terça-feira, 7 de janeiro de 2014

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No Domingo acordei ao meio dia e ainda estava a  sair do quarto com aquele ar de quem está a voltar à realidade quando o meu namorado, sentado no sofá da sala,  grita-me "Bom dia, olha o Eusébio morreu". Não sei, é sempre esquisito quando morre uma personalidade pública daquelas que nos é estranhamente familiar  e o Eusébio era uma dessas, reconhecia a sua cara e nome desde que me lembro de existir como pessoa. Não conhecemos a pessoa em si, mas de alguma forma ficamos chocados com a notícia e não conseguimos deixar de falar nisso. Na rua, no café, o tema repetia-se na boca de benfiquistas, não benfiquistas, patriotas e nacionalistas, pessoal que está-se bem a lixar para clubes e para o país mas que mesmo assim não ficava indiferente à novidade. Na televisão, outras personalidades públicas falavam do génio da bola, recontavam-se os mesmos feitos em exibições memoráveis, repetiam-se os elogios às mesmas qualidades do homem. Ao fim de um tempo desliguei-me automaticamente de tanta informação, o assunto parecia estar esgotado para mim. Mas nesse dia, ao fim da tarde, fui ao Minipreço ao pé da minha casa e o funcionário da caixa aborda o senhor à minha frente "Então hoje está triste não é? Lembrei-me logo de si, da história que me contou com ele...". E o velhote ficou logo emocionado e lá contou de novo quando era um jovem militar em África e conheceu o Eusébio que com a selecção foi visitar o grupo onde estava destacado. E lá contou também de como o encontrou umas duas vezes, ao longo dos anos, e que teve a oportunidade de falar com ele sobre aquele dia em África e de como aquilo o tinha marcado. A mulher do velhote empacotava as compras com um ar seco e lá deve ter achado que aquilo tudo era pateta de mais porque perguntou-lhe: "E então, vale a pena isso? Não vais tu morrer também? E eu?". O senhor limpava os olhos e o nariz ao lenço de pano sacado do bolso perante o olhar do funcionário e do meu. E de repente passei a detestar todos aqueles cínicos de meia tigela que já se apareciam a manifestar contra o pesar colectivo do dia porque nesse pesar incluía-se o daquele homem e de sei lá mais quantos como ele. No fim o que ficou realmente  do Eusébio não são os golos, nem a história do tremoço e do marisco, mas sim a alegria, a esperança sabe-se lá em quê que ele transmitiu a gerações, como à daquele velhote, a gastar a juventude no calor africano, para depois regressar a um Portugal miserável à espera de dias melhores que culminaram nestes tão tristes que atravessamos, mas a quem aquela história, aquele encontro, enche o peito, a existência.

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