Hoje também vi um jovem mascarado, ao que me pareceu, de paquete de hotel. Fatinho de cor discreta e botões dourados, chapéu redondo bem ajeitado na cabeça, parecia mesmo um daqueles senhores que nos abrem delicadamente a porta nos hotéis. Pensei - "que máscara tão estúpida!". Só depois reparei que era a farda do Colégio Militar.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Qualquer pessoa com idade mental superior a dez anos achará, obviamente, o Carnaval uma autêntica palhaçada em todas as perspectivas e só se mascara se isso envolver shots de whisky. Fora dessa circunstância, não estamos perante foliões mas meros idiotas. Cada qual suporta a sua idiotice e eu não vejo qualquer mal nisso, disfarcem lá as fealdades como quiserem. Tenho sim, pena da crianças, que por força dos desfiles nos infantários e creches ficam à mercê dos devaneios dos loucos dos adultos. E digam-me que as crianças adoram e rejubilam com os fatos - que as meninas deliciam-se com a oportunidade de usar maquilhagem e os rapazes as capas dos seus super-heróis - e eu respondo-vos que quem faz afirmações assim é porque não tem de esconder uma foto embaraçosa dele próprio vestido à leitãozinho. Ou pior, como eu vi hoje de manhã um miúdo, de forcado.
quarta-feira, 2 de março de 2011
Em ambiente descontraído, John Galliano disse que adorava Hitler. Assim, como quem diz que gosta de sapatos ou da cor amarela. Oficialmente, já se veio defender e condenar a xenofobia e o racismo, num comunicado meio enrascado que não convence ninguém. Parece tratar-se de uma piada de mau gosto mas lembramo-nos que nem o Mel Gibson - que já nos habituou a delicadezas anti-semitas- foi tão longe. Li há tempos sobre uma pequena localidade onde só residiam nazis, uma localidade sem lei, onde se afugentavam os outros habitantes pegando-lhes fogo às residências e onde, surpreendentemente, nem a polícia se atrevia a impôr. Seja declarado como estes, ou passivo como Galliano que desabafa esquecendo-se que um telemóvel actualmente pode ser a morte do melhor artista, é um facto que estamos longe de uma sociedade cor-de-rosa e muito perto do preconceito. E o pior, nestes episódios, é a hipocrisia que todos nós revelamos um pouco - como se fosse surpreendente ou inédito alguém dizer ou achar aquilo. É condenável e ponto, mas quantas pessoas com quem nos cruzamos diariamente dizem que não gostam de pretos ou de ciganos - mas só dos romenos- e continuam a ter amigos, são olhados momentaneamente de lado mas aperta-se a mão à mesma, não se comenta porque é uma opinião ou porque não pode ser uma pessoa normal e mais vale deixá-la quieta. Muita gente compactua com pequenos racismozinhos mas incha o peito de contentamento porque o outro foi despedido da casa Dior. E vivam os bodes expiatórios das causas que não deviam ser grandes, só normais.
terça-feira, 1 de março de 2011
Do verdadeiro surrealismo
Recebo no Facebook a seguinte mensagem:
"Hi Folks,
I just realized that Lady Gaga has over 29 million fans on FB. As we all know she is highly influenced by Salvador Dali. So Dali deserves the same amount of fans. Let's get the word out there and see how fast we can get Dali up to at least 1,000,000 fans. He deserves it."
O Facebook é o que é, vale o que vale. Mas traduz a realidade de muita gente. Não tenho grande aspirações numa época em que é mais conhecida uma gaja que se veste de carne (!!!) do que um dos maiores génios de sempre.
The sun comes along
Na minha última visita a Londres decidi, num dos dias, apanhar o red bus número 24 de Camden para Pimlico. Desculpem-me a infantilidade, ou melhor, o estilo declaradamente pacóvio, de quem se entusiasma a andar no segundo andar de um autocarro. Tinha a ideia pré-concebida - porque aqui é assim- que o terminal do autocarro coincidia com a paragem de metro, e desta até à Tate Britain (destino final) era um instantinho representado numa linha larga do meu mapa comprado a uns solícitos indianos. Estava enganada e dei com o autocarro vazio, à excepção de duas turistas alemãs e eu própria, num território meio industrializado à beira rio. Hiperventilei um pouco, saquei do mapa, identifiquei a placa com o nome da rua, não percebi onde estava, deduzi que se continuasse a andar ao pé do rio chegaria de qualquer forma ao museu, pus-me a andar. Pelo caminho, já tinha desenrolado o meu cachecol que quase arrastava pelo chão e esforçava-me para equilibrar a garrafa de água, a mala, a câmara fotográfica penduradas num dos braços, enquanto tentava manter o mapa aberto não fosse vislumbrar algum ponto de orientação. Cruzo-me entretanto, com um senhor de ar respeitável que à boa maneira britânica logo me oferece ajuda. Mostro para onde quero ir, ele diz que é pertíssimo e afirma, que se conseguir apanhar um táxi, tem todo o prazer deixar-me lá. Recuo - "nunca aceitar boleia de estranhos", dizia a mamã -, rapidamente ocorrem-me de todas as reportagens do "Toda a verdade" sobre mulheres raptadas, redes internacionais de prostituição e tráfico de orgãos, e digo que sim. Sim, pensei nisso tudo e disse que sim. Enquanto esperámos pelo táxi o senhor perguntou-me o que eu fazia. Respondi. Depois disse-me que ele era político, que tinha ascendido há pouco tempo a Lord - "Do you know what a Lord is?" - perguntou-me ele enquanto procurava um cartão pessoal para me estender. Entretanto apanhámos o táxi e falámos de arte e do bom tempo, enquanto eu gracejei, como sempre, com o facto de apanhar sempre sol em Londres e de como podia ser só eu que levava o Sol comigo na bagagem. A viagem foi, como prometido, curta e ele despediu-se, simpático, dizendo que devia voltar mais vezes, que fazia falta na cidade o meu sunshine contínuo. Na altura, despedi-me e lá fui ver os Pré- Rafaelitas. Em dias como o de hoje, acho especialmente piada à ilusão de poder arrastar um pouco de Sol.
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Se fosse uma pessoa que ligasse a essas coisas estava muito contente pelos outros. Os outros seriam a Natalie Portman e o Christian Bale, que são respectivamente, a actriz e actor com que mais simpatizo e que, por coincidência, são também os dois espécimes mais bem parecidos de cada género que andam pela indústria cinematográfica. Giros e talentosos - e por onde andam pessoas destas na realidade dos comuns mortais, pergunto eu sem ninguém que me responda. Porque nem tudo é bom, "Black swan" revelou-se uma treta esquizofrénica, boa para os tarados do costumes que fantasiam com lésbicas disfuncionais, e o "The fighter" conseguiu a proeza de me aborrecer só com o trailer. "The king's speech" is enjoyable. Just enjoyable.
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