quarta-feira, 20 de novembro de 2013

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A Pipoca Mais Doce fez um post onde descreve, num tom que oscila entre o gozo e o indignado, uma resposta que obteve por parte de uma associação que pretendia ajudar através de uma acção de solidariedade que vai apadrinhar no mês de Dezembro. Não há grande especificações do que em iria consistir este "apadrinhamento", além da explícita entrega de bens, não ficando claro se a Pipoca, a sua imagem e blogue iriam ser usados para a angariação dos mesmos. Ou se de alguma outra forma, a Pipoca iria aparecer ligada publicamente a essa acção, se ia ter repercussão nos media, etc. Eu, mais uma vez, entendi que talvez sim. Aconteceu que a associação que a Pipoca escolheu ajudar era uma de apoio a animais, que recusou a oferta, justificando-se que não poderia aceitar a oferta de alguém que usava artigos de moda em pele. Tal justificação - que diga-se, em bom rigor, poderia nem ter sido dada, a associação podia ter dito somente "não, obrigada" - originou o mencionado texto, onde a Pipoca adjectiva toda a situação como ridícula e prepotente. Fiquei um pouco surpreendida  ao ler alguns comentários na caixa e não ver quase nenhum que me parecesse razoável, a maioria votava na ingratidão da tal associação. Achei, acho triste, reflecte a mentalidade portuguesa bacoca que não, não é aquela que recusou a ajuda da Pipoca. É aquela que acha que a "cavalo dado não se olha o dente", é aquela que acha que lá por a Pipoca amar de paixão o seu Manolo mas não se importar de usar um belo casaco de cabedal, quem tem a opinião diferente deve ser automaticamente, obrigatoriamente, um fundamentalista. Achei, acho triste, que se pinte como déspotas lunáticos, tontinhos que não comem carne e peixe e não usam nada de origem animal e que se dão ao trabalho de apanhar animais feridos da rua e endividarem-se com eles em veterinários, uns malcriados ingratos porque têm a liberdade de escolher a quem querem ser associados. Tudo isto faz-me lembrar uma história com muitos anos, testemunhada pela minha mãe. Num café, numa manhã, um miúdo com um ar pobre totalmente estampado na falta de agasalho e de higiene entra e pede a uma senhora ao balcão que lhe compre um bolo para o pequeno- almoço. A senhora responde-lhe que se ele tem fome, ela ajuda-o, claro, mas que vai  antes comer um pão com manteiga, porque quem tem fome come pão. Os bolos eram para os gulosos. Lembro-me  da emoção da minha mãe, que já então tinha  filhos, a contar este episódio: com aquela resposta o rapazinho começou a choramingar, provavelmente de  vergonha. Várias pessoas meteram-se e a criança acabou a comer uma daquelas pirâmides de chocolate com cereja no topo, acompanhada de um galão, tudo patrocinado por uma vaquinha que rapidamente se formou. É muito fácil ser caridoso com aquilo que achamos bem ou suficiente dar, mas a real caridade não é isso, não é sobre nós.

13 comentários:

Espiral disse...

Obrigada. Obrigada por colocares por palavras o que também senti ao ler o texto dela.

E tens toda a razão. Acho uma arrogância enorme o "eu é que sei o que é bom para eles" e o "como se atrevem a recusar a minha ajuda?".

Obrigada a sério. Pela coerência e pelo nível de reflexão que eu não conseguiria ter dado.

Isa disse...

"Não é sobre nós", RBM, eu amo você.

Izzie disse...

Toma lá um forte abraço e dois beijinhos repenicados nas faces. Ainda no sábado falava disto com outra pessoa, mas já achava que éramos as únicas a pensar assim.

Fuschia disse...

Já conheci muitas pessoas ligadas a associações de animais que são realmente fundamentalistas. Eu não acho que todas as pessoas que gostam de animais tenham que ser vegetarianas. Pessoalmente faz-me confusão que as pessoas usem despreocupadamente produtos de cosmética que testem em animais, mas não posso aplicar essa sensibilidade como obrigação para toda a gente. De qualquer forma, claro que a associação tem todo o direito de dizer que não, assim como ela tem em responder no blogue. Já os comentários...não os li todos, mas não se pode esperar grande clareza de um grupo de claque.

Fuschia disse...

Já conheci muitas pessoas ligadas a associações de animais que são realmente fundamentalistas. Eu não acho que todas as pessoas que gostam de animais tenham que ser vegetarianas. Pessoalmente faz-me confusão que as pessoas usem despreocupadamente produtos de cosmética que testem em animais, mas não posso aplicar essa sensibilidade como obrigação para toda a gente. De qualquer forma, claro que a associação tem todo o direito de dizer que não, assim como ela tem em responder no blogue. Já os comentários...não os li todos, mas não se pode esperar grande clareza de um grupo de claque.

RBM disse...

Fuschia, também não acho que toda a gente tem de ser assim. Eu não sou assim, adoro animais, tenho e teria mais se pudesse, já fui voluntária numa associação de animais abandonados. Mas sim, como o meu bom bife. Não me faz sentir muito bem quando penso a fundo na questão. Não acho que a pipoca seja má pessoa por usar sapatos de pele mas acho que não devia ter descrito a situação como fez no blogue, descrição essa que foi prepotente porque não entendeu uma posição distinta da dela e uma posição de quem realmente dá o corpo pelos animais. há formas e formas de mostrar um ponto de vista; acusar automaticamente os outros de maluquinhos porque até lhe deram uma resposta que pode ser razoável de determinados ponto de vista é que não me parece lá muito correcto.

Fuschia disse...

Eu concordo contigo, só quis apontar o facto de que muitas vezes as associações de animais se tornam realmente fundamentalisatas. Se tivesse que matar os bichos que como, vivia de arroz e fruta há muito tempo.
O tom ego-centrado entre o gozo e o indignado é o que caracteriza a maneira de estar da pessoa em questão, foi por isso que deixei de ler o blogue há muito.

snowgaze disse...

Como a Fuschia, deixei de ler há muito tempo. Volta e meia dou com uma polémica nos blogues despoletada por uma cena como esta. E desta vez até agradeço explicares a situação de maneira que nem tenho que ir lá ver o que é que originou a indignação. Menos um clique, não é que lhe faça diferença a ela, mas faz-me a mim.

Vanessa disse...

O remate do texto é um bocado incoerente tendo em conta o ponto de vista tomado ao longo do post (a meu ver). Precisamente por a caridade não ser sobre nós é que não se percebe a atitude da tal associação de animais que recusou a ajuda da Pipoca. E se a resposta da Pipoca é ridícula e prepotente (não digo que não o seja), menos não o será a justificação da opção da associação, que na recusa de ajuda implicitamente está a dizer que uma pessoa que utilize produtos ou vestuário de origem animal não está "qualificada" para ajudar os animais, o que constitui uma afronta a todos aqueles com um sentido de ajuda e generosidade gratuitos para com estes, mesmo que tenham uma peça de vestuário em pele lá em casa. Ou seja, esta associação está a dizer que a Pipoca (e muitos outros) não devia querer ajudar os animais, e por isso prefere ser orgulhosa e com isso privar muitos animais de ajuda alheia (que, julgo, é sempre bem-vinda, nas actuais circunstâncias). Honestamente, não sei quem estará a ser mais prepotente.

De resto, o tom insinuante com que inicias o texto - o que é que poderia a Pipoca vir a ganhar com este apadrinhamento - já agora, por que é que usaste aspas em "apadrinhamento"? - parece-me julgador de mais, o que não vai bem com o teor do post.

6th nonsense disse...

"Fiquei um pouco surpreendida ao ler alguns comentários na caixa e não ver quase nenhum que me parecesse razoável, a maioria votava na ingratidão da tal associação."

Os comentários são moderados. A razão é essa.

RBM disse...

Vanessa, a questão essencial do meu post não é discutir se a pipoca é ou não qualificada para ajudar a associação. Eu nem refiro se acho que ela é ou deixe de ser. O meu post é sobre a liberdade que uma associação tem de escolher a quem quer ser "associado", porque depreendi, do texto, que tal ajuda seria pública e publicitada. E deste ponto de vista, sim, faz-me todo o sentido que possam não estar interessados nesse tipo de imagem.

E o fim do texto não é nada incoerente - a associação que recusou faz caridade assente em princípios, são esses princípios coesos que a impediram de fazer algo que os contradiziam. A verdadeira caridade não olha só aos fins, preocupa-se com os meios. Não é só aceitar aceitar aceitar, até vender a alma ao diabo. E quando se preocupa com os princípios em que se baseia toda a acção de caridade deixa totalmente de ser sobre nós, perde-se a curto, ganha-se a longo prazo.

Quanto à pergunta que levantas, é bastante claro que sim, que também pessoas públicas, principalmente do género da Pipoca que vivem da publicidade e de aparecer aqui e ali, é muito importante aparecer e ser associado a estas acções. Todos ganham, não vamos ser ingénuos.

Sem ofensa, fez uma interpretação bastante ao lado do que pretendi transmitir. Ou talvez fui eu que não me expliquei bem, daí responder-lhe ao comentário em tom justificativo, que é algo que não costumo, nem gosto de fazer.

um beijinho



Z disse...

Compreendo o ponto de vista da Vanessa sobre o final do texto. Li a sua resposta, e concordo que nos devemos reger mais pelos princípios do que pelas consequências! Mas os princípios aqui em questão são exactamente das pessoas da associação! Não são os principios dos animais (eles só querem comer, e não têm problema em comerem-se uns aos outros). E portanto, a caridade tal como a define, não está a ser exercida.

Já eu acho que fazer uso dos nossos princípios durante todo o caminho, não atropela a caridade. Porque caridade é mesmo sobre nós. Mas isso já era outra história.

O número primo disse...

A sociedade está formatada para seguir determinadas pessoas sem as questionar. Basta ver vários exemplos históricos.