segunda-feira, 12 de agosto de 2013

...

Tenho receio de me andar a tornar numa daquelas mulheres insuportáveis para o marido. Tenho a noção que sou uma tipa que precisa de mimo, não daquele mimo ostensivo de prendas, jantares e flores, mas daquele mimo que faz-me acreditar que tenho alguém que olhe por mim. Gosto de exercer a minha independência, segura na confiança de uma boa rede por debaixo dos meus passos. Gosto do mimo que leva-o a aconchegar-me o edredón no Inverno, quando  sai de manhãzinha e eu fico a dormitar mais uma hora, gosto da atenção na pequena lembrança de deixar o último iogurte grego de morango à minha espera no frigorífico. A minha vida com ele é cheia de pequenos detalhes de amor, coisas tão subtis e puras, tão dadas sem nenhuma outra intenção além de dar, que não tenho como não me sentir grata.  E é assim que efectivamente me sinto. Mas em contrapartida, às vezes dou por mim a ser implicante com um sem fim de coisas menores, a fazer pequenas birras e a montar trombas sem saber muito bem porquê. Pareço aquela caricatura da antiga mulher portuguesa que, no esplendor de toda a sua robustez apertada na bata de andar por casa, punha o marido à beira de um esgotamento nervoso com os seus gritos autoritários. Pessoalmente, sou mais do estilo passiva - agressiva mas vai dar ao mesmo. Gosto de tentar justificar-me com as típicas alterações hormonais e com o stress acumulado que extravasa injustamente para as pessoas que me estão mais próximas, mas no fundo sei que isto não tem desculpa possível, sou uma besta é o que é. Vejo muitas raparigas a contentarem-se com o mínimo do mínimo dos namorados, a serem extremosas quando eles são negligentes, e vejo-me a mim, no outro lado da disfunção, a exigir mais e cada vez mais, um monstro de atenção, um gremlin quando leva com água. Quando estou apaixonada custa-me aceitar que para a outra pessoa possa existir algo mais no mundo além de nós, custa-me que ele esteja a brincar com aplicações no tablet quando eu estou ali ao lado - eu, que claramente sou mais interessante do que a internet inteira. A verdade é que eu não gostaria dele como gosto se ele só gostasse e precisasse de mim para ser feliz e não gostaria dele de todo, se ele cedesse à tentação de mudar por mim. Eu gosto dele porque ele conhece-me  assim, bicho caprichoso, com duas ou três costelas  filhas-da-puta, vítima de luas de disposição e mantém-se seguro naquilo que é, porque lá percebeu, ainda quando nem sequer me conhecia bem, que o meu afecto nem sempre revela através dos meios tradicionais.

4 comentários:

A Chata disse...

Porra, somos parecidas!

Maria Bê disse...

Tu estás dentro da minha cabeça. É que só pode!
Sorriso!

Valor Local disse...

acho que somos todas assim... o stress do lar é uma coisa lixada e não há como negar que nós gostamos de mandar nas coisas da "casa"... é mesmo assim e eles já nem ligam. Eu própria me surpreendi com o meu mau feitio doméstico, mas há horas para tudo, porque se fosse sempre "mel" também enjoava, por isso não desespere :)

noiseformind disse...

"eu, que claramente sou mais interessante do que a internet inteira." Obviamente ainda ninguém te disse que a "internet inteira" é onde está quase toda a "pornografia inteira" ;) as minhas mulheres matam-me, n tenho força para ler isto tudo agora. Amanhã comento a sério.