terça-feira, 9 de julho de 2013

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Todos estamos fartos de ouvir que amar passa em grande parte pela aceitação. Uma coisa é estarmos apaixonados inicialmente e tudo parecer uma pequena grande maravilha, outra é passarmos aos estágios seguintes do relacionamento amoroso, deixarmos amadurecer os sentimentos e as sensações. É aqui que entra a aceitação, filha da premissa que ninguém é perfeito e que amar passa por entender que as idiossincrasias que nos tiram do sério na outra pessoa fazem parte dela, fazem parte da pessoa que amamos. Podemos continuar a detestar aquele hábito ou faceta mas devemos respeitá-lo. Só isso legitima que também aceitem as nossas merdas, que pasme-se, também as havemos de ter, em vez de se exigirem mudanças que seriam na realidade mais amputações de carácter. Até aqui, tudo claro, as relações entre duas pessoas conseguem ser muito simplificadas porque gostar de alguém re-define as nossas prioridades, as nossas atenções e de repente, estamos receptivos e abertos e somos compreensivos com uma série de coisas que nem nos passava antes pela cabeça. Mas esta aceitação começa e acaba naquele objecto de amor e a parte complicada começa aí, quando não conseguimos aceitar as coisas que embora relacionadas com aquela pessoa, fogem à nossa ideia dela. Gostar de um homem não significa que tenhamos de gostar da mãe dele que vem atrelada; gostar de uma pessoa pode ser compatível com não ter empatia com os amigos dela ou com um filho nascido de uma relação anterior. Podemos até falar de animais de estimação, tantas vezes  imaginei-me a afugentar pretendentes incapazes de competirem com  os gatos pelo meu afecto. Mas no fundo, qual é o mal, porque raio é tão típico sentirmo-nos mal por isto? Aceitar implica chegar a uma situação de conforto e a realidade é que com determinadas pessoas e situações nunca será possível mais do que uma mera tolerância. Resta à outra parte aceitar isso.

1 comentário:

noiseformind disse...

"Mas esta aceitação começa e acaba naquele objecto de amor"

Não... não... porque ao contrário do gato (ou, no caso dos que têm melhor gosto, cão) os seres humanos não se vão buscar numa caixinha ;)

Os seres humanos têm amigos, vizinhos, familiares, sítios, cheiros, manias, desportos, hobbies, carros, barcos, filhos e assuntos que nos ultrapassam em dadas alturas. Nós podemos ser predominantes na sua vida mas as pessoas, se foram sensivelmente socializadas, a certa altura vão ter de estar com esta ou aquela pessoa, e muitas vezes até podemos não ser convidados.

Não se trata de aceitarmos isto ou aquilo nas circunstâncias da pessoa com quem vivemos (ou, no meu caso, pessoas) mas sim construirmos sobre essa complexidade de forma positiva.

Parece-me impossível que alguém possa dizer abertamente que a pessoa que infundiu grande parte da educação na pessoa de quem somos companheiros é uma má pessoa. Pode sim, isso acredito, uma imagem má de nós e portanto trata-se de nós, chegados à uns anos a uma relação que está alicerçada desde o nascimento da pessoa, construirmos algo sobre essa relação.

Da mesma forma parece-me que não se pode simplesmente "não querer" fazer parte de um filho de alguém com quem vivemos. Como explicar que não somos ameaça à intimidade da outra pessoa com os filhos se não temos sequer segurança para abdicar um pouco dela para os próprios filhos?


Se realmente trememos e aspiramos a "virgindades sociais e ausências de passados" então estamos no filme errado e não apenas com a pessoa errada, estamos a viver algo que nunca vai ser, porque nunca vai ser 100% a dois, ninguém vive 100% sempre a dois.

Mas o pior não é isso. O pior numa relação a dois é quando a expressão do outro, natural caso estivesse sozinh@, se torna para nós motivo de "comédia" ou "drama". A pessoa apercebe-se que colocou em casa um corpo estranho e alguém que é incapaz de aceitar a própria pessoa que "ama" na sua plenitude e que a fase de "namoro" ainda continua, não podendo el@ ser el@ própri@.

A fase para sermos moldados pela vontade de outra pessoa chama-se infância, e para a maior parte de nós já acabou À muito quando chega a altura de partilhar a nossa casa com outra pessoa. ;)