Vladimir Nabokov on Fyodor Dostoevsky: “Dostoevky’s lack of taste, his monotonous dealings with persons suffering with pre-Freudian complexes, the way he has of wallowing in the tragic misadventures of human dignity — all this is difficult to admire.”
daqui
segunda-feira, 20 de junho de 2011
Na última semana levei com quatro mentiras de três pessoas diferentes. Se em alguns casos utilizei a minha argúcia para demonstrar que tinha percebido e denunciar o ridículo; noutros agi como se de um equívoco se tratasse; e ainda noutros fingi que tinha acreditado no que a pessoa me disse. Sempre achei que no dia em que tivesse a percepção que isto me tinha acontecido a minha reacção seria unitária - eu poderia ficar mais ou menos magoada dependendo do quão querida a pessoa me fosse - mas seria sempre algo inevitavelmente visceral e violento. A realidade foi diferente, tive aquela serenidade da surpresa que nos deixa imóveis, só depois senti alguma repulsa, que não durou muito porque se apaziguou num sincero lamento. Reparem, não pelo atestado de parvoíce que me tentaram passar, mas por aquele sentimento de vergonha alheia e essencialmente por eu própria não ter sido capaz de dizer "a sério, não faças isso."
Arrumei o Processo Penal, e vou para a cama ler "O Original de Laura" que pedi emprestado à Biblioteca do Palácio de Galveias. Em alguns livros de Nabokov (este é o terceiro que me lembro, os outros são o Ada e obviamente, o Lolita), aparece esta figura jovem púbere e putinha que leva a loucura sempre um bananão qualquer. Há sempre cenas de sexo, nada de explícito ou de mau gosto, mas com pequenos detalhes cirúrgicos que vê-se que foram pensados com especial deleite - são os "mamilos" e as "nádegas apertadas nos calções do montar" com mais requinte nesse mundo literário fora. Não consigo deixar de achar curioso a recorrência destes desvios de personalidade, das relações em que a disfuncionalidade se torna um eufemismo, a crueldade, o desespero, o cru, vindos de um homem cujo hobbie era a entomologia.
Só estou sozinha em casa e tocaram-me à campainha. Ligeiramente amendrontada, ignorei. Voltaram a tocar. Perguntei então com voz bruta e grossa, "quem é, quem é?" e ninguém respondeu. Os gatos entretanto apareceram cada um do seu canto e reuniram-se à volta da porta, também inquiridores de quem poderia ser a esta hora.
A sério, eu já tenho problemas em dormir.
domingo, 19 de junho de 2011
Kierkegaard, na sua teorização acerca da fé avança que esta só pode existir no absurdo. Tudo o resto, o acreditar no que pode ser provado, no que pode até existir, é mera esperança. A "fé" é o tiro no escuro do impossível. Eu acredito nisto e admito que me tem feito sofrer e ficar mal-vista aos olhos alheios que acham que enlouqueci há um par de anos atrás. Contudo e apesar disso, em dias como o de hoje lamento que não existam mais pessoas assim, menos práticas, menos desistentes, mais resilientes, mais dispostas a sofrer - mais desejosas de algo que não seja a felicidadezinha comóda de passear o cão e comer um gelado ao fim da tarde.
[Eu falo mas na verdade tenho uma inveja desmedida de não ser capaz de ser assim.]
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