A conclusão que eu chego é que não vale muito lutar contra aquela intriseca vontade de abandalhar um pouco; não sei porque tento com todas as forças não deixar entrar um pouco de desleixo que quanto muito fazia com que as pessoas percebessem que não ando com muita paciência para merdas. Mas não, tenho uma mentalidade em certas coisas à mulher dos anos 50, daquelas que quando o marido descia de manhã para o pequeno-almoço já tinham posto os rolos no cabelo e pareciam saídas de uma revista, apesar de irem passar o dia todo em casa. Claramente não sou aquele tipo de deprimida que dá para não lavar o cabelo e palpita-me que hei-de estar no meu leito de morte preocupada com a simetria das sobrancelhas. Ontem então lá fui ao salão, cortei as pontas porque como sempre não tive coragem para cortar mais, depilei-me toda para as outras mulheres no ginásio não ficarem a achar que sou uma badalhoca e ao serão decidi-me a arranjar as unhas. Depois imaginam aquele frete de ficar à espera que as várias camadas que tive de passar para a cor ficar uniforme sequem, apesar dos vários recursos que supostamente aceleram este processo tal como abanar as mãos com uma entravadinha, soprar directamente para as unhas, ir à janela para apanhar ar fresco com o tempo a passar e eu já cheia de necessidades que implicavam a danificação da manicure, tal como ir à casa de banho, abrir um pacotinho de bolachas, mandar sms. Aparentemente, lá secaram e ficou tudo bem. Hoje acordo de manhã e apesar de me ter ido deitar horas depois de elas supostamente estarem secas, estavam todas estragadas, com aquelas marcas dos lençóis.Ora, isto para alguém que é ligeiramente obsessivo-compulsivo é indicativo de um dia que não começa lá muito bem. Claro, que antes de sair de casa, tive de as tirar e as pintar de novo, só atrasei-me para tudo mas que caraças, uma mulher tem de ter prioridades, sei lá se hoje não vou estar com o Príncipe Encantado.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
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No outro dia ele dizia-me que o meu maior problema era a falta de capacidade de decisão. A maturidade que escasseava para assumir que na vida determinados caminhos exigem que outros obrigatoriamente se fechem e que ser adulto é aceitar isso, com resignação se não correr bem, com resignação se correr bem mas por vezes sentirmos a vertigem das tentações que aquilo que não é melhor mas somente diferente nos provoca. Pôs-me a chorar porque reconheci a veracidade, sei que não passo de uma teenager (não no físico já afectado com uns bons anos de gravidade), sou temperamental e impulsiva, o que hoje é um drama com contornos gigantescos de fatalidade, amanhã já é algo mais ou menos trivial ao qual dedico umas breves nuvens de pensamento. Lembrei-me primeiro da metáfora dos figos, depois do ditado popular que fala dos pássaros na mão e dos pássaros a voar. Agora enquanto pensava nisso, percebi que o que me deixou totalmente inabilitada, de pernas cortadas, não foi aquela apatia na qual me reconheço desde a adolescência que embora constante não foi definitivamente impeditiva de nada. O que deixou danos na minha capacidade de decisão foi exactamente eu outrora ter decidido sem hesitações. Escolhi-o, não daquela forma normal e tácita em que escolhendo-o abdicava dos outros homens, que é o que todas as mulheres decentes fazem quando iniciam uma relação; escolhi-o a ele não para ser meu namorado mas para ser a minha vida numa altura que me parecia obsceno dar partes de mim, da minha atenção, do meu tempo ao trabalho, aos amigos, à família, aos gatos, aos hobbies, aos raios que me partissem. Acharam que eu estava doente, obcecada - mas ora esta, o que é o amor se não a doença mais antiga que se conhece e porque caraças os maiores génios da história da arte sempre o materializaram na sua obra como algo difícil, sofrível, a maior experiência que o Homem pode vivenciar como tal, algo tão grandioso que diminui (tudo o resto e a nós próprios que percebemos que até amar somos iguais a vacas a pastar) se afinal todos estes esclarecidos emocionais têm legitimidade para dizer que era louca porque a Cosmo afirma que o amor deve ser algo cómodo, que nos faz sentir sempre muito bem? Bem, deixemos as teorias modernista que me escapam provavelmente pelas mesmas razões que não acho graça aos filmes da Julia Roberts, o que me lixou pensei há pouco, foi essa escolha estrita, rigorosa, disciplinada, cega. Quando o fiz não fechei os outros caminhos com uma fita amarela de "não trespassar", rebentei aquela merda toda com minas. Como lhe explicar agora que lá por ele não me ter escolhido também a mim não significa que eu tenha revogado a minha decisão de só o querer a ele?
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Aquela mania portuguesa de esperar sempre o pior das coisas...
...nem sempre se concretiza. Haja fé.
Elogio da Loucura
Hoje ao início da noite estava sentada num banco no Rossio à espera do transporte para casa quando reparei numa senhora de meia idade em quem não era preciso muito para reparar. Não sei se seria sem-abrigo, não tinha aquele ar de surro mais do que entranhado nas feições e nas mãos e acima de tudo não tinha aquele ar necessariamente desgastado provocado pelos acessos impiedosos do frio, do sol, da chuva, da humidade, da poluição central. Vinha também vestida normalmente, eram quase nove da noite e estava frio, estava composta para a temperatura, de collants de lã, sobretudo e chapéu de feltro, embora este antiquado. Num braço trazia um ramo enorme de flores amarelas cujo nome desconheço e na outra mão, uma garrafa de água - reparem água e não vinho- na qual bebericava energeticamente de tempos a tempos. Cantava altíssimo e quando passava demasiado perto de alguém curvava-se numa vénia com o seu quê de cerimonioso mas nada de serventil, enquanto se desmanchava em sorrisos. Naqueles minutos em que esteve no meu campo de visão - depois veio o autocarro- achei que ela tinha sorrido mais vezes para estranhos do que eu nos últimos meses para conhecidos. "Coitada, deve ser maluquinha", calculei. Depois pensei "Coitada? Ao menos parece feliz.". Concluí que a única coitada deste episódio era eu - não no sentido de auto-comiseração da coisa - mas sim por ter-me permitido chegar a um grau de cinismo onde a mais prosaica expressão de alegria se traduz automaticamente numa qualquer forma de inimputabilidade.
domingo, 27 de novembro de 2011
Às Pescadinhas de Rabo na Boca
Tenho saudades de quem não tem saudades de mim. O que faz com que continue a ter afectos por quem não tem afectos por mim. O que por sua vez leva a que não consiga esquecer quem já se esqueceu de mim. E assim, tenha saudades de...
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
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Tenho uma conhecida minha que quando embirrava com outra mulher - coisa que estranhamente acontece com uma frequência assustadora - aplicava-lhe sempre o mesmo elegante diagnóstico "que estúpida. vê-se mesmo que é mal-fodida". Da primeira vez achei graça à espontaneidade com que disse aquilo. Algumas vezes tive de admitir, ainda que só para mim, que se calhar a origem do problema seria mesmo essa. Ao fim de um tempo fartei-me da conversa. Normalmente guardo as opiniões negativas porque - acreditem lá no disparate!- não gosto de arranjar conflitos mas também quando tenho mesmo de dizer o que estou a pensar/ sentir recalco eficazmente os delica-doces e perco a sensibilidade. Ou melhor, a noção da sensibilidade alheia. Nesse dia observei, com alguma perniciosidade admito, que as pessoas tendem a achar que o problema da vida dos outros é aquilo que também as preocupa a elas. Dei então exemplos: quem se preocupa excessivamente com o trabalho não consegue imaginar ou quanto muito perceber porque outros sofrem de ansiedade por outras coisas que não o trabalho; outras são as relações familiares, os filhos, os pais; outras o dinheiro; e por aí fora. Ela não me disse nada, fingiu-se de desentendida mas percebi que apanhei-lhe o calcanhar de Aquiles e doeu-lhe como se em vez de palavras tivesse usado a dentição completamente desenvolvida de um rotweiller. Mudou de conversa sem antes me mandar um olhar fulminante que deixava transparecer o mesmo juízo do costume: agora era eu que devia andar com carências inconcretizadas. Não tive forças, nem acho que valeria a pena explicar de qualquer forma, que o problema da maioria das pessoas não é o sexo mau ou inexistente, que quanto muito gera umas frustrações mas não aquela infelicidade pura que muda, transtorna. O problema que corrói o amâgo, o core das pessoas e transforma-as progressivamente numas bestas supostamente socializadas nunca poderá ser o sexo ( que caraças, até é algo que é transaccionável) mas unicamente a falta de amor. Mas qual o gozo de dizer isto a uma pessoa que nem me saberia responder que essa conclusão só também é possível porque tenho razão. Só também acho isso porque esse é o meu pânico. Não o ser mal-fodida mas sim o ser mal-amada.
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