quarta-feira, 13 de julho de 2011

Foucault, em  «Doença Mental e Psicologia», explica que não é por uma pessoa ter características de determinada doença mental, que obrigatoriamente a tem. Eu levo isto ao extremo, quanto mais sintomatologia de demência mais real saúde. Os verdadeiros doentes mentais são os apáticos, aqueles que acham que está tudo bem  e sorriem pateticamente porque na verdade nunca pararam para pensar um pouco no que deve ser a vida.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Auto- retrato (por mão de outra pessoa)


Não sei o nome do quadro, nem a data - não vou mentir, não pesquisei. Sabem que é da Frida Kahlo, para mais infos façam os TPC's

Agora vamos editar: imaginem umas sobrancelhas depiladas cirurgicamente todas as semanas. A inexistência da penugem labial, filiações ao partido comunista e atracção por pessoas do mesmo sexo. Na testa, em vez do gordalhão do Diego Rivera, metam um tipo jeitoso, de olhos inteligentes e rasgados, nariz impertinente que tanta vez cocei, a coisa-mais-linda-perfeita-deslumbrante, objectiva e subjectivamente, que vi na minha vida. As lágrimas deixem ficar e o cabelo desgrenhado também, que Deus sabe que com estes humores e estas obsessões, não ando lá muito amiga do pente. É um cliché - isto das mulheres sofridas irem buscar a Frida - ao menos não pus o do veado cheio de setas ou dos "picotitos", que retrata a mulher estropiada pelo ex-amante. Não quero nada de violento, acima de tudo não quero nada que sugira que ele me magoou. Este está bem, triste como eufemismo, pela existência de alguém querido, somente naquele lugar tão insatisfatório e ingrato, o pensamento.

[ou como este post se poderia traduzir numa mensagem bem mais simples: «tens uma casa espectacular, fica por lá e deixa-me os cornos em paz, se faz favor».]
Não me apetece falar das questões existenciais - vão-se habituando, sou inconstante como um raio e agora apetece-me escrever acerca de outra coisa. Em alguns blogs por aí, para os quais até fazia uns links maravilha se me quisesse dar ao trabalho, fala-se e discute-se uma coisa rídicula. O dizer "amo-te". Nesses posts e nos comentários a eles, tenta-se racionalizar algo que não deve ser racionalizado e todavia, não consigo deixar de ler aquilo tudo, embevecida pela capacidade humana de teorizar o impossível. O que todos estes empiristas não percebem é que o verdadeiro "amo-te", o que deve ser dito como deve ser, não é pensado, calculado. Sai-nos uma tarde, um dia, proveniente de uma necessidade primitiva e não de um cálculo de circunstância. Não se contou os dias desde que se beijou a outra pessoa pela primeira vez, nem pensámos na reacção dela, não delineámos a estratégia, a vista do miradouro, o reflexo do luar  no cabelo, os dedos entrelaçados timidamente pela antecipação, para assim se dizer a palavra mágica e magicada. Quem faz isso, expressa outra coisa qualquer que não o amor - excelentes capacidades de planeamento, por exemplo, essas pessoas devem ser óptimas a organizar viagens e casamentos, mas desculpem, são péssimas a dizer "amo-te". O amor, o amor a sério, sai-nos com a inconveniência que se torna automaticamente conveniente. Amo-te é mesmo isso, um estado de inimputabilidade temporária. Dizer "amo-te" não respeita  timmings, as mulheres que se ofendem por os homens não dizerem que as amam depois de ejacularem, não entendem que deviam ficar ofendidas exactamente quando o fazem - porque aí é suposto dizer que as amam, na mesma lógica de oferecer flores no dia dos namorados, sacrifica-se a substância pela ilusão de regularidade. Os "amo-te" verdadeiros são aqueles que se gritam após uma despedida, o outro já vai no fim da rua, até se vão ver no dia seguinte, mas grita-se "Amo-te", para que o outro que nunca se esqueceria disso, vá mais feliz para casa. Não tem nada de metafísico, é a coisa mais natural do mundo, logo não se discute.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Vou ali secar o cabelo e depois já volto com duas questões existenciais. Se não voltar, é porque decidi ir dormir.
Tenho uma colega, que muito modestamente comenta a sua beleza e o seu bom gosto. É uma míuda normal e veste-se daquela forma uniforme do "estou na moda". A falta de noção da vulgaridade dela é acentuada pela necessidade que tem em chamar a atenção acerca do aspecto dos outros; o que deita por terra a teoria da auto-confiança. Qualquer mulher que sabe que é bonita e que tem gosto, não diz mal de outra mulher bonita e com gosto: isso é mito do homem que fantasia com gatas engalfinhadas. As mulheres bonitas e elegantes admiram-se, arranjam-se umas para as outras de modo a inspirarem-se mutuamente e apesar de até poderem rivalizar, respeitam-se. O choque acontece entre essas que querem ou julgam-se ser belas mas não são e as outras que efectivamente o são; repudiam-se mutuamente, porque as primeiras não admitem que as outras é que são as bonitas e as segundas não suportam a banalidade, a diferença é que estas últimas são dotadas de uma condescendência que as torna educadas aos atentados à classe. Reparam mas calam. Explico isto porque no outro dia chego ao trabalho, num raro vestido adquirido nos saldos, de corte direito e azul-marinho. A tal colega, num top assimétrico justo de riscas neon e skinny jeans pretas, dá-me um puxão no mesmo e diz "pareces uma freirinha", ao que respondi, no modo azedo matinal "ainda bem, não sou mesmo puta". E como sou daquela categoria que não tem necessidade de comentar o visual alheio, calei o "como tu".

A falência de Kübler- Ross

Negação. Cólera. Raiva. Negociação. Depressão. Aceitação. O que no padrão normal se experimenta em fases eu vivo num dia, é por isso que o luto não resulta comigo, não dou tempo para amadurecer. Terminou agora à meia-noite com a perspectiva da cama amiga, mas amanhã às oito desperto e penso "Não, mais um dia assim, não". Depois arranjo-me, resmungo com quem me passa à frente no metro, tenho o primeiro pensamento venenoso do dia. Lá para às doze, já fervilho de nervos, já preparo o insulto, a provocação, as primeiras lágrimas teimam em aparecer de inquietação e eu disfarço com bocejos, enquanto de forma calculadamente perniciosa deixo escapar as primeiras barbaridades. Depois arrependo-me, "não era bem isso que queria dizer, se fizer isto, pode ser que...", sempre estúpida, um discurso idiota e vazio de quem tenta solucionar o irremediável, de vendedor que tenta impingir uma máquina que sabe bem que é uma merda e que nem a ele próprio consegue convencer da qualidade. Falha-se. Chora-se de novo, agora de tristeza e sem tentar disfarçar, é a hora dos "porquês", dos "não mereço", de questionar com as mãos erguidas para o céu "Porque me abandonaste, Pai?!", dos estrangeiros nos transportes, combalidos, me estenderem lenços de papel. Que num misto de lata, vergonha e educação, aceito. Chego a casa, petisco sem apetite, leio as notícias, os estropianços, a Moody's, os grupos no Facebook a combinar à mesma hora deitar abaixo o servidor da Moody's, rio um pouco com o disparate e penso no cansaço, o cansaço dá cabo de cada um, afinal nem tudo está mal, estamos em Julho, 2011 ainda tem muito para dar, vai tudo ficar bem, caminha, amanhã o dia vai ser bom. Lavar os dentes, beber um copo de água, respirar fundo. Repetir, amanhã vai ser melhor. Ronronar com a expectativa, os lençóis lavados e um dos gatos em cima dos pés.

Às oito, o despertador toca e penso...