Os meus amigos são os melhores do mundo, só assim se explica que ao perceberem que estou mais uma vez naquele estado absoluto de inadequação arrastam-me para um jantar e copos a uma segunda-feira à noite. Quando chego a casa, já tarde e com as emoções amansadas pelas garrafas de vinho e pela sangria de espumante, deito-me e leio o seguinte:
«Por vezes parece que as coisas serão assim: tu tens tal tarefa a cumprir, dispões de tantas forças quantas são necessárias para a levar a bom termo (nem muito, nem muito pouco, sem dúvida te é necessário concentrares-te, mas não tens que estar ansioso), com bastante tempo teu e boa vontade, onde está o obstáculo ao êxito dessa imensa tarefa? Não percas tempo a procurá-lo, talvez não exista.»
Directamente de um livrinho que recomendaria a todos que gostam de pensar, A antologia das páginas íntimas, de Kafka, o meu atormentado de eleição. E choramingo um pouco a pensar nisso e na sinopse da minha vida - essa contínua busca de obstáculos onde não existem e a cega negação deles quando me aparecem ostensivos e ordinários à frente. A constante ilusão das qualidades que supostamente eram boas mas que no fim nunca são suficientes e deixam-me a questionar se afinal as tenho ou não.