas. Como se não fosse desgraça suficiente metermo-nos neles, é uma questão de tempo até arrastarmos os amigos.

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O problema do Natal não são bem aqueles excessos cometidos num serão e num dia - os pratinhos de sobremesa repetidamente compostos com um potpourri de sabores doces acompanhados a cálices (também eles repetidamente cheios) de Porto velho. Gosto de defender uma alimentação saudável mas flexível, somos humanos e o corpo por vezes faz apelos que não podem ser negados, para mais quando além desses próprios desejos intrísecos há todo um ambiente envolvente que convida a uma descida ao inferno da subida dos índices calóricos. Pois bem, o problema do Natal comecei eu por dizer, não é então o Natal, não é o enfardamento do estilo o "mundo vai acabar" a que se assiste naqueles dias e aceitável e compreensível exactamente pela ocasião mas sim, os restos. Tudo ficaria bem se findo o dia 25 se iniciasse uma dieta regrada com alface e brocólos, salmão grelhado, sopa de vegetais com courgette a substituir a batata, maçãs e chás detox. A verdadeira tentação começa a 26, supostamente quando já se devia voltar ao normal mas abre-se o frigorífico e vemos a carcaça do perú recheado com as batatinhas assadas. Espalhadas pelas diversas prateleiras do electrodoméstico, caixas com as sobremesas ontem rainhas da mesa, determinadas, obstinadas na sua missão de irem parar à gordura abdominal e não ao caixote do lixo.

Tenho para aí metade de uma "delícia de amêndoa" que tem sido a minha desgraça e um vestido preto, curto, justo e sem costas para vestir daqui a cinco dias. Sinto-me a Meryl Streep na "Escolha de Sofia".

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Estou triste porque estou a cair para o lado de sono e amanhã vou ter um dia para lá de cheio, duas coisas que aliadas ou não me obrigam a ir para a cama e assim renunciar ao visionamento natalício do "Love Actually" - momento que marca oficialmente o fim do Natal e início da ressaca do mesmo. Não se façam de desentendidos, sabem bem o que é aquela sensação de euforia esgotada que só deixa para trás um rasto de exaustão, estar com a barriga inchada de comida, copos, cafés e mais cafés acompanhados com mais comida e mais copos e finalmente encontrarmo-nos sozinhos com a televisão da sala, a manta polar e aquilo que queremos mesmo acreditar que vai ser a última filhós. E depois -nem acredito que vou perder isto! - é ver o Hugh Grant, fabuloso como sempre a fazer dele próprio mas aqui versão primeiro-ministro britânico a enrolar-se com a secretária na festa da escola de um puto qualquer. É o "amor a acontecer". E o Colin Firth  à procura da Lúcia Moniz num bairro típico lisboeta para lhe dizer que a ama e  todos os figurantes dessa cena - homens e mulheres, idosos e bebés- terem uma barriga e umas mamas que pendem até à cintura e bigodes tão senhores de si de grandes que até deveriam ter nome próprio.

E eu cheia de sono...

*faço beicinho e despeço-me*

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

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Gosto de pensar que a vida já me preparou para lidar com um leque variado de situações melindrosas mas de vez em quando lá sou posta à prova. Hoje, tentava manter-me séria e concentrada a falar com um cliente quando na verdade debatia-me numa feroz luta interior para evitar olhar para o nada subtil capachinho que o senhor tinha.

E agora algo a que não vos habituei - um post matinal

Hoje de manhã, enquanto punha os seis produtos na cara indispensáveis para sair de casa com um "ar natural" e "fresco", pensava que dormir com um dos meus gatos fazia a ideia de dormir acompanhada parecer extremamente desagradável. E isto porque o bicho ressona que nem um adulto e ocupa exactamente o mesmo espaço que uma pessoa - na verdade a culpa é minha que não sou capaz de o empurrar para o vazio que vai aumentando do outro lado dele e fico sempre à beira do precipício que é a beirinha da cama. Tudo isto me traz memórias menos queridas de mil e uma noites, onde em nome da partilha conjugal se sacrificava horas e horas de sonhos deliciosos. Depois caí em mim e adivinho que tenho aqui material para ficar deprimida o resto do dia. Ora, se durmo à mesma mal mais valia não ser por causa de um ser cujo maior entretenimento é estar na casa-de-banho à espera que alguém lhe abra a torneira do bidé. Já agora também tinha a parte boa da dinâmica que são os quinze minutos de conversa no escuro antes da sinfonia de roncos se iniciar; levantar-me de noite e quando volto para a cama a tiritar de frio poder abraçar-me a alguém que está quentinho, enrolar os pés nos pés dele e voltar a adormecer numa placidez quase infantil; e mais importante, ter um vozeirão masculino (ainda que balbuciante pelo sono) que me acalme quando desperta que nem um animal nocturno e acagaçada por causa do filme de terror visto ao serão, pergunto-lhe entre abanões tímidos "Que barulho é este? Não ouves este barulho?! Achas que são espíritos?".