terça-feira, 22 de janeiro de 2013

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Com alguma frequência reparo em pessoas sem-abrigo que se fazem acompanhar de animais bem tratados. Já vi, aliás, cenas que me comoveram muito como um homem em Santa Apolónia que após receber a sopa ali distribuída, provavelmente a única refeição que teve no dia, partilhou tudo que recebeu com o seu cão. Ou como uma mulher que costuma parar na zona no Rossio e com que meti conversa mais do que uma vez e de que numa dessas vezes me contou que ia ajudar numa conhecida associação protectora de animais todas as semanas, para garantir comida e assistência veterinária ao seu cãozinho de  pequeno porte. Uma tarde de Inverno, há um ano atrás para aí, encontrei-a de novo com o cão empoleirado nos ombros com uma capa de tecido polar vestida enquanto ela estava ali com uma t-shirt e um casaco de malha. Hoje li a notícia que um dos efeito colaterais da crise tem sido o abandono de animais, que tem supostamente aumentado. Faz sentido se pensarmos que um animal dá despesa e dá. Mas  deixa de fazer sentido quando se vê esses exemplos de pessoas que têm tão pouco e partilham esse tão pouco com o ser vivo que escolheram acolher. A crise tem efeitos colaterais que não nos passam ao lado, não podem passar a partir do momento em que estamos no supermercado e vemos as pessoas a deixarem coisas na caixa e a desdobrarem o pagamento em variados cartões e moedas desencantadas no fundo de um bolso. Mas também a crise não deve servir de camuflagem para um problema social autónomo. É que uma realidade é ser pobre em dinheiro, outra é ser pobre em carácter. 

4 comentários:

Limited Edition disse...

Eu dou sempre uma moeda a um senhor que está no chiado cm dois caes brancos. Um deles parece um lobo e está sempre deitado, sossegado. Outro é o Snowball, um canície encardido e cegueta, que agradece as moedas de cauda a abanar e depois volta imediatamente para o dono quando ele o chama. Podem estar na rua, mas nao lhes falta nada e são mais amados que muitas crianças.

Izzie disse...

Não sei se conheces esta história; http://www.amazon.co.uk/dp/1444737112
Cruzei-me com eles em Covent Garden, já li o livro, e pá, pá, eu que nem sou de me comover.

Martine disse...

Sempre tive a sensação que as pessoas sem-abrigo por saberem exactamente o que é passar fome e privações, conseguem pôr-se no lugar dos animais e ver que as pessoas não são mais nem menos do que animais, mas que tudo se resume à sobrevivência (humana ou animal). Acho admirável que essas pessoas tirem de si mesmas para darem aos seus animais. No fundo, trata-se de um agradecimento pelo companheirismo deles e não tenho dúvidas de que eles fariam o mesmo pelas pessoas. Quando uma pessoa e um animal chegam a esse "nível de entendimento mútuo", é porque se compreendem tão bem que as acções falam por si e o que é de um, é do outro.

O facto da crise ter feito com que supostamente aumentassem os abandonos no meu ponto de vista só comprova o facto de as pessoas não saberem efectivamente o que é o amor ao próximo (pessoa ou animal) e que sem saberem o que é o amor, a primeira coisa que fazem em vidas de necessidade, é porem-se a si mesmas e aos seus bens (algumas vezes tão supérfulos) em primeiro lugar.

Claro que há pessoas que não o fazem desta forma e ainda bem.

Mas também estou ciente de que nem todas as pessoas no mundo têm de ser como eu, que sou "apaixonadíssima" por animais.

Kitty * disse...

Antes de ajudarem esses sem-abrigo, certifiquem-se que os animais estão realmente bem tratados. Há um tipo em Madrid que pede com gatos. Todos os dias tem um gato diferente e sempre suspeitosamente quieto... De certeza que os droga para os manter imóveis enquanto pede esmola. Toda a gente acha piada aos gatos (a maioria das pessoas não sabe que é impossível manter um gato quieto no meio de uma rua movimentada) e o tipo saca uma pipa de massa. Vi isto com os meus próprios olhos e senti-me realmente impotente, por isso estou a deixar este aviso.