sábado, 22 de outubro de 2011

Descontrolada



Às vezes meto o meu iTunes no modo aleatório e aparecem-me coisas que já não ouvia há séculos. Esta teve uma razão em especial para cair no esquecimento; fiz em tempos uma viagem enorme de carro com ele e só tínhamos um cd que ouvimos repetidamente quando o rádio só começou a apanhar frequências esquisitas. Curiosamente, apesar da exaustão daquela colectânea home made, só me lembro desta e da Eleonor Rigby. Ouvir uma ou outra remetiam automaticamente para aquela sete horas na Primavera de 2009, para os disparates recíprocos, para as festinhas que lhe fazia na cabeça enquanto conduzia, para todas aquelas paragens nas áreas de serviço manhosas com aquelas personagens indiscritíveis que surgem sempre que estamos em viagem e que parecem saídas de uma qualquer cena de um qualquer filme do Tarantino. Pensei que fosse só comigo - esta cristalização destas memórias em particular. E isto porque tendemos a guardar coisas distintas, achava eu: nós, as mulheres, pregamos como recordação mais querida o momento em que ele disse que gostava de nós e intuímos finalmente que podia ser a sério; eles, homens, fixam a primeira vez que nos conseguiram desapertar o soutien. Sensibilidades, repito, achava eu. Até que no outro dia falava com ele e disse-me que uma das lembranças mais queridas que tinha tido de mim, ao longo deste tempo todo, era exactamente desse dia, de mim a cantarolar (mal, acrescentou com lata) ao som desse cd. Parecias feliz, concluiu.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Determinadas pessoas em vez de se meterem em relações deviam mas era investir, consoante os gostos e/ou orientação sexual, num vibrador ou numa boneca insuflável. Mas daqueles bons, com categoria; os vibradores com uma bateria com duração de fazer inveja aos coelhinhos da Duracel, as bonecas com umas maminhas que ao toque parecessem reais. Tenho em crer que lhes saía mais barato a longo prazo, não se chateavam com aquela coisa incómoda e claramente démodé chamada "sentimentos" e acabavam por ter - quiçá ainda de forma mais fácil - aquilo que procuram no envolvimento com os outros.

Olá

Bom dia. Acabei de passar uma hora e tal à espera para ser atendida num hospital privado. Quando chegou finalmente a minha vez, o médico - que não consegui percebi se era homossexual, pedófilo ou só tarado- disse-me "ohhhh uma carinha tão linda e tão tristonha" e eu fiz um esforço para que o pensamento que brotou automaticamente na minha cabeça (vai pó c#*&lho) não coincidisse com as palavras que sairam pela boca (não me estou a sentir bem, sabe). Fez-me a consulta do costume, passou-me a receita, desejou-me as melhoras e distraiu-se ao desejar-me também que o fim-de-semana que se afigura péssimo, fosse bom.

É dia 21 de Outubro e é oficial. Sou a primeira pessoa da blogosfera a ter uma amigdalite este Outono/ Inverno.

Do meu eu de dezoito anos

Não queria nada. Não queria o tempo livre que inutilizava nas baldas às aulas para ficar nos cafés e nas sestas de três horas. Sim, porque estar na esplanada da faculdade a manhã inteira a enfrentar o Sol e a proteger-me do ataque dos pombos que voavam a pique sobre as mesas para apanharem os restos das sandes (um pesadelo para a minha ornitofobia, só me lembrava da Tippi Hedren a ser bicada pelas gaivotas) era extremamente cansativo. Não queria o meu corpo da altura, nem o meu corte de cabelo - e Deus me livre!- o estilo, chamemos-lhe assim, por descargo de consciência. Não queria decerto a minha conta bancária. Nem os gajos que andavam atrás de mim na altura. Acrescento, nem queria os gajos de quem eu andava atrás. Não queria a ambiguidade daquela felicidade das quintas, sextas e sábados à noite, provocadas pela quantidade de vodka-limão que bebia e do imenso vazio que era o dia seguinte, quando não me lembrava de nada e supostamente tinha sido muito giro e tinha-me divertido imenso. Não queria o meu número de telefone, qualquer coisa do tipo 9#6969#96, motivo de muitos olhares que se arrogavam a cúmplices e sorrisos descaradamente marotos, como se eu tivesse chegado à loja do operador móvel em questão e tivesse pedido por um contacto que fosse meio caminho andado para piadas porcas. Não queria nada daquela idade, não queria nada de volta, estou muito melhor assim e não mudarei de opinião até chegar aos trinta.

Não queria nada, digo. Pensando melhor, se calhar as certezas davam jeito.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fui

Mas antes só quero dizer que acho a gíria para o sexo oral praticado por uma mulher a um homem, utilizada no post anterior, muito feia e sinto-me envergonhada somente de vê-la escrita. Gostei da lição de moral com ordinarice à mistura e não resisti em partilhar. Só me resta agora fazer muitos posts de qualidade duvidosa, em ritmo de rajada de metralhadora, para a malfadada palavra sair da página principal. Este foi o primeiro, como qualquer um de vocês, gente necessariamente inteligente que por aqui para, decerto já antecipava.

Boa noite e vemo-nos amanhã, partindo do princípio que não temos um AVC (pode acontecer).

Só um memo para o menino e para a menina

«Sê gentil comigo, Joanna, foder e fazer broches não é tudo».

Charles Bukowski, Mulheres

Como é possível ir para a cama e deitar-me, adormecer, eventualmente sonhar, sem esta pontada sufocante de culpa? Alguém com mais prática ou menos consciência - quero lá saber da habilitação, procuro estritamente a eficácia de resultados - que por favor diga-me, como ignorar o gosto acre a má pessoa, a ingrata, a mal-agradecida com a sorte, os Astros, Deus, o Destino, com a puta que os pariu a todos. Quero livrar-me deste feeling de cretinice que já nem sei onde termina para começar o eu. Como esquecer que a minha recém-descoberta impertinência e teimosia disfarçadas de atitude defensiva justificada levou a pessoa mais importante da minha vida a dizer-me, "com isto, partes-me o coração." Como explicar que aquelas palavras, daquela boca, partiram também o meu?