quinta-feira, 30 de maio de 2013

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A adaptação do filho primogénito ao maninho mais novo é um tema que suscita preocupação recorrente aos jovens pais. No meu caso - e como por aqui raramente as coisas correm normalmente, não fosse eu um íman ambulante de estranhezas e peculiaridades - a situação é a oposta.




Em cima está o Belchior, em baixo a pequena Irisca. O mundo tem estas coisas esquisitas, sem qualquer proactividade da minha parte, vieram-me parar às mãos por intermédio de pessoas minhas conhecidas, estes dois exemplares felinos, em muito semelhantes a outros dois que tinha em casa dos meus pais e que me eram infinitamente queridos. Se calhar isto não tem nada de metafísico, se calhar estou destinada a ficar com determinado estilo de gato, tal como estou destinada a ficar com determinado tipo de homem. O Belchior foi para minha casa pouco depois de estar a viver sozinha. Comovi-me com a história dramática do gato que foi atirado pelo dono de uma janela e que ficou um dia inteiro de Inverno a miar em desespero à porta do prédio em Mem Martins, até que uma alma caridosa o recolheu. Depois de uma noite a remoer no infortúnio do pobre gato, no dia seguinte lá o mesmo me foi entregue. Nos primeiros dias, tive o prazer da companhia calma e doce do animal. Talvez efeitos retardados de ter sido sedado para a castração. Numa questão de uma semana, tinha o diabo da tasmânia no meu pequeno apartamento. Com o tempo aprendi a amá-lo como se ama um filho especialmente problemático - não é aceitação dos defeitos, é compreender que é aquilo que o faz único e, sendo assim, apenas encolher os ombros quando ele passa uma hora a arranhar a porta do quarto para entrar e, quando finalmente eu cedo, deixando-o entrar, vejo-o a ir direito ao guarda-roupa, numa nova demanda de uma nova porta por abrir. A Irisca está cá há duas semanas e é fruto da decisão pensada e pela primeira vez conjunta de aumentarmos a família. Muito tememos a reacção do mais velho, único até então, mimado na sua coleira vermelha e almofada de pelinho estrategicamente colocada ao pé do sofá, num ângulo privilegiado de onde também pode ver o Masterchef. A verdade é que o Belchior recebeu a gata como quem recebe uma boa nova esperada, desde o momento que entrámos com a transportadora em casa que a ânsia dele em tentar aproximar-se dela é evidente. Ela, bufa-lhe e bate. Se de início atribuíamos isso à desconfiança típica de quem está num meio novo, agora apercebemo-nos que ela pura e simplesmente preferia que ele não existisse. Anda pela casa que nem uma princesa e quando se cruza com o outro, bufa-lhe e escorraça-o em hostilidade imediata. Ele foge para voltar mais tarde, ela levanta-lhe a pata e dá-lhe duas chapadas na cara que ele acata apesar de ser bastante maior. À noite o drama intensifica-se: vimos para a cama e vemos os dois a correrem na nossa direcção. O Belchior distrai-se sempre com algo pelo caminho e quando finalmente chega, a outra já o encara altiva do lugar que antes era dele, o lugar no meio de nós, ah o vale do quentinho, o paraíso do ronron. Resignado, ele sobe para a cama e ajeita-se nos pés da cama, com a cabeça entre as patas brancas, a tentar passar o mais despercebido possível. Mas é inevitável o fim que antecipam, o serão acaba mal com a bully a ser levada para um quarto separado e eu sem conseguir dormir com o coração partido de a imaginar com frio e sozinha. Este texto sobre gatos é na realidade um texto sobre as razões pelas quais ainda não estou preparada para ser mãe.

3 comentários:

VerdezOlhos disse...

Nós também decidimos, há pouco tempo (também depois de muito ponderar e pensar e repensar) adoptar uma amiga para o filho único lá de casa. Ele é muito carente e estava sozinho, lá decidimos e acho que fizemos bem. O nosso medo também era mais por ele, por se poder revoltar connosco ou chatear com ela, ou mudar o comportamento em relação a nós... E ela chegou, faz-lhe frente, bufa e dá chapadas também. Ele anda atrás dela como se lhe quisesse saltar para cima, ela, cada vez mais, tolera ou ignora as "investidas" dele mas muitas vezes ele apanha. Penso (e espero) que aquilo esteja a melhorar mas acho que só com o tempo é que a coisa se dará. Convivem mas ainda não são companheiros...a ver vamos. E é como dizes: assim tenho (temos) visto que tão cedo não teremos filhos, não estamos MESMO preparados para ser pais -.-
Putos, digo, GATOS!

Boa Sorte, beijinhos

Izzie disse...

A nossa bichana é de uma misantropia a toda a prova. Já tive um convidado felino lá em casa e foi um desastre: a bicha deprime, encolhe-se, fica a um canto. Uma pena, que estamos preparados para o segundo filho peludo, mas não dá, mesmo. Boa sorte!

Fuschia disse...

Os meus pais têm 3 gatas e 1 gato. A mais pequena dá porrada nos outros 3. O gato dá-se bem com as duas gatas. Todos odeiam a preta. E isto é assim há anos, duvido que mude.