terça-feira, 13 de dezembro de 2011

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Enquanto estava à espera do ínicio de uma aula no ginásio, entreguei-me ao chit-chat com uma rapariga que conheço de lá. Falávamos exactamente das nossas experiências na várias modalidades e com os vários professores quando ela me disse "ah eu gosto é quando o "Y" nos alongamentos mete a Adéle...Gosto tanto dela". Ao que eu, sem pensar duas vezes para me obrigar a ser educada, respondi "Olha eu não, acho que ela é um exemplo perfeito de indústria cultural, só clichés colados a cuspo para agradar ao máximo de gente possível". Ainda estive para desenvolver um pouco a ideia mas entretanto ela já me olhava daquele modo "deves achar que és muita boa, tu." e subitamente o silêncio pareceu-me uma escolha acertada. Beberiquei um pouco da minha água e pus-me a olhar para o ar, como quem não quisesse coisa.

Mas acho que percebi finalmente porque não faço amigas. E eu que estava a tentar convencer-me que era por ser muito gira que as outras mulheres não gostavam de mim...

Kryptonite

Há dois filmes - considerados verdadeiros clássicos - que eu nunca vi e dizia sempre que me recusaria a ver por falta do interesse minimo exigido. A revelação dos mesmos chocava especialmente os meus interlocutores do sexo masculino, que ficavam com a boca de lado como se tivessem padecido de uma ligeira trombose por terem tido contacto com uma pessoa que não viu o "Star Wars" e o "Alien". Percebia instantaneamente uma mudança de postura e percebia também que nunca mais levariam os meus gostos a sério mesmo que ficasse horas a falar do Kubrick, Hitchcock, Welles, Godard, Lynch, Bergman, Eisenstein ou Fellini. Contudo, ontem conseguiram destruir metade do dogma com a seguinte sugestão atirada subtilmente via sms « No Alien há um gatinho muito querido». E caso eu ainda não estivesse suficientemente cativada deram-me a estocada final «O Alien mata toda a gente mas não mata o gatinho. Ele não gosta de pessoas, só de animais. Faz-me lembrar alguém

Escuso de dizer o que já tenho aqui para ver.


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A má-educação tem sobre mim um efeito contagioso. Nem sempre foi assim, há uns bons anos atrás eu era o típico bicho do mato que aturava tudo e mais alguma coisa em nome do saber estar. A verdade é que chegou a uma altura em que as frustrações acumuladas com mil coisas que não podia controlar extravasaram-se para o contacto com aquelas pessoas com que nos cruzamos e que por uma razão ou outra nos irritam. É a velha que tenta passar à frente na fila do supermercado, só porque tem duas coisinhas para pagar e eu tenho um cesto e sendo assim acha que é desnecessário ao menos perguntar se me importava -  porque sei lá, podia ter que ir tirar o meu pai da forca, por exemplo. São aqueles homens que passam e dizem coisas indecorosas, que "faziam isto e aquilo" e que todas as noites devem reflectir porque é aquela dica não resultou com nenhuma mulher a quem não tenham também oferecido dinheiro. É a colega irritante que tem sempre de ter uma opinião e que essa opinião tem de ser sempre a certa,  nem que para isso tenha que inventar uma história que contrarie todas a leis da física. Para não ficar com problemas de consciência penso sempre que estas descidas do salto alto não são reais expressões de falta de educação mas a concretização de um ideal de justiça retributiva. Mas a realidade, aqui me confesso porque adivinho a vossa capacidade para guardar segredos, é que fico com remorsos. Fico a pensar que devia respirar fundo e esforçar-me para atingir um estatuto de ser humano elevado, porque bem sei que aqueles montes de conflito andantes são uma corja a precisar de uma válvula de escape porque também não conseguem lidar com as suas próprias contrariedades. Sendo assim, custa-me mesmo entender as pessoas a quem falta a educação de forma gratuita, a quem é possível detectar até alguma maldade consciente na forma como interagem com os outros. Hoje tive um exemplo disso mesmo - numa Zara de uma grande superfície comercial. Estavam duas caixas abertas sendo que a fila era única e estava formada em frente de uma delas. Aparece uma mulher, daquele estilo "tia falsa",  com a cara besuntada de base numa tentativa falhada de tentar ficar finalmente com uma dívida perante a beleza e vai directa para a caixa que não tem ninguém. A funcionária explica-lhe o óbvio - que todos nós que estamos ali em carreirinha não somos otários, que a fila é única. A cliente grita irrealidades que puseram a miúda da caixa completamente encarnada enquanto contrariada mete-se atrás de mim, que era a última pessoa. Por destino, quando chegou a vez dela, acabou mesmo para ir para a caixa a que se tinha dirigido primeiro e quando lá chegou diz com um ar triunfante "Vê, não me queria atender mas não teve sorte. É assim a vida...justa. Tem de levar comigo. É tudo para devolver!" e atirou com o saco para cima do balcão, num safanão desdenhoso que fez as peças saltarem todas lá de dentro para cima da rapariga e para o chão. Não, a vida não é justa, pensei. Seria se ela ao sair dali partisse o pescoço ao pôr mal o pé numa escada rolante e poupasse o mundo de futuros acessos histérico-estúpidos.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A cantarolar

«Eu sei meu amor que nem chegaste a partir, pois tudo em meu redor diz que estás sempre comigo.»

[pela única pessoa na blogosfera por cuja qualidade punha as mãozinhas no fogo.]

Auto-Retrato III (Versão Felina)*


* acho mais honesto dizer à partida que isto vai ser só plenamente entendido pelas três/ quatro pessoas que além de me conhecerem pessoalmente e lerem o blogue,  também já se sentaram a uma mesa para partilhar uma refeição comigo.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Cartaz das Artes

Amanhã vou ver o Macbeth com o José Raposo no papel de próprio Macbeth, na Casa Conveniente. Já estava dividida quanto a este programa porque associo-o aquele papel em que ele geria uma pensão cheia de habitantes curiosos, sempre metidos em mil e uma peripécias que faziam os meus avós rirem-se às gargalhadas naqueles serões da minha infância passados à lareira da casa deles. Mais recentemente - e tendo a perfeita noção que isto é uma opinião ultrapassada de se ter e que devia dizer algo do genéro "ah o amor não escolhe idades!" - tenho de admitir que aquele casamento com uma miúda quase trinta anos mais nova arrepiou-me assim um pouco. Isto é o superficial dos meus receios, o núcleo reside em reconhecer que Shakespeare não é para todos e não sei se será para mim. Não tenho o desenvolvimento necessário para ir ver uma peça de Shakespeare e sequer intuir todas as camadas de profundidade ali implícitas. Descobri entretanto que tinha ainda mais razões para ficar preocupada. A peça pretende ter aquele cunho alternativo e inovador que fica tão mal em determinadas obras que asseguraram os pedestais mais altos da criação artística humana - depois de ver digo-vos do que se trata e confirmo quase de certeza a minha antecipação de catástrofe. É claro que o meu cepticismo também está relacionado com a convicção que o momento alto cultural do meu fim-de-semana já foi. Hoje à noite na sessão da meia noite do Gato das Botas, no Dolce Vita Tejo.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Love is natural and real but not for such as you and I

Há aqueles que se auto-intitulam de idiotas por apaixonarem-se sempre pela pessoa errada. E depois há aqueles que nem de idiotas têm o descaramento de se qualificar porque se apaixonam sempre pela mesma pessoa errada. É claro que deixam escapar um detalhe - apaixonar, desapaixonar, re-apaixonar é um fenómeno que não existe e é fruto da tentativa de racionalização do caos interior que se sente nessa situação; por não se querer admitir que nunca se esqueceu aquela pessoa que caraças, fez-nos mal, magoou-nos, com quem não resultou, que é errada. É claro que deixam fugir ainda outro detalhe, este mais importante, errada não é a pessoa de quem se gosta mas com quem não se consegue manter uma relação; errada é a pessoa por quem não se sente nada e com quem se insiste em estar.