quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O concílio das gajas reúne ordinariamente uma vez por mês, normalmente num bom restaurante de sushi que não é noite para ser poupadinhas, sem prejuizo de poder ser convocado extraordinariamente quando apareça uma situação justificante. Hoje à noite fizemos uma sessão mais restrita que o habitual, mudamos o cenário e decidimo-nos a ir a um mexicano porque adivinham-se uns momentos que pediam teor alcoólico mais elevado do que o costume. O tema nunca varia muito - em tempos estivemos todas encalhadas e queixavamo-nos disso, as perguntas que saltitavam das nossas mentes perturbadas pela falta de afecto para a mesa eram sempre relativas aos problemas que os homens deveriam ter para não repararem em tão bons exemplares da espécie feminina como nós. Depois o tempo passou, eles lá acabaram por surgir ao ritmo e do jeito que o filho-da-puta do destino quis. Passados cinco/seis anos das nossas primeiras sessões num Verão em que estavámos todas solteiras e fomos viajar e conhecemos três gajos enquanto nós eramos cinco, e depois percebemos rapidamente que eles eram uns chatos do caraças e percebemos também que iamos ser nós e que estavámos muito bem assim, as relações e os casos, mais ou menos sérios, mais ou menos condenados ao sucesso e ao fiasco foram-se acumulando. Se o interesse foi incrementado, pelas cenas picantes e pela descrição do gestos românticos dos nossos casanovas de trazer por casa, a verdade é que muitas vezes, continuavámos insatisfeitas. Agora a questão perturbadora era porque é que afinal eles não podiam ser como nós queríamos. Custa assim tanto ser perfeito, custa? No concílio de gajas destila-se a raiva e o ressentimento contidos com olhos rasos de lágrimas e no fim espera-se que as outras, solidariamente, depois de atentamente ouvirem o rol de queixumes e cruzes empurradas a Coronas relativizem a questão. E ouve-se e acredita-se porque sabe-se que aquelas ali, que naquele momento dizem que se trata de imaturidade, que elencam as coisas boas, que pintam um optimismo que quem sente não consegue experimentar, seriam as primeiras a castrá-lo caso ele se atrevesse a fazer merda de grau sério. Respira-se fundo umas dez vezes, ficamos constrangidas quando os mariachi metem-se mesmo ao lado da nossa mesa a cantar a cucaracha, trocamos as prendinhas compradas nas férias e já podemos voltar à futilidade de comparar os bronzeados, enquanto comemos a cheesecake de maracujá a três. No fim da noite, acompanhamo-nos umas às outras aos carros, combinamos novo rendez-vouz para daí a uns tempos, beijinhos, os últimos apelos de coragem, os últimos olhares confidentes e encorajadores e quando finalmente conseguimos arrancar o tal sorriso esperado, sabemos que já podemos ir para casa dormir e call it a night.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Indicios que não sou boa pessoa

Ao serão gosto de ver o Biggest Loser (o americano, que a Sic Mulherio voltou  a passar agora que acabaram os bimbos lusitanos) enquanto como gelado directamente do pacote ou bebo coca-cola aos litros, acompanhada de um pacote de bolachas shortcake. Muitas vezes tive este ritual e sentia-me absolutamente miserável com a vida que tinha mas enquanto via os gordos a debaterem-se em tentações indecentes (comer ou não comer esta fatia de brigadeiro de 800 calorias), em desafios físicos auspiciosos (subirem montanhas ou descerem desfiladeiros enquanto gritam com medo que as cordas de segurança não aguentem com eles) e a chorarem nas pesagens porque depois de oito horas de exercício diárias e da porra da dieta Atkins perderam só dois quilos (nessa altura, e é por isso que aquilo está muito bem feito, fazem aquelas entrevistas pessoais onde eles revelam os traumas pessoais que os conduziu à obesidade e deixam escapar muitas vezes o mau carácter estatuído em intrigas dignas de uma corte palacian), sentia-me bem, pensava podia ter 140 quilos e afinal estava a enfardar aquilo  tudo e nem chegava aos 50. E ia dormir relaxada.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Quatro meses

Quando cheguei a casa reparei que o estado da minha secretária era o seguinte: uma caixa cheia de bijuteria amontoada; uma garrafa de litro e meia de água que já deve ter para aí duas semanas; uma garrafa de meio litro de água que não faço ideia de quanto tempo tem; um creme hidratante; uma caneca com um resto de sumo; um amontoado de livros, que incluem códigos jurídicos nos quais não pego desde o fim dos exames (há dois meses); um necessaire cheio de vernizes vermelhos e cor-de-rosa, claro; uma toalha de praia; muitos papéis dispostos em pilhas.

Admito, a custo, que a situação ficou descontrolada e meto-me a arrumar as coisas. No meio daquilo tudo encontro o recibo da minha última consulta de psiquiatria (recibo esse que na altura não encontrei e que não pude enviar para o seguro), datado de há quatro meses atrás. A minha incursão pela afamada experiência  séria da terapia teve a duração de pouco mais de dois anos e teve como protagonistas eu, a minha segunda depressão clínica e três médicos diferentes. A primeira tentativa foi com uma psicóloga, ali na Rua Braancamp e à segunda consulta ela faz uma observação muito infeliz acerca da minha infância e eu ri-me secretamente e pensei "ai amiga, já foste". A segunda tentativa foi com um psiquiatra, uma semana depois. Falava à sopinha de massa e logo na primeira consulta explicou-me em tom confidente que tinha ali um copo com uma substância que parecia whisky, mas que na realidade era chá, ele é que não gostava de beber pela caneca mas sentia-se na obrigação de explicar tal facto aos pacientes, porque segundo ele muitos (especialmente as senhoras) olhavam de lado para o copo e para o liquído flutuante no interior. Desse gostei muito,  deixava-me muito à vontade e de repente tinhamos sessões de duas horas em que só falavámos de cinema, livros, viagens e notícias, muito descontraídos - ele com o chá, eu com um cafézinho que a recepcionista  me oferecia. Lá fora o consultório enchia e ele não se preocupava muito com isso, logo eu também não. A nossa relação  durou cerca de dez meses e na verdade eu saía de lá muito satisfeita e bem-disposta e achava que aquilo estava a resultar e a funcionar muito bem para mim, até perceber que esse estado durava umas horas e depois voltava a ficar inevitavelmente mal. Ora, eu não falava com ninguém na altura, tinha entrado num processo de isolamento total e o que eu gostava mesmo naquelas sessões é que ali voltava a ser humana, deixava a pele de bicho do mato para trás e subitamente voltava a ter interesses e opiniões. Mas no fundo, continuava deprimida. Mudei, o último era então um tipo muito novo, supostamente muito brilhante, e que com base nessa suposição esticava fantasticamente os honorários. Aí, tive a terapia clássica, o tempo contadinho ao minuto, a caixa de Kleenex disposta estrategicamente ao meu alcance. Este tinha o dom de me deixar muito nervosa e quando ele começou a reparar nisso fiquei ainda pior e aquilo começou logo a ficar enviesado. Ele perguntava-me como eu tinha passado desde a última visita e eu respondia automaticamente sempre "bem" e ele punha-se a escrevinhar lentidamente na minha ficha e depois pedia-me para desenvolver e aí eu percebia que estava bem o caraças, normalmente começava a chorar e mandava abaixo uma caixa de lenços de papel. Ao fim de uns meses, aquela dinâmica começou a irritar-me, a solenidade, as coisas em que ele me pedia para reflectir numa altura em que não conseguia pensar e decidi fazer aquilo que todos os doentes mentais que se acham espertos fazem em algum ponto - tentar enganar o médico e dizermos tudo aquilo que achamos que eles querem ouvir. A grande cisma dos nossos diálogos eram obviamente o fim da minha relação e a minha irredutibilidade em admitir que voltaria a ter alguém. Ele tentava-me explicar que tinha passado por um trauma e eu replicava, dizia que não me conhecia e que de certeza não voltaria a ter mais nenhum homem. Ele desistia e passava-me a receita para as mãos. De uma consulta para a outra, espaçadas de duas semanas, eu entrei confiante e quando ele me fez a pergunta temida "então e já equaciona voltar a conhecer outros homens, pensar nisso pelo menos...?", eu disse logo que sim. Fui tão credível que ele abriu genuinamente os olhos de espanto e pediu-me para explicar como se tinha operado aquela mudança tão súbita. Não fui capaz de explicar o que não sentia e fiquei cansada de todo aquele processo, do cúmulo do engano, da tentativa desesperada de manter uma fachada na única situação em que não me era pedida para manter nenhuma, em que aliás pagava para que alguém lidasse exactamente com a minha disfuncionalidade. Quando saí marquei a próxima consulta, já consciente que da véspera ligaria para a desmarcar com uma desculpa qualquer e não voltaria mais. Achei nesse dia que se era para ir até ao fundo, iria sozinha, não listaria nos casos de insucesso de um tipo que até era bom médico e pouparia uns euros. Achei mesmo que era o ínicio declarado do meu fim, a querida desistência Agora, percebo como estive a subestimar a minha capacidade de resistência este tempo todo e a secretária ficou impecável de arrumada.

sábado, 13 de agosto de 2011

Das respostas que podiam ser minhas

«-  Are you a cynic?»
«-  I'm unhappy. If I was a cynic it would probably make me feel better.»

Ham on Rye - Charles Bukowski.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Porque é que não leio (quase) blogs femininos?

Porque fatalmente terminam num dos dois tipos de buracos negros. Ou temos uma tipa que se acha boa, a pôr fotos dos conjuntos que usa no dia-a-dia e nos casamentos a que vai (normalmente feios) que fala de como está viciada numa série cujo público alvo são adolescentes de 16 anos, que conta os episódiozinhos passados com o namorado no supermercado e que de vez em quando, passa-se da cabeça e tenta parecer aquilo que não é e lá faz um post sobre um tema qualquer da actualidade e aquilo sai inevitavelmente mal, e então eu fico mesmo muito embaraçada e percebo que para embaraços bastam-me aqueles que são meus e que não devo tolerar os de terceiros. Ou temos uma tipa que se acha boa e muito engraçada, quando na verdade grande parte das piadas que faz têm de ser obrigatoriamente picantes, com mais innuendos sexuais do que uma letra do Quim Barreiros, para mostrar que é assim desinibida e moderna, sem resquícios de uma educação católica. Estas não gostam de homens a não ser para sexo mas mais cedo ou mais tarde ficam sempre na merda porque se apaixonam. Ou então têm um namorado que tratam com condescendência e vão para o blog devassar a vida privada deles com histórias embaraçosas da vida conjugal. Estas não têm problemas de falar em temas tabus, como a flatulência, enfim que é poético seja lá para que pessoa abordar. Depois de uma breve visita por blogs dos dois géneros penso em como podem os homens continuar a gostar de mulheres, se a grande representatividade cai nestes géneros. A seguir, fico consciente do nível da maioria esmagadora dos homens e então fico esclarecida.

Relief

Pensei durante imenso tempo que o desgosto causado pela minha separação tinha-me deixado inabilitada para qualquer hipótese de relacionamento amoroso que pudesse surgir. O trauma não só me deixou uma pessoa amarga, como céptica no respeitante aos outros mas principalmente quanto às minhas próprias capacidades de arriscar voltar a gostar. Descubro passado tanto tempo - mais do que deveria ter sido para alguém que se gaba tanto das suas qualidades perceptivas como eu - que afinal a experiência só me deixou temerária e destemida. Muito simples: pior do que aquilo nunca poderá ser; não ficou nada mais para se perder ou se partir. E agora sim, em vez do ressabiamento, do rancor mal disfarçado que sentia quando também me sentia fraca e debilitada, agradeço-lhe sinceramente por a longo prazo, me ter tornado muito mais forte, sem obviamente o querer. Não há melhor fim para este plot do que conseguir ser feliz depois dele.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A maioria das mulheres que conheço e com quem me dou têm sempre uma maleita que lhes é característica. A espécie é variável, começa nas enxaquecas, passa pela dor nas articulações (intensificada com a mudança súbita do tempo), termina nas infecções urinárias. Por pior que sejam cada uma das citadas a título meramente exemplificativo - acredito que sim - arrisco-me a dizer que nada é mais grave do que o desconforto  causado pela minha, que nem sequer é física, o que apesar de tudo pode trazer benefícios como faltar um dia ao emprego ou não ter sexo na hora do Biggest Loser. O meu problema é a insatisfação crónica. A insatisfação crónica ataca de repente, nada faz adivinhar um acesso desta quando acordamos de manhã e o sol brilha e julgamos que temos um dia perfeito pela frente. As primeiras horas são passadas normalmente, o problema está em latência, adormecido, e nós ainda sorrimos em ingenuidade com as pequenas coisas simples e bonitas do quotidiano, como o facto do café estar bem cheio e não termos der esperar muito pelo autocarro. Sinto, normalmente, os primeiros indícios de uma crise por volta das duas e meia, três da tarde. Fico mole, a cabeça começa a dispersar em pensamentos difusos, incoerentes e eu fico em alerta, na esperança que toda aquela agitação seja na verdade resultante da frustração da vontade de dormir uma sesta. As dúvidas dissipam-se, os receios concretizam-se: à indolência, junta-se a insolência e não consigo suportar mais ninguém, inclusive mim própria. Começo a queixar-me de tudo, e as pessoas assustadas com as minhas impressionantes capacidades dramáticas, tentam lembrar-me que ao fim e ao cabo, nem tudo é mau, tenho saúde e tal. Tenho saúde, e o cabelo que me caí às mechas com que este calorzão, replico eu. Desistem e fico sozinha, na minha auto-comiseração, entregue à tragédia da qual tanto me queixo mas que se tornou o meu maior vício. Obviamente, quando percebo que me deixaram de chatear, também isso é motivo de insatisfação e começo a ser provocatória, lanço olhares maldosos exactamente para deixar as pessoas a pensarem "no que raio estará ela a pensar" e quando me perguntam o que se passa, torno-me escorregadia e evasiva, "nada, nada" e ajo com uma naturalidade calculadamente forçada para deixar os outros inquietos.  É claro que nada disto acalma a angústia da crise, e mais tarde, quando penso nisso tudo, só me deixa ainda pior. O carrossel de coisas incómodas não pára: o telemóvel está a ficar sem bateria e faz um barulhinho irritante; porque é que está sol sempre que estou a trabalhar e tempo de merda quando estou de folga; porque é tens de falar assim; porque é que ele não me ama; porque não posso ser rica e mais magra e falar russo? Tudo me angustia, há um pequeno monstro de gigantes garras, que se alimenta das minhas entranhas, da minha vulnerabilidade ou susceptibilidade às merdices. No fim do dia, fico exausta: as soluções que se alinham é tornar alguém o bode expiatório desta minha fraqueza de carácter; tomar dois calmantes e ir dormir; tentar relativizar o sucedido. Hoje, para variar, decidi fazer a última.