quinta-feira, 21 de novembro de 2013

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A minha avó morreu ontem de manhã. Tinha um cancro a consumi-la há quase cinco anos, neste mês o estado agravou-se diariamente e no último fim-de-semana, quando fomos visitá-la pela última vez já não apresentava qualquer reacção. Por mais esperada que fosse aquela notícia foi impossível não recebê-la com choque. Por alguns minutos fiquei meio parva, fiz os telefonemas que tinha a fazer a chorar e a balbuciar mas depois compus-me, arranjei-me, sai para a rua no suposto estado de racionalidade - já se sabia, a qualquer momento, que aquilo ia  acontecer. Mais tarde chega o momento em que se encara o corpo e percebi definitivamente a diferença que havia entre o que vimos no último fim-de-semana e o que vimos agora. Faz-me confusão que exista pessoas que não acreditem num lado espiritual do ser, que parte ao mesmo tempo que o coração pára. Faz-me confusão porque vi tão claramente a diferença na pessoa vegetal do último fim-de-semana e no corpo que vi ontem e hoje. Visualmente a imagem não podia ser mais semelhante e mais diferente. Durante anos e anos vivia agoniada com a realidade dos velórios e funerais, mas as últimas perdas fizeram-me perceber aquela mentalidade mais antiga que diz que os nossos mortos são-nos queridos. É impossível ter impressão de um corpo que nos abraçou e protegeu. A minha avó era para se chamar Stella mas o funcionário público que a registou não percebeu a modernice e ficou Estela. Ficou com um nome antiquado que não tinha nada a ver com a mulher jovem que ela foi, era uma daquelas belezas dos anos 50 que andava de vestido rodado feito na modista e luvas a condizer com o chapéu. Era tão bonita que roubou o noivo a uma tia e casou-se ela com aquele que viria a ser o meu avô. Ela era uma pessoa extremamente complicada, tinha um feitio autoritário e caprichoso, agravado pela vida que nunca foi fácil. Morreram-lhe dois irmãos e a mãe, todos muitos novos. O marido, que foi o melhor e o mais querido dos avôs, era um boémio que não podia ver outra mulher bonita e ela sofreu anos a fio de ciúmes e inseguranças. Chegou a ter três empregos para que os filhos pudessem estudar o que quisessem e a nós, netos, tanto nos obrigava a ficar quietinhos na sala um dia inteiro porque tinha estado a encerar o chão do resto da casa, como era seriamente preocupada em ajudar-nos a completar a colecção dos cromos das raças dos cães que saía no Bollycao. Era uma mulher muito caprichosa - já o disse acima-, doida pelo controlo e pela organização mas era tão torcida que era impossível não nos deixarmos torcer pela graça. Era aparentemente muito séria, uma espécie de grumpy grandma mas depois, quando menos esperávamos, era hilariante. Uma vez, em que passou uma grande temporada depois de um internamento em casa dos meus pais, ganhou o hábito de ver com eles "A Guerra dos Tronos". Ninguém tinha dúvidas que ela não percebia metade do que se passava, mas estava sempre a perguntar quando é que aquilo dava, a querer acompanhar. Uma noite, antes do episódio começar e já com ela resfatelada no sofá, a minha mãe pergunta-lhe afinal porque é que ela gosta tanto de ver aquilo. Ao que ela, extremamente concentrada responde, "Olha, acho graça ao anão fodilhão". E esta história tão parva e ordinária resume aquilo que ela era e que vai deixar tantas saudades. Nem sempre sabíamos o que contar  vindo dela, mas sabíamos que ia ser muito bom.

9 comentários:

Pedro disse...

Um abraço forte

Sara disse...

Este post fez-me lembrar uma das ultimas vezes que estive na vossa casa, em que contaste algumas histórias da tua avo, com a mesma graça e imensa ternura com que aqui a descreves. <3 beijo grande, grande, minha querida.

RBM disse...

é verdade sara, lembro-me bem desse jantar e de falarmos dela. :)

ela podia ser uma personagem de uma série de tv, uma Livia Soprano, menos maquiavélica. tinha histórias e saídas maravilhosas.

Naná disse...

A tua avó era o máximo!

Força :)

Filipa disse...

Sinto muito! Abraço forte. :(

Limited Edition disse...

Os meus sentimentos. Bjs

6th nonsense disse...

Um abraço, RBM.

Anita disse...

Sinto muito :( que descanse em paz.
Beijinho*

Izzie disse...

Abracinho apertado :(