A minha prima J. de 17 anos mete conversa comigo no Facebook e travamos o seguinte diálogo.
J - Entãaaaaooo já te casaste?
Eu - E não te convidava para o casamento?
J - Sim ficava muito ofendida se isso acontecesse, essencialmente porque perdia o copo-de-água.
Eu - Só por causa dessa, quando for o casamento aviso o empregado "olhe aquela menina ali é para ter sempre o prato cheio, até ela vomitar porque não consegue ver mais comida à frente, mas não ligue continue a encher".
J - hahahah!
Eu - Mas deixo-te apanhar o ramo de flores, combinamos um sinal, eu pisco-te o olho e sabes a direcção em que vou atirá-lo. E depois o teu namorado fica todo envergonhado e fartamo-nos de rir.
J- Não tenho namorado.
Eu- Tens de arranjar, fico muito ofendida se não levares namorado ao meu casamento.
J- Só se for um gajo de 40 anos que conheça através de um anúncio de jornal.
Eu - ........ J. se fores ao meu casamento com um homem de 40 anos pago-te umas férias onde quiseres! Mas tens de espalhar o rumor que ele é casado e tens dois filhos!
J - ..... tipo, umas férias onde eu quiser?!
terça-feira, 26 de julho de 2011
Rehab
Às vezes a forma mais eficaz de combater um vício é pura e simplesmente rendermo-nos logo a ele. E depois é aproveitá-lo, antevendo que estamos bem fodidos e não passamos de uns miseráveis viciados, mas assumir que somos felizes assim, e que um vício é só um vício, desde que não nos mate, a importância é relativa.
Tenho uma amiga no Facebook que entre fotos de cortes de cabelo que quer fazer e de carros topo de gama, de vez em quando mete uma citação de alguém, que muitas das vezes julgo que até não conhece. Estamos a falar de alguém que adorava o Brida e que das várias vezes que andei no carro dele fui brindada com uma banda sonora de luxo que começava no Boss AC e acabava num mix de música cigana desencantado não sei onde. Eu sou uma pessoa séria, de formação jurídica, e se há coisa que levo a sério são as citações e as notas de rodapé, por isso não consigo deixar de sentir uma certa repulsa quando me deparo com uma citação conhecidíssima e genial do Oscar Wilde escarrapachada na minha página inicial emparelhada com a fotografiazinha dela. Como já se não bastasse, minutos depois aparece o namorado dela que comenta com um "Lol". "Lol" é aquele tipo de coisas que pomos numa conversa quando estamos aborrecidos e queremos dar a entender que estamos a acompanhar alguma coisa e estamos presentes e com atenção e então pomos "Lol" para podermos estar calados nos dez minutos seguintes. Não é o adequado para se usar numa citação do Oscar Wilde, acho eu. Confusa, pensei então em dizer o que "tem tanta graça, A.? Diz-me, é o facto de Oscar Wilde, um dos maiores pensadores do século XIX da moral, da estética, do dandaísmo ter acabado arruinado por um adolescente e ter morrido na miséria cheio de menigininte, sifílis e outras doenças da moda? É que de facto isso tem muita graça, eu própria penso nisso algumas vezes sozinha e tenho dificuldade em conter o riso. Ou é pelo facto de os espanhóis traduzirem "The importance of being Earnest" para "La importancia de ser Ernesto", tipo desvirtuando a piada que o trocadilho do título original tem. Ou é porque achas machista que ele tenha escrito uma peça chamada o "Homem ideal" e outra chamada "A mulher imperfeita"? De facto o tema da mulher na obra de Oscar Wilde é controverso, qual é a tua opinião nisso? É disso que te estavas a rir?". Mas depois penso que se continuar a enervar-me tanto por causa destas coisas vou morrer cedo e não quero morrer. Por isso, faço uma festinha imaginária na cabecinha daqueles dois e finjo que acredito que eles são bué intelectuais. E sinto-me uma boa pessoa.
sexta-feira, 22 de julho de 2011
Há aquele comentário sempre dito em tom incentivador, que "a primeira vez é que dói". Bem, pelas regras da experiência seja nossa ou dos outros sabemos que isto não é assim e que isto até é bem enganoso. Para algumas pessoas, a segunda, a terceira, a quarta vez é tão dolorosa como a primeira, e ao fim de um tempo com a insistência e a prática, lá desenvolvem uma certa insensibilidade, uma certa impermeabilidade à dor, e na verdade a tudo o resto. A anestesia local é dada de tal forma que deixam de poder retirar dali seja que satisfação for. Depois também há o inverso, os que não sentiram dor e só conheceram o lado bom da coisa - estes são os optimistas que não percebem como algo que devia ser fonte de alegria e prazer pode resultar em objecto de perturbação para os outros, os do primeiro tipo. Se este fosse um post acerca de relações sexuais eu relativizava isto tudo, porque a dor ou o desconforto físico é o que é, imediata mas passageira, ou como dizia uma amiga minha da faculdade quando as coisas corriam mal "deixa lá, vais encontrar alguém com mais jeitinho". Para mais, hoje em dia, até operações para se voltar a ser virgem se podem fazer e re-criar uma ilusão; de uma perspectiva extremista, no sexo nada é irreparável. Mas sendo um post acerca de relações não adjectivadas, como explicar que não posso voltar a equilibrar a minha capacidade de sofrimento, com base apenas no jeito, como conceito indeterminado, como factor necessário mas não decisivo de quem me apareça a seguir - que não existe nenhum hímem substitutivo artificial para a emocionalidade e que o que ele me tirou, mais ninguém ou nada me devolve.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Num dos livros da minha vida, o Milan Kundera diz algo assim:
«O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (pois isso se aplica a todas as mulheres) e sim pelo desejo do sono compartilhado (isso se aplica a uma só mulher)».
No caso das mulheres, tudo se inverte. O amor é claramente manifestado pelo desejo de fazer amor (que se aplica a um só homem) e não pelo sono compartilhado, que não se aplica a nenhum.
E assim, fartas de levar com patadas dos homens enquanto dormem e sonham que estão a jogar à bola com os amigos, decidimos abdicar deles e arranjar um gato. E como o universo é irónico, acontece-nos isto.
terça-feira, 19 de julho de 2011
Também
A maior injustiça não é culparmos alguém pela nossa infelicidade - que é o que fazemos com mais frequência, porque fomos deixados, porque nos desiludiram ou magoaram-nos, genericamente, seja lá de que forma ou através de que método. A maior injustiça que fazemos a alguém que dizemos amar é torná-la responsável pela nossa felicidade, passar-lhe o imenso cargo de um fardo que é ou deveria ser individual. Kant desenvolve isto logo nas primeiras páginas da Metafísica dos Costumes, ou da Fundamentação a esta, já nem sei, a toxicidade de quem recusando-se a assumir culpas da própria vida, acabar por tornar externa essa infelicidade, alastrando-a que nem um cancro para todos com quem priva. A ideia é tão básica que quase que podemos dizer "a sério Immanuel, that's the best you can get?, mas a dificuldade não reside na percepção ou na concordância, assenta somente na interiorização. Depois da vitimização, percebemo-nos que para a próxima a coisa mais bonita e intensa que podemos dizer à pessoa que efectivamente viremos a amar, não é "estou feliz porque estou contigo", mas sim desmantelar a estrutura frásica em jeito consequencial, e acrescentar, "estou feliz porque também estou contigo".
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