terça-feira, 19 de julho de 2011

Porque é que as crianças são o melhor do mundo (a seguir aos gatos)

Nos transportes meto conversa com uma miúda brasileirinha, a quem acho automaticamente graça por trazer uma mala de ombro cheia de glitter e as unhas pintadas de vermelho, como se fosse uma senhorita. A meio da conversa pergunto-lhe:

- Então e quantos anos tens?
-Seis.
- Que crescida!
- Sim - responde-me ela, a encolher-se toda em sorrisos - e você?
- Tenho vinte e ...seis.
Ela abre imenso a boca de espanto e responde-me:
- Oba, é quase iguaizinha à minha!

[qualquer comentário que refira "relógio biológico" ou insinue que eu sou velha, será de acordo com a democracia que me interessa, a minha, simpaticamente apagado, que não sou pessoa para lidar com verdades.]
Nos dias em que estou bem disposta como hoje, dou por mim a fazer logo pela manhã, figuras rídiculas. A cantar música foleira tipo o "La isla bonita" da Madonna, ou o "Alejandro" da Lady Gaga, enquanto seco o cabelo, cujas letras inexplicavelmente sei (não, nunca me conseguirão retirar a confissão que tenho coisas destas no meu iPod. Se conseguirem, obviamente vou dizer que é giro para ouvir no ginásio, porque é mexido e tal e uma gaja quando está a lutar pela tonificação corporal ou se concentra nisso ou em ouvir boa música.). Vá, prometo que logo, depois de oito horas em contacto com a estupidez humana em bruto, venho com um post deprimido. Toda a gente tem a sua missão terrena e eu estou consciente que a minha é deixar os outros mais felizes com a vida que têm, relembrando-os que há gente que se sente mais miserável no mundo.

Agora até me despedia, com um "até logo pequenos póneis!" mas já se lembraram disso antes de mim, e pensando bem os pequenos póneis eram os meus desenhos favoritos e por muito que goste de vocês (gosto) ainda não são tão importantes para mim, como eles foram.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Ainda durante a sessão de compras deparo-me, chocada, com isto numa livraria.
























O homem morreu há duas semanas atrás, para aí. Quando chego a casa e conto perplexa ao meu pai, ele diz com um ar muito natural que já sabia, que o Professor Marcelo tinha falado nele ( é por estas e por outras que nunca peguei num manual de Direito teu, embora achasse enternecedor ver-te a falar sozinho pelos corredores da faculdade). Bem, e um inquéritozinho por parte do Ministério Público para ver há quanto tempo estava este projecto no forno? Tipo o Jack Kerouac, escreveu "Os subterrâneos" numa noite, não digo que seja impossível...

[e as estrelas apagam-se sim, é o que origina os buracos negros, desculpem lá retirar a poesia ao título].
Toda a gente sabe que não se pode confiar nas mulheres - não são os homens que se devem preocupar com elas, mas as outras mulheres, acho que isto já devia ser óbvio agora. As principais suspeitas devem recair essencialmente sobre aquelas mulheres que defendem uma espécie de irmandade, uma união no feminino sabe-se lá contra o quê, já que essas normalmente são as que andam mais desesperadas por homem. Os cuidados, dito típicos ou normais, a usar no quotidiano contra estas pessoas, deve ser redobrado nesta altura do ano, os saldos. Já tinha ouvido histórias, mas sempre classifiquei-as de mito urbano, uma vez que sendo eu o alvo perfeito dos saldos- aquela que não resiste em ir dar uma espreitadela dia sim, dia não, e acaba sempre a comprar alguma coisa porque é "baratinho", e que meses mais tarde encontra essa mesma peça ainda devidamente etiquetada refundida numa gaveta ou dentro de um saco - e nunca me tendo acontecido nada de estranho, não tinha razões para acreditar no poder enlouquecedor de roupa a preço rebaixados. Até hoje. Há cerca de uma hora atrás, estava eu na Benetton do Rossio, a ver a parte de cima de um bikini quando reparo que estou a ser observada por duas mulheres aos cochichos, uma com o mesmo modelo que eu nas mãos. Quando percebem que eu percebi que estavam a olhar para mim, uma dela, a descarada pergunta-me, com um ar descontraído e casual; "olhe desculpe lá, mas que número é que veste de soutien?". Achei a pergunta indiscreta e intíma, mas mesmo assim respondi. E ela,  "ah, mas isso é de certeza o XS, que está aqui, leve, experimente", diz armada em expert de mamas, enquanto se dá ao trabalho de estender-me o cabide com dois triângulos obscenamente pequenos para uma pessoa com um certo grau de pudor como eu. Desconfiada, lanço-lhe uma miradela não lésbica ao corpo e percebo que ela quer é o único tamanho S, que tenho em minha posse. Como não gosto de gente com este tipo de subterfúgios, entrei no jogo, aceitei o cabide e disse-lhe "obrigada, vou experimentar os dois, para ver qual fica melhor", ao que ela me responde com um aceno de cabeça e um sorriso. Sorrio de volta e vou para os provadores. Na volta, ela tinha mesmo razão, mas como me recuso a facilitar a vida a cabras que cobiçam o alheio, deixei o bikini desejado bem escondido no meio de umas toalhas de praia. Há outra Benetton na Rua Garret suba aquilo tudo se quiser, puta que a pariu, que até me meteu a falar mal.

Silêncio, finalmente

sábado, 16 de julho de 2011

Como detectar que está deprimida - I

Acorda ao meio-noite da noite, quatro ou cinco da manhã com um enorme desejo de comer gelado. Vai à cozinha, descobre uma caixa de sabor de "chocolate e pedaços de brownies" que leva para o quarto, juntamente com uma colher de sopa. Senta-se na cama, às escuras, e apardalada pela gula e pelo sonolência, começa a cavar na deliciosa substância. Come até ao fim, até não sobrar mais nada e pousa os vestígios do crime nocturno na mesinha de cabeceira. Deita-se e pega outra vez num reconfortado e profundo sono.

De manhã acorda e observa, num misto de estranheza e curiosidade, o pacote vazio, "mas que merda é esta aqui". Tem um pequeno flashback, recorda-se de tudo e petrifica-se com a antecipação de um futuro numa série vindoura do Biggest Loser.

Legítima defesa

No Natal de 2008 o meu primo motard , mostrava a sua indignação pela recente condenação no pagamento de uma multa de 500 e tal euros, por ter aberto a cabeça a um tipo. Estavámos já na fase do vinho do Porto e dos doces, e ele explicava exaltado que se tinha limitado a responder a uma ameaça do outro, que disse que lhe ia à boca ali no Parque do Nações, e o meu primo antecipando essa agressão, espetou-lhe duas cabeçadas, que resultaram numa enormidade de pontos, na posterior queixa-crime, e por fim, na já supra-citada condenação. Parecia-lhe um absurdo como a juíza não tinha decidido a favor da legítima defesa. Eu, inocentemente, tentei explicar que a legítima defesa não era um instituto simplista, exigia que existisse actualidade, proporcionalidade e adequação entre a agressão primária e agressão secundária - ou seja, que nunca poderíamos responder com um tiro a matar, a alguém que embora nos tivesse agredido primeiro, o tivesse feito com uma chapada. Respondeu-me, labregamente, que isso não fazia sentido nenhum, que não era justo. Respondi-lhe que o conceito dele de justiça não relevava para nada, uma vez que existe uma coisa chamada lei, que tipifica estes pressupostos, e que existe exactamente para que cada um não imponha a sua ideia de justiça. Pensei em dizer-lhe que Kelsen ou Hart, dedicaram anos a pensar nestas coisas, da importância da norma na sociedade, e que perante isso, a opinião dele, do Mário Rui, ficava assim um pouco para o diminuída - mas contive-me. Mesmo assim, chamou-me de chica-esperta, o mau ambiente ficou instalado, e criou-se ali uma cisão familiar, entre os que me achavam sabichona e acreditavam que tinha tentado humilhar o meu primo, que já estava humilhado pela emissão da sentença (acusaram-me da falta de tacto, de empatia, de "não saber dar um desconto") e aqueles que adoraram a situação, porque o meu primo é daqueles que tem a mania que sabe tudo, quando na verdade a única coisa que sabe é meter-se em negócios estranhos que ninguém se atreveu a questionar. Aquilo passou, à meia-noite abrimos as prendas, ele só me voltou a falar há coisa de uns meses atrás quando por acaso dei de caras com ele no Centro Comercial Colombo. Este não é um texto familiar, é um texto moralista e acima de tudo um aviso. Para todos os agressores, que se refugiam no capote da vitimização porque primeiro foram empurrados  e por isso acreditam que têm legitimidade para atirar o seu agressor pela escada abaixo, partir-lhe a coluna e deixá-lo numa cadeira de rodas para o resto da vida. Actualidade, proporcionalidade e adequação, da agressão e dos meios. Não se esqueçam disto agressores emocionais, porque se para os cornos há pontos e agrafos, para a alma não.