quinta-feira, 7 de março de 2013

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A Pipoca escreveu um post sobre um tema que me é "querido". Sempre que encontro algo sobre a depressão preparo-me logo de antemão para enfrentar uma série de coisas que me vão enervar. Se o texto da Pipoca peca em certos pontos por uma certa banalidade na abordagem do tema,  nos comentários encontram-se testemunhos cheios de dor, alma e conteúdo, coisas autênticas, a anos luz de tretas e balelas. Passei hoje mais tempo naquele blogue do que alguma vez creio ter passado, passei tempo até chegar como tinha inicialmente previsto, a algo que me realmente me surpreendeu e que foi o seguinte comentário:


Desculpem ir contra a corrente mas tenho que dar a minha sincera opinião: para mim a Depressão não existe. Ou melhor pode até significar tristeza, a tal apatia mas creio que em 99% dos casos se deva a falta de ocupação e problemas reais. Desculpem mas é a verdade! Se tiverem o dia todo ocupados, seja no trabalho, com filhos problemas domésticos, dinheiro etc etc garanto-vos uma coisa, a depressão passa-vos num instante! O que já não englobo os tais ataques de pânico que acho serem coisas diferentes, do foro psicológico e até físico. Agora Depressão??? Não me lixem...
Cumps

Admito que não tenho grande paciência para aquele tipo de pessoas que tem sempre de remar contra a maré da opinião geral não porque crêem que estão a defender a opinião correcta mas sim porque têm de ter uma opinião diferente. Desisti - há muito - de tentar demonstrar a este tipo de gente com quem me cruzo no meu dia-a-dia de que ser a ovelha negra do rebanho só porque sim, é tão ignóbil como fazer parte do núcleo das ovelhas brancas que nem sabem porque são ovelhas brancas. E que decerto será bem pior do que as ovelhas brancas que o são por convicção e muito orgulho na sua lã clarinha. Enfim, ser do contra por feitio deixa de ter piada e deixa de ser admissível a partir de uma certa idade na minha óptica. Revela imaturidade sim, revela muitas vezes falta de inteligência, noutras insegurança. No caso deste comentário anónimo além de tudo o que disse revela-se também uma abismal falta de humanidade. Também desisti de tentar perceber de onde vem esta capacidade atroz que certos indivíduos têm para reduzir a realidade alheia lá no topo do seu palácio da razão bacoca com paredes revestidas a autismo. Como é que alguém perante todos os comentários que ali foram deixados, de gente a sofrer, pode escrever algo daquele género? Como é que aquele sujeito pode afirmar que uma depressão não é um problema do foro psicológico mas falta de ocupação, de problemas reais, assim um tremelique que dá às pessoas quando a programação na TV é má. Uma pessoa deprimida não tem falta de problemas reais, tem sim um grande e único problema real que consome todos os outros e tudo o mais. Um que vai além do dinheiro curto e dos filhos que não querem fazer os trabalhos de casa, da pilha de roupa que há para passar a ferro e dar uma queca quando não apetece, desse tipo de coisas que parecem ser os únicos problemas existenciais que aquele anónimo parece admitir como razoáveis. Mais do que enervada com este comentário, fico um pouco derrotada porque sinto que é um pequeno passo de vitória para aquela doença contra a qual também lutei diversas vezes e que receio, mais do que tudo na vida,  voltar a lutar. Posso seguir com a minha vida, deixar que seja a paz que impere aqui na minha casa e no meu peito mas a verdade é que me assusta o que está lá fora, a ignorância de tantas pessoas, o medo que têm tantas outras  da ignorância e que por isso se calam e não têm a ajuda que necessitam. Podia ter vergonha alheia, como quase sempre tenho quando me deparo com exemplos flagrantes de ignorância, mas hoje, hoje fiquei com assustada.

4 comentários:

Fada Sininho disse...

São as ceifeiras deste mundo, para quem só há preto e branco. São dignas de inveja (pelo simplismo com que veem o mundo) mas, acima de tudo, são dignas de pena.
Prefiro poder, nem que seja por um segundo, adorar todas as cores do mundo e questioná-las correndo o risco de me pregar uma rasteira a mim própria, do que ver sempre a vida a preto e branco e sem perguntas com a certeza de "viver sã".

SA disse...

como diz o povo "só quem não passou por elas é que não sabe dar o valor". Graças a deus nunca me senti depressiva a tal ponto que necessitasse de ajuda terapêutica, mas a minha mãe já esteve um ano assim e custa muito ver os nossos familiares dentro do buraco escuro sem que possamos fazer mais do que apoiar. Quando a um dia bom sucede um dia mau, e vice-versa, ao fim de muitas tentativas caiu nas mãos de um bom psiquiatra e curou-se. A linha que divide o que se entende por normalidade e tudo o resto é extremamente ténue.

Izzie disse...

Já me aconteceu, ouvir alguém dizer que depressão é coisa de quem não tem problemas a sério, ou sofre de falta do que fazer. Fiquei enervadíssima, tive uma vontade enorme de retrucar que luto com essa "falta de problemas a sério" há quase vinte anos, se tinham algum conselho bom para me dar. fiquei calada, porque já aprendi que não se derrota a ignorância, mais vale encolher os ombros e seguir. Há vinte anos, quando tive os primeiros sintomas e passei por um sofrimento terrível, tive de ouvir de pessoas que considerava amigas coisas tão humanas como "isso é tudo psicológico [pois é, como se fosse menos problemático por isso], coisas da tua cabeça, tens de ter força para ultrapassar". Hoje em dia, com mais informação, ainda há quem pense assim. Não os tento educar, limito-me a afastar deles. Porque eu mereço melhor, ponto final.
Isto não é fácil. Mas vive-se, aprende-se a viver com o inimigo cá dentro, a conhecer-lhe os passos, a negar-lhe a vitória. E é tão bom, quando reconhecemos que alguém passa pelo mesmo e podemos dar-lhe uma palavra de alento, de esperança. Não é a solução, mas sabe mesmo bem.

A Chata disse...

Há gente muito estúpida, é só o há a dizer!