terça-feira, 19 de março de 2013

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As pessoas sofrem com os fins das relações pelo fim em si, tenho reparado. Tudo o resto é aleatório, se o rapaz ou rapariga que se deixou era uma jóia ou um traste, na altura da separação nada disso entra na equação do sofrimento. Quando o tempo passa as coisas supostamente tornar-se-ão mais claras, são os mecanismos da alma. Tal como uma pessoa que é amputada aprende a viver normalmente sem o membro que perdeu, também o coração se ajusta a uma nova realidade onde lhe falta algo. Nada mais volta a ser o mesmo - e contudo, o facto de estarmos perante uma situação irremediável deixa de ser um pólo de desespero e passa a ser de liberdade. Tudo isto é inevitável, agora também reparo. Mas também vejo que esta aceitação pacífica das coisas que nos é imposta pelo nosso instinto de sobrevivência emocional não é significado necessário de felicidade. Porque aceitar pacificamente que não há nada a fazer, não é igual a digerir as memórias, as más que nos trazem a dor à flor da pele durante tempos a fio, as boas que se for preciso ainda são piores. A aceitação é na linguagem comum da psicologia a última fase do luto, pelo caminho que inicia pergunto se não fazia mais sentido ser a primeira.

4 comentários:

A. disse...

verdade, verdade...

A Chata disse...

Soubeste pôr em palavras aquilo que sinto...

A. disse...

estive a pensar nisto (não tenho mais nada que fazer eu sei...)

Mas se calhar não aceitamos logo, porque corremos todos os cantos da nossa memória à procura de algo que nos escapou. Quando é que ele/ela deixou de me querer, quando é que falhei, quando? como? porquê?

Não conseguimos, não queremos, não podemos simplesmente aceitar algo que ainda não faz sentido, algo que nos magoa a cada segundo que passa. E vamos revendo tudo, passo a passo, à procura de algo que mesmo que o encontremos nunca fará sentido (numa fase inicial).

Porque se calhar quando entramos logo nessa fase da aceitação, é porque interiormente já tínhamos passado pelas outras fases todas em silêncio, tendo noção de que a relação mais cedo ou mais tarde iria acabar.

Ana A. disse...

A aceitação é a redenção de nos mesmos perante a inevitabilidade da vida que prossegue sem a nossa interferência.
Dada a dificuldade de a atingir faz sentido ser a última.