quarta-feira, 31 de agosto de 2011

O que eu gostava mesmo

Era de tornar-me uma blogger mesmo muito conhecida e que isso originasse que começasse a receber emails de pessoas que me pediam ajuda e conselhos. Sempre gostei de ler o Consultório da Maria e juro que adoraria disponibilizar toda a minha estabilidade e segurança emocional  ao serviço de terceiros, "Oh cara X, eu não a conheço de lado nenhum, e só sei o seu lado da história - costuma haver outro - mas digo-lhe já sem sombra de hesitação, que devia deixar esse homem, apesar de serem casados há 16 anos e terem quatro filhos. É que desculpe lá que diga, você casou com um canalha. Repito: não a conheço de lado nenhum, mas digo-lhe já que o seu marido é um filho-da-puta. Coragem."

Sonhemos.

"Mas fui vencida pelo cansaço, nosso amor foi enterrado e descansa em paz" *

Oito meses depois daquilo que julguei na altura ser o fim da minha já precária e débil saúde mental o estado de espírito é mais ou menos este, retratado nesta música altamente foleira.



* [ em paz, em paz, não sei se descansa. Agora bem enterradinho e em elevado estado de decomposição está ele. É o que se quer.]

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Relógio Biológico - Parte II

Nunca fui uma pessoa que ligasse especialmente a crianças ou que tivesse um sentido maternal apurado - já em pequena quando as minhas amigas de brincadeiras tratavam excepcionalmente bem dos seus Nenucos, eu cortava-lhes o cabelo e deixava-os andar todos nus, só com um chapéu na cabeça, durante dias. Contudo, de há uns meses para cá algo de anormal se passa e admito que me descontrolo um pouco na convivência com bebés e crianças pequenas. As pessoas com quem desabafo acerca disto dizem-me todas que é normal - que se trata de uma armadilha biológica do nosso organismo, para nos lembrar que estamos no auge da nossa capacidade reprodutora e que enquanto agora temos por mês um quantidade razoável de óvulos que seriam facilmente fecundados à segunda ou à terceira tentativa, com o passar dos anos não vai ser assim, e se nos atrasarmos acabamos a passear um carrinho de bebé...com um caniche lá dentro. Eu concordo, porque racionalmente sei que - se por obra e milagre do Espírito Santo- eu engravidasse agora, tinha logo ali um acidente vascular cerebral, mas o problema é o lado animal, o instintivo. Hoje fui almoçar com umas amigas minhas, sendo que uma delas foi mãe há cerca de um mês. Eu ainda não conhecia a menina e quando a vi no cestinho, de sapatos cor-de-rosa e touquinha de bordado inglês ouvi a porra de um tic-tac, tic-tac insistente. Passada meia-hora eu ainda estava com a bebé ao colo, a comida a arrefecer no prato há uns dez minutos. As minhas outras amigas já estavam impacientes porque também queriam pegar nela e eu parecia o Gollum agarrado ao anel. Até que a mãe lá a arrancou dos meus braços, com a desculpa que eu tinha de almoçar mas eu percebi perfeitamente que ela já estava era receosa que eu raptasse a filha. Compreensível.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Não, não se está em negação por aqui

Querida Zara,

Bem sabes que te tenho em alta consideração e é só por isso, por causa da nossa relação de vários anos iniciada nos provadores da secção infantil, continuada nos cabides da Trafaluc e amadurecida na zona de senhora que te escrevo este breve aviso. Caso contrário, se inexistisse algum respeito e eu não precisasse dos teus básicos a 19.99, iniciaria um boicote imediato a todas as vossas lojas e não me custaria nada, digo-te já, porque aqueles vossos manequins feios e montras minimalistas nunca seriam suficientemente convidativos ou dissuadores.

Hoje estava numa das Zara da Rua Augusta a experimentar umas skinny jeans 34, quando de forma inexplicável, surpreendente e chocante reparei que elas não me passavam das coxas. Pensei que tinha trazido umas calças número abaixo, mas não, estava aparentemente tudo bem e certo.

Ora fiquei chateada, porque as calças eram muito giras e só custavam 29.99 e por isso dediquei alguns minutos a pensar na razão que teria despoletado tal fenómeno embaraçoso. Não me estava a ocorrer nada, quando de repente percebi - tão óbvio - que só poderia tratar-se de um erro de etiquetagem da vossa parte.

Pronto desta passa mas que não se repita.

beijinhos

Make Over Day

Wish me luck.

domingo, 28 de agosto de 2011

Como te compreendo

«I saw my life branching out before me like the green fig tree in the story.  From the tip of every branch, like a fat purple fig, a wonderful future beckoned and winked.  One fig was a husband and a happy home and children, and another fig was a famous poet and another fig was a brilliant professor, and another fig was Ee Gee, the amazing editor, and another fig was Europe and Africa and South America, and another fig was Constantin and Socrates and Attila and a pack of other lovers with queer names and offbeat professions, and another fig was an Olympic lady crew champion, and beyond and above these figs were many more figs I couldn't quite make out.  I saw myself sitting in the crotch of this fig tree, starving to death, just because I couldn't make up my mind which of the figs I would choose.  I wanted each and every one of them, but choosing one meant losing all the rest, and, as I sat there, unable to decide, the figs began to wrinkle and go black, and, one by one, they plopped to the ground at my feet. »



Summer love (ou a prova que faltava da minha falta de jeito com os homens)

Tinha vinte anos quando fui de férias com as minhas amigas da faculdade para o Algarve. No primeiro dia o grupo estava incompleto, erámos só três, sendo que as outras três vinham ter connosco no dia seguinte. Nessa tarde, lembro-me de estarmos na cozinha vindas da praia a beber shots de vodka, a cozinhar e a cantar o Love is a Battlefield da Pat Benatar, doidas de expectativa, da liberdade, do fim dos exames. Nesse dia jantámos, demorámos hora e meia a arranjar-nos, a trocar e a emprestar roupas e brincos e depois fomos sair de braço dado para não nos espatifarmos nos saltos e/ou no alcóol. Estavámos sentadas no primeiro bar quando reparámos em quatro tipos na mesa ao lado a olhar para nós,  até que finalmente um deles mete conversa e pergunta se nos podem oferecer uma rodada. Eu, que nunca gostei desse tipo de engate, fiquei logo toda empertigada e respondo que não mas a P., que era a mais descontraída e a que mais percebia de homens, chamou-me logo de parva e não só aceitou, como os convidou a sentarem-se connosco. Eram franceses, tinham a mesma idade que nós, e estariam na cidade pelo mesmo período - bebemos à custa deles durante a hora que durou a conversa e no fim, quando nos quisemos ir embora para outro lado, eles perguntaram se podiam ir connosco. Mandei um olhar enfurecido à P.  Contudo não sei como as coisas se desenrolaram (ou melhor sei mas não quero dizer) mas para aí as quatro da manhã um deles, o D. que era todo esotérico já estava a dizer que curava a P. das dores de garganta que ela começava a sentir através de energias Reiki e ela já estava absolutamente apanhadinha e eu, e eu apanhadinha estava pelo S. que depois de me rodopiar a noite inteira ao som daquelas músicas latinas que inevitavelmente passam naqueles bares rascos algarvios para os estrangeiros acharem que estão num  sítio exótico, começou-me já na rua a falar de cinema francês. Dizia-me ele "mas o bom, não são aquelas merdices recentes, estou a falar da Nouvelle Vague, o Godard, o Truffaut, o Rohmer, conheces?"  e eu só pensava que aquilo era digno, ao menos não tinha sido eu a cair nas terapias Reiki, cinema francês era engate digno. Nessa noite despedimo-nos e combinámos encontrar-nos no outro dia na praia, já depois das nossas outras amigas chegarem. Assim foi e passámos um dia muito divertido até que chegámos a casa e íamos sair com eles à noite outra vez e a N., uma das amigas recém-chegadas, saiu-se com a seguinte:

- E aquele S.? O que é aquilo? Aquele é para mim!

Nós tinhamos aquele compromisso tácito que à primeira apropriação as outras tiravam a pata de cima. Eu percebi que estava fora de jogo e entreguei-me à cerveja, numa tentativa de mentalização do grau de estoicismo que me seria exigido nos próximos dias. O que aconteceu foi o seguinte: ele não estava dentro das nossas lealdades femininas e continuou a tentar ser engraçado comigo. Eu ia para a água, ele vinha para água, aparecia-me com gelados e bebidas, convida-me para dançar e eu ao fim de um tempo já pensava que caraças, eventualmente, a minha amiga iria perceber que ele estava interessado em mim e deixaria a costa livre, mas ela não percebeu ou fingiu que não percebeu e continuámos no mesmo impasse. Chegámos à última noite e combinámos ir a uma famosa discoteca começado com K, que em Agosto parecia Lisboa. O rapaz estava extremamente agressivo porque era a última oportunidade e fez uma pequena cena, quando toda a gente achou que ele que era um homenzarrão de quase 1,90 devia ir à frente no carro e ele insistiu que não, que queria ir atrás comigo. Durante o caminho, não se calou, atrapalhava-se imenso e do nada punha-se a falar comigo em francês e eu já nem conseguia olhar para ele sem olhar para a boca dele e pensar "beija-me já" e então remeti-me a abrir a janela e a virar-lhe as costas enquanto observava a paisagem a passar a grande velocidade no escuro.

Não aconteceu nada. Nesse dia de madrugada despedimo-nos e a história podia acabar por aqui mas não ( e o post já vai longo). Dois dias mais tarde - eu já em Lisboa, ele em Paris - começámos a falar no msn, e ele pergunta-me logo à descarada porque é que eu tinha sido tão evasiva. Eu contei-lhe a verdade, ele fartou-se de gozar comigo e eu aí, pela primeira vez senti-me muito estúpida. Continuámos a falar, a trocar emails, faziamos aquelas coisas idiotas tipo mostrar os nossos quartos e os nossos animais de estimação pela webcam e ficámos amigos. No Verão seguinte, eu marco uma viagem a Paris, com outro grupo de amigas e quando lhe conto ele fica histérico e diz que me vai mostrar imensas coisas e vamos divertirmo-nos muito e passámos para aí um mês a falar disso. Combinámos então que quando chegasse a Paris dizia-lhe alguma coisa. Na viagem para lá, começo a achar que aquilo é uma péssima ideia, lembrava-me daqueles dias no Algarve como uma espécie de momento à Lost in Translation e receava que se acontecesse alguma coisa se quebrasse a magia daquela memória e por isso, não lhe disse nada. Só falei com ele quando regressei, e ele estava furioso comigo, que não lhe tinha respondido aos emails e que ele até tinha ficado preocupado com o que poderia ter acontecido a um grupo de miúdas a viajar sozinhas pela Europa. Contei-lhe a verdade mais uma vez e desta vez ele não achou graça nenhuma e disse-me "Sabes qual é o teu problema? Pensas demasiado."

E nunca mais falámos e seis anos mais tarde, pensar, continua a ser o meu principal problema.