Há pouco, por mero acaso, entrei numa igreja aqui do Chiado. Entrei, pura e simplesmente, porque não me lembrava como é que ela era por dentro. O sinal da passadeira estava verde, podia atravessar para o outro lado da rua sem dificuldades e perdas de tempo adicionais, sentia-me bem disposta porque foi a primeira vez em muitos dias que saí do trabalho com luz do dia. Não querendo conceder grande espaço ao meu lado místico, a verdade é que naquelas fracções de segundos que demorei a tomar a decisão de atravessar a estrada houve algo - mais do que a luz verde para os peões indicada no semáforo - que me disse para ir, como se fosse ajudar-me a sentir-me ainda melhor, num dia em que já me sentia bem. Mal entrei na igreja tudo pareceu-me familiar. Afinal já ali tinha estado uma dúzias de vezes. Estava quase a virar costas quando reparei que a celebração que estava a acontecer no altar não era a tradicional missa das sete da tarde-, tão tradicional em tantas igrejas dos arredores - mas sim um casamento. Lá ao fundo um casal na casa dos seus setenta e poucos casava-se, sob o olhar dos filhos e filhas, genros e noras, netos crescidos e pequenos, apercebi-me pouco depois ao observar aquele agrupado de pessoas bem compostas e comovidas sentadas nas primeiras filas. Um dos netos mais pequenos foi levar as alianças, num mini-fato, todo seguro na sua honrosa missão. Dei por mim no papel de vouyer, emocionada com o evento da vida de uns estranhos, pela ternura e afecto revelados no olhar e em toda a linguagem corporal daquele casal, em como acharam que fazia sentido dar aquele passo agora apesar de não o terem dado antes. O amor é mesmo bonito. Este tipo de amor dedicado, dependente, terno, quem sabe, eterno.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
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Quando me sinto na merda e a querer fugir sei lá para onde eis que tenho um dia em que acordo a horas e sem dificuldades; não apanho trânsito para o meu destino apesar da greve do metro; ganho um julgamento; recebo, inesperadamente, um ramo enorme de flores que já cheiram a Primavera; e o meu namorado que não sabe cozinhar, tratou de tratar do jantar.
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
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No Domingo acordei ao meio dia e ainda estava a sair do quarto com aquele ar de quem está a voltar à realidade quando o meu namorado, sentado no sofá da sala, grita-me "Bom dia, olha o Eusébio morreu". Não sei, é sempre esquisito quando morre uma personalidade pública daquelas que nos é estranhamente familiar e o Eusébio era uma dessas, reconhecia a sua cara e nome desde que me lembro de existir como pessoa. Não conhecemos a pessoa em si, mas de alguma forma ficamos chocados com a notícia e não conseguimos deixar de falar nisso. Na rua, no café, o tema repetia-se na boca de benfiquistas, não benfiquistas, patriotas e nacionalistas, pessoal que está-se bem a lixar para clubes e para o país mas que mesmo assim não ficava indiferente à novidade. Na televisão, outras personalidades públicas falavam do génio da bola, recontavam-se os mesmos feitos em exibições memoráveis, repetiam-se os elogios às mesmas qualidades do homem. Ao fim de um tempo desliguei-me automaticamente de tanta informação, o assunto parecia estar esgotado para mim. Mas nesse dia, ao fim da tarde, fui ao Minipreço ao pé da minha casa e o funcionário da caixa aborda o senhor à minha frente "Então hoje está triste não é? Lembrei-me logo de si, da história que me contou com ele...". E o velhote ficou logo emocionado e lá contou de novo quando era um jovem militar em África e conheceu o Eusébio que com a selecção foi visitar o grupo onde estava destacado. E lá contou também de como o encontrou umas duas vezes, ao longo dos anos, e que teve a oportunidade de falar com ele sobre aquele dia em África e de como aquilo o tinha marcado. A mulher do velhote empacotava as compras com um ar seco e lá deve ter achado que aquilo tudo era pateta de mais porque perguntou-lhe: "E então, vale a pena isso? Não vais tu morrer também? E eu?". O senhor limpava os olhos e o nariz ao lenço de pano sacado do bolso perante o olhar do funcionário e do meu. E de repente passei a detestar todos aqueles cínicos de meia tigela que já se apareciam a manifestar contra o pesar colectivo do dia porque nesse pesar incluía-se o daquele homem e de sei lá mais quantos como ele. No fim o que ficou realmente do Eusébio não são os golos, nem a história do tremoço e do marisco, mas sim a alegria, a esperança sabe-se lá em quê que ele transmitiu a gerações, como à daquele velhote, a gastar a juventude no calor africano, para depois regressar a um Portugal miserável à espera de dias melhores que culminaram nestes tão tristes que atravessamos, mas a quem aquela história, aquele encontro, enche o peito, a existência.
sábado, 4 de janeiro de 2014
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Ontem à noite fomos outra vez acordados por uma discussão. Desta vez um cinquentão bêbedo ficou ofendido porque estava a fazer xixi na rua e um outro tipo, que viu, chamou-o de "grande porco". Defendia-se o primeiro que estava na via pública, que pertencia a todos, e que o outro, assim, não tinha autoridade para o criticar. Dizia ele que "mijava e cagava onde quisesse", inclusive na "boca do outro" e "prontos, está calado oh filho da puta".Como fiquei convencida com tão boa argumentação, até estive vai não vai para mandar o saquito de dejectos proveniente da limpeza diária da caixa dos meus gatos para a rua, mas de forma a acertar-lhe em cima (e rezando, claro, para que a gravidade e o peso das mini bostas e aglomerados de areia urinada, rebentassem o plástico do saco em cheio naquela careca).
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Às festas juntou-se uma outra palavra começada com "f", que não, não é logo essa que vos vem a cabeça, seus porcalhões. Dos onze dias sem trabalhar, só me sobram hoje e amanhã, daí esta neura que me acompanha desde ontem à tarde quando todos os outros rejubilavam de alegria. Estou cansada do meu trabalho, não só de carregar com o peso dos problemas dos outros, como ainda de ter lidar com má-criações que às vezes parecem que vêm de todo o lado, clientes, colegas, funcionários de repartições públicas. Subitamente, parece que tudo perdeu o juízo e a educação, ou então verifica-se um efeito colateral da austeridade, não estudado nem previsto pelos melhores economistas, que é que as pessoas sem dinheiro começam a ficar bem fodidas com a vida. Não creio mesmo que isto só aconteça comigo, acho que quem seja perspicaz e sensível também já se deva ter apercebido de uma espécie de agressividade latente que anda por aí à solta nas ruas, enclausurada dentro de cada transeunte, e também dá graças a Deus por não termos uma política de aquisição de armas igual à do Estados Unidos. Deixemos a neura global e passemos aos detalhes. Estou à passar um fase mais solitária, uma das minhas melhores amigas emigrou e faz-me falta, porque era exactamente com ela que partilhava as maiores e melhores opiniões. O meu restante grupo, continuo a adorá-los mas reparo, pela primeira vez em muito tempo, numa grande dissemelhança de interesses. Como quando no fim de ano comentei que ia começar o ciclo do Bergman no Nimas e eles nem ligaram porque "não gostam de filmes antigos", nem de "coisas deprimentes" e puseram-se todos entusiasmados a falar do "Hunger Games". Sem preconceito nenhum, atenção, apenas gostava de ter alguém para falar do "Persona" como eles falam daquilo. Sinto-me sem grande escape de uma realidade chata e cinzenta, como o dia que se afigura hoje.
Olhem, bom ano novo.
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
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A minha avó morreu ontem de manhã. Tinha um cancro a consumi-la há quase cinco anos, neste mês o estado agravou-se diariamente e no último fim-de-semana, quando fomos visitá-la pela última vez já não apresentava qualquer reacção. Por mais esperada que fosse aquela notícia foi impossível não recebê-la com choque. Por alguns minutos fiquei meio parva, fiz os telefonemas que tinha a fazer a chorar e a balbuciar mas depois compus-me, arranjei-me, sai para a rua no suposto estado de racionalidade - já se sabia, a qualquer momento, que aquilo ia acontecer. Mais tarde chega o momento em que se encara o corpo e percebi definitivamente a diferença que havia entre o que vimos no último fim-de-semana e o que vimos agora. Faz-me confusão que exista pessoas que não acreditem num lado espiritual do ser, que parte ao mesmo tempo que o coração pára. Faz-me confusão porque vi tão claramente a diferença na pessoa vegetal do último fim-de-semana e no corpo que vi ontem e hoje. Visualmente a imagem não podia ser mais semelhante e mais diferente. Durante anos e anos vivia agoniada com a realidade dos velórios e funerais, mas as últimas perdas fizeram-me perceber aquela mentalidade mais antiga que diz que os nossos mortos são-nos queridos. É impossível ter impressão de um corpo que nos abraçou e protegeu. A minha avó era para se chamar Stella mas o funcionário público que a registou não percebeu a modernice e ficou Estela. Ficou com um nome antiquado que não tinha nada a ver com a mulher jovem que ela foi, era uma daquelas belezas dos anos 50 que andava de vestido rodado feito na modista e luvas a condizer com o chapéu. Era tão bonita que roubou o noivo a uma tia e casou-se ela com aquele que viria a ser o meu avô. Ela era uma pessoa extremamente complicada, tinha um feitio autoritário e caprichoso, agravado pela vida que nunca foi fácil. Morreram-lhe dois irmãos e a mãe, todos muitos novos. O marido, que foi o melhor e o mais querido dos avôs, era um boémio que não podia ver outra mulher bonita e ela sofreu anos a fio de ciúmes e inseguranças. Chegou a ter três empregos para que os filhos pudessem estudar o que quisessem e a nós, netos, tanto nos obrigava a ficar quietinhos na sala um dia inteiro porque tinha estado a encerar o chão do resto da casa, como era seriamente preocupada em ajudar-nos a completar a colecção dos cromos das raças dos cães que saía no Bollycao. Era uma mulher muito caprichosa - já o disse acima-, doida pelo controlo e pela organização mas era tão torcida que era impossível não nos deixarmos torcer pela graça. Era aparentemente muito séria, uma espécie de grumpy grandma mas depois, quando menos esperávamos, era hilariante. Uma vez, em que passou uma grande temporada depois de um internamento em casa dos meus pais, ganhou o hábito de ver com eles "A Guerra dos Tronos". Ninguém tinha dúvidas que ela não percebia metade do que se passava, mas estava sempre a perguntar quando é que aquilo dava, a querer acompanhar. Uma noite, antes do episódio começar e já com ela resfatelada no sofá, a minha mãe pergunta-lhe afinal porque é que ela gosta tanto de ver aquilo. Ao que ela, extremamente concentrada responde, "Olha, acho graça ao anão fodilhão". E esta história tão parva e ordinária resume aquilo que ela era e que vai deixar tantas saudades. Nem sempre sabíamos o que contar vindo dela, mas sabíamos que ia ser muito bom.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
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A Pipoca Mais Doce fez um post onde descreve, num tom que oscila entre o gozo e o indignado, uma resposta que obteve por parte de uma associação que pretendia ajudar através de uma acção de solidariedade que vai apadrinhar no mês de Dezembro. Não há grande especificações do que em iria consistir este "apadrinhamento", além da explícita entrega de bens, não ficando claro se a Pipoca, a sua imagem e blogue iriam ser usados para a angariação dos mesmos. Ou se de alguma outra forma, a Pipoca iria aparecer ligada publicamente a essa acção, se ia ter repercussão nos media, etc. Eu, mais uma vez, entendi que talvez sim. Aconteceu que a associação que a Pipoca escolheu ajudar era uma de apoio a animais, que recusou a oferta, justificando-se que não poderia aceitar a oferta de alguém que usava artigos de moda em pele. Tal justificação - que diga-se, em bom rigor, poderia nem ter sido dada, a associação podia ter dito somente "não, obrigada" - originou o mencionado texto, onde a Pipoca adjectiva toda a situação como ridícula e prepotente. Fiquei um pouco surpreendida ao ler alguns comentários na caixa e não ver quase nenhum que me parecesse razoável, a maioria votava na ingratidão da tal associação. Achei, acho triste, reflecte a mentalidade portuguesa bacoca que não, não é aquela que recusou a ajuda da Pipoca. É aquela que acha que a "cavalo dado não se olha o dente", é aquela que acha que lá por a Pipoca amar de paixão o seu Manolo mas não se importar de usar um belo casaco de cabedal, quem tem a opinião diferente deve ser automaticamente, obrigatoriamente, um fundamentalista. Achei, acho triste, que se pinte como déspotas lunáticos, tontinhos que não comem carne e peixe e não usam nada de origem animal e que se dão ao trabalho de apanhar animais feridos da rua e endividarem-se com eles em veterinários, uns malcriados ingratos porque têm a liberdade de escolher a quem querem ser associados. Tudo isto faz-me lembrar uma história com muitos anos, testemunhada pela minha mãe. Num café, numa manhã, um miúdo com um ar pobre totalmente estampado na falta de agasalho e de higiene entra e pede a uma senhora ao balcão que lhe compre um bolo para o pequeno- almoço. A senhora responde-lhe que se ele tem fome, ela ajuda-o, claro, mas que vai antes comer um pão com manteiga, porque quem tem fome come pão. Os bolos eram para os gulosos. Lembro-me da emoção da minha mãe, que já então tinha filhos, a contar este episódio: com aquela resposta o rapazinho começou a choramingar, provavelmente de vergonha. Várias pessoas meteram-se e a criança acabou a comer uma daquelas pirâmides de chocolate com cereja no topo, acompanhada de um galão, tudo patrocinado por uma vaquinha que rapidamente se formou. É muito fácil ser caridoso com aquilo que achamos bem ou suficiente dar, mas a real caridade não é isso, não é sobre nós.
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
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Ontem ao ver o Nicolas Maduro - com um ar absolutamente lunático no seu casaco de fato de treino colorido à anos 80 - a falar da aparição da cara de Chávez numa parede do metro, achei que aquilo era tão provável como aqueles casos de pessoas que juram que a imagem de Cristo lhes apareceu num bocado de torrada queimada ou no bolor que se formou no queijo.
domingo, 27 de outubro de 2013
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
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Hoje estava a comprar um bilhete nas máquinas do metro quando comecei a ser chateada por um tipo, com pelo menos mais vinte anos do que eu, aspecto simples mas normal, ou seja, um tipo que não aparentava ser um bêbedo, maluco ou pervertido. Ficou ali durante o tempo todo que demorei a concretizar a compra do bilhete, a fazer comentários que começaram no armado em engraçado e acabaram a roçar o obsceno. Nesse momento cortei-lhe a palavra, com as minhas próprias palavras, pronunciadas bem alto para que quem estivesse por perto se apercebesse do real porcalhão que ali estava. Um senhor que passava, perguntou-me se precisava de ajuda e o tipo respondeu primeiro, antes de mim, que só me tinha feito um elogio e eu tinha levado aquilo como se fosse uma má-criação. Não aguentei tamanha lata, chamei-o muito educadamente de "grande besta" e fui-me embora. Já na plataforma, minutos depois, lançava-me um sorriso provocatório a uns largos metros de distância. Lembrei-me daquele grande debate há uns meses atrás, do giro que são os "piropos" e de como tanta gente, à semelhança daquele tipo hoje no metro, aproveitam estas pequenas aceitações sociais para camuflar verdadeiras formas de assédio e nós, mulheres, é que temos culpa por sermos bonitas.
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
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Existe gente muito estúpida e depois existo eu. Desde segunda-feira que ando a trabalhar largas horas na preparação de uma reunião que se realizou hoje. Hoje mesmo, antes dessa tal reunião, voltei a madrugar no escritório para finalizar umas pontas soltas, fiz então a merda da reunião que nunca mais terminava e que me obrigou a ir à pressa para um segundo compromisso profissional, com uma mera sandes no estômago (que fez questão de me evidenciar através de roncos variados nas horas seguintes que aquilo não era almoço que se apresentasse). Voltei depois ao escritório, a pensar que hoje não dava para muito mais, que ia por os emails em dia e tal e que sairia cedo para ir fazer uma aula ao ginásio e uma longa sessão de relaxamento de sauna e jacuzzi. Tudo o resto ficaria para amanhã. Quando me decidi então a sair reparei que chovia imenso e decidi, também, a esperar um pouco - afinal já tinha apanhado chuva na saída da segunda reunião, da parte da tarde, e não me estava a apetecer lidar de novo e de forma tão directa, com o mau tempo. Isto foi há quase 3 horas atrás. Acho que há um nome para isto e não, não é só estúpida.
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
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Creio que não deve existir um povo tão obcecado com a inveja como o português. O tema remonta a séculos passados, quando a educação não era muita e as pessoas tinham de explicar as coisas que sucediam no dia - a - dia de alguma forma. Se a criança de três anos morria e eles não sabiam as causas que conduziam à mortalidade infantil, tinha de ser "mal de inveja" da vizinha do lado que só tinha filhos feios enquanto aquela criancinha - "que Deus tenha a alma dela em descanso" - parecia um anjo. O tempo passa e a mentalidade evoluiu, embora não totalmente porque ficaram sempre raízes desses antecedentes místico-populares. Mas algures por aí deu-se uma inversão estranhamente acentuada da lógica da coisa e as pessoas que se queixam mais de serem alvo da inveja alheia são aquelas que não são merecedoras de grande inveja. Normalmente são aquelas que não têm capacidade de encaixar críticas (ou pelo contrário, aquelas a quem os barretes se enfiam na perfeição), aquelas que não concebem que existem estilos de vida, objectivos e conceitos de sucesso distintos dos seus. Não gostar de alguém, seja do carácter, seja do estilo de roupa, do que escreve num blogue ou da postura que demonstra ter não tem nada a ver com a inveja na maioria dos casos, tem a ver só com aquilo, com não gostar da pessoa, do carácter, do estilo da roupa, do que se escreve, da postura. É claro que isto deve ser muito difícil de entender para pessoas que se acham a última bolacha do pacote.
quinta-feira, 17 de outubro de 2013
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Admito que nos últimos meses deixei romper mais um pouco o já por si fino fio que me prendia aos blogues, tendo-me afastado como leitora e autora. Grande parte da blogosfera é uma questão ostensiva de ego. Tão ostensiva que chega a ser ofensiva, deturpadora daquilo que creio que deveria ser um blogue. Não sei, parece-me meio idiota que alguém -e há muita gente- mantenha um blogue para falar quase em exclusivo de si próprio, para vender uma imagem do que é, para depois se justificar daquilo que é, do que faz e para onde vai, para entrar em quezílias com quem comenta aquilo que o autor vende para dizer ao fim e ao cabo que os leitores não o conhecem de lado nenhum para tirar ilações acerca da sua vida, enfim, um sem fim de palhaçadas sem perceberem que nos blogues são como na outra vida, as pessoas intrometem-se ou não consoante a confiança que lhes é dada, consoante o espaço em que as deixamos entrar na nossa intimidade. Depois existem as caixas dos comentários e os seguidores, que me deixam realmente assustada pela quantidade de lambe botas que existe por aí fora, que me deixam deprimida por perceber que há gente que lambe botas a uma pessoa que se limita a escrever um blogue. Não estamos a falar do chefe que pode influenciar numa promoção e aumento salarial sequer, é um estranho que nem sabe que o lambe botas existe e que está-se bem a lixar para o link ali deixado do blogue, que não, não vai lá fazer uma visitinha. Ao ler certas caixas parece que fiz uma viagem no tempo, até ao pátio da pré-primária, onde existia uma menina com os cabelos mais bonitos de toda a creche e que as outras rapariguinhas rondavam que nem abelhas, ansiosas para agradá-la na expectativa de uma amizade sem saberem bem porquê. É também uma questão de ego, de encontrar validação para si próprio mediante a concordância com coisas que alguém que admiram escreve, de só se conseguirem aceitar na ideia de aceitação por outrem. Neste caso, de alguém que nem sequer conhecem. Há gente que nem parece gente, uma vez que não dão uso aquilo que as distingue de um animal. Por tudo isto, dei por mim a enervar-me e não a divertir-me com os blogues. Comecei a ganhar ódios de estimação, blogues que não suportava e que mesmo assim não resistia a ir visitar, dei por mim a também necessitar de validar a opinião que tinha daquelas pessoas e isso também é uma merda tóxica, porque ao fim e ao cabo quem sou para educar quem quer que seja. Passou. Tenho saudades de ler certas pessoas e de escrever.
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
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Parei por acaso numa notícia acerca do casamento da Daniela Mercury com outra mulher. Foram as duas vestidas de noiva e com bouquet de flores e a notícia tinha fotos disso mesmo. Nos comentários à notícia andam à solta os habituais atrasados mentais do costume, que são os únicos que têm muito tempo livre para se dar ao trabalho de comentarem coisas daquele género. Chamou-me especialmente à atenção várias mulheres que, elegantemente, observavam que elas "precisavam era de um bom caralho" ou de um "macho que as montasse", enquanto outras esboçavam a preocupação com os filhos das noivas que "coitados, iam crescer no meio daquela fufice toda". Muito bonito. Supostamente sabem tanto do que deve ser uma mulher e tão pouco do que é uma senhora.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
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Mais um bom negócio à vossa disposição no OLX.
Alguém decide vender uma "python". Esta.
Pede por ela o preço de 650,00€.
Também tem interesse em fazer troca por:
Um Bulldog Inglês fêmea bebé (com ajuste de preço)
Uma Gata Sphynx bebé (com ajuste de preço)
Um Samsung Galaxy S4 (livre e com factura)
Uma bimby TM3, com garantia ( e ajuste de preço, se aplicável).
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Atenção interessados! O anunciante só aceita troca por estes quatro itens, por isso esqueçam lá se têm um conjunto de chá da Vista Alegre ou umas botas Doc Martens que quisessem oferecer. A todos os outros em condições de levar este negócio a bom porto, podem encontrar mais informações aqui.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
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Na minha vista de olhos diária pelos sites de descontos - onde já pude arranjar grandes achados - descobri hoje no Groupon o seguinte, com o título "El Secreto del Placer"
«Dá saúde, prazer e faz crescer e, por isso, todos o fazem. Até os cães! Quem nunca teve um agarrado à perna? Se a sua namorada foi de férias, está a escrever a tese ou com alguma dor inconveniente, esta oferta é para si. E também se o Benfica joga em casa e, principalmente, se ainda não encontrou a dona do seu coração... e da sua cabeça.
Os ovos masturbadores Tenga candidatam-se a novos melhores amigos dos momentos de aperto. Cada um dos modelos tem um interior diferente para provocar sensações distintas durante a masturbação. Além disso, incluem um pequeno pacote com lubrificante para que a experiência seja mesmo top. Desfrute do sexo ao máximo sem precisar de mais ninguém. »
Nada contra a masturbação, nada contra o negócio ou a sua oferta num site como o Groupon. Mas a sério, eu se fosse homem e até estivesse interessado em comprar um ovo masturbador ficaria intrigado por:
a) comparem-me a um cão agarrado à perna de uma pessoa;
b) pela frase «E também se o Benfica joga em casa e, principalmente, se ainda não encontrou a dona do seu coração... e da sua cabeça.»;
c) pela expressão «momento de aperto», que mais facilmente remete a uma crise de cólicas do que propriamente a um momento em que alguém sente desejo sexual.
O sexo é a coisa mais fácil de ser vendida e mesmo assim há quem o consiga vender mal, que grande feito.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
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Não há muitos dias em que trabalhar/viver no eixo Chiado - Príncipe Real seja chato mas a verdade é que há alguns. Se é mau quanto a CGTP decide convocar manifestações semanais contra mais um furúnculo que lhes apareceu no rabo, também é uma merda quando claramente acusamos o cansaço de uma semana de trabalho stressante e de manhã nos arrastámos para sair da cama e não fomos capazes de mais do que a higiene e vestirmos a primeira coisa que nos apareceu à frente e, depois, às sete e meia espreitamos pela janela do escritório e só vemos mulheres todas embonecadas a descer e a subir a rua. Bem posso desejar que uma delas caía nos seus saltos finos ou que o batom vermelho lhe tenha sujado os dentes, não me sentirei menos patinho desleixado por isso.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
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O "onde estavas no 25 de Abril?" é, nesta data, substituído por o onde estavas no 11 de Setembro. Eu estava a almoçar num snack-bar na Fontes Pereira de Melo. Tinha 16 anos e o meu tio tinha-me arranjado um trabalho de Verão na companhia de seguros onde trabalhava, a organizar correspondência. Não me lembro o que comia, provavelmente porcarias atendendo à figura que tinha nessa idade, e não tive logo a plena noção do horror e de tudo o mais que aquilo significava. Foi isto mas prometo que para o ano não conto a mesma coisa.
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Há um fenómeno que se tem multiplicado nos últimos tempos, um tema que se repete em textos em blogs, crónicas e revistas, de autoria feminina. Ao tema, à falta de melhor inspiração, vamos chamá-lo de "o homem nabo". "O homem nabo" é aquele que, chamado a participar nas tarefas domésticas normais no quotidiano de um casal sozinho ou nas aventuras da paternalidade, revela muita boa vontade mas só faz asneiras. Não sabe fazer um puré de batata, tirar uma mancha de um vidro, fazer o puxinho no cabelo da filhota e tudo isto enerva, desespera, diverte as companheiras. A merda é esta, uma igualdade cuspida pela condescendência idiota com que se assume que um homem, por ser homem, não sabe fazer nada. Falso, um homem que não sabe fazer trabalhos domésticos é porque não foi educado e ensinado a fazê-los, tal como eu não fui ensinada a mudar um pneu, não porque sou mulher mas porque nunca calhou. Fazer destes "homens nabos" uma caricatura apenas desenvolve neles a ideia que não são úteis e o trabalho irá sempre recair na mulher espertalhona, os filhos crescerão perante um modelo familiar antiquado, onde a mãe pede ao pai para ficar na sala enquanto ela faz a próxima refeição para evitar a explosão da cozinha que pode ocorrer com a mera proximidade dele. E ele, lá ficará, a ver as notícias à espera do jantar, iniciando assim um ciclo vicioso onde se cria um novo "nabo" ou uma nova "sacrificada". Cresci numa casa onde o meu pai, se não tinha jeito para me escolher a roupa, cozinhava quase todas as minhas refeições, dava-me banho, ajudava-me a fazer os tpc e a adormecer. E se tivesse que me escolher a roupa, não saía de casa nua, mal agasalhada ou de cabelo no ar. Isto foi no fim da década de 80, princípio de 90. Hoje em 2013, vivo com um homem que também é assim, que faz umas coisas bem e outras mal mas que faz tudo o que for necessário. Surpreenda-se, tal como eu, que cozinho bem mas sou péssima a passar roupa a ferro. A minha experiência é diferente do relatado, tão diferente que faz-me confusão que existam e persistam em casais normais. Só achava isso concebível em casais poucos educados, com um homem bruto que acha que manda na mulher. Por fim, acho lamentável que sejam tantas as mulheres que fazem este papel meio parvo, de serem coniventes com ideias ultrapassadas, de reduzirem o que é uma mulher e o que é um homem.
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