quinta-feira, 7 de março de 2013

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Aos vinte e oito anos acabados de fazer decidi meter-me em algo em que pensava  há muito tempo e que passa por corrigir os dentes. Digamos que o que não tenho em altura e em peso, Deus acrescentou-me em cabelo e dentes da frente. Durante muitos anos considerei que não ter os dentes alinhados dava-me uma certa graça, ideia que era reiterada pelos namorados que fui tendo, que coitados não deviam pensar mesmo aquilo apenas estavam apaixonados e já se sabe que quem feio ama bonito lhe parece. A verdade é que se não tive complexos com isso na fase dita apropriada da adolescência, comecei a desenvolver algumas paranóias mais tarde. Tipo vinte e muitos. Não sei, a minha afeição ao meu sorriso enviesado pareceu-me semelhante à pancada que tive por um top de flores havainas que usei até à exaustão no Verão de 2002, embora me ficasse mal para caraças e fosse piroso de uma forma inerente. Era assim meio cute até se tornar ridículo.  Comecei a achar aquele sorriso desadequado e como é que aceitável  haver um sorriso desadequado? Para reforçar a minha recém-ideia em desenvolvimento começou-me a aparecer uma dúzia de problemas não estéticos relacionados com a má colocação dos dentes e das suas raízes de fazer inveja a uma árvore centenária. Pus aparelho nos dentes esta semana e percebo o que sente um cão com açaime. Percebo agora que a minha colega deleita-se com uma fatia de pizza a escorrer queijo fundido com cogumelos enquanto eu limito-me a abrir e a fechar as narinas como um pequeno dragão. Não sou uma pessoa tendencialmente dada a inseguranças sociais mas tenho uma profissão que me obriga a falar muito e de momento tenho a dicção alterada, o que de facto me chateou hoje e me impediu de ter aquela atitude estupenda de boca aberta em exibição da dentuça ornamentada, que acredito ser a atitude certa para enfrentar todo este incómodo e dor. Já sei, já meio mundo me disse que é uma questão de hábito como tudo o resto, mas há três dias que a minha alimentação é semelhante à de um bebé, deixem-me gozar esta ponta de miséria. Só hoje.

2 comentários:

Clair de Lune disse...

Ahahahah! Eu tinha 10 anos quando coloquei os ferros. Deus não me deu peso, mas deu-me a porra de umas sacholas que metiam medo! Nem os dentes conseguia colocar dentro da boca, pelo que era o típico coelho ou cavalo ou castor, nomes que a minha irmã que foi abençoada com uns dentes pequeninos direitinhos que chama constantemente.
Um ano e meio de ferros e doeu para caraças. Mas valeu a pena.

Silvia disse...

Nao 'e uma questao de h'abito. 'e terr'ivel e doloroso praticamente sempre. tenho o meu h'a ano e meio e se o tirasse amanha it wouldn't be soon enough. As aftas e feridas nas bochechas nao passam, a dor cada vez que trocares os elasticos nao atenua de umas idas para as outras. Se compensa? Provavelmente sim, mas a longo prazo, porque para j'a s'o quero 'e tirar isto. entao esta semana tem sido especialmente divertido.
May the force be with you...