sábado, 5 de janeiro de 2013

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No outro dia aconteceu-me um sucessão de eventos estranhíssima. Estava eu ali ao pé do miradouro de S. Pedro de Alcântara quando vejo o José Luís Peixoto. Desço a Calçada da Glória, em direcção à Avenida da Liberdade. Estou parada numa passadeira, à espera de atravessar, quando o carro que finalmente pára para que eu passe é conduzido pelo sorumbático Garcia Pereira. De seguida vou ao ginásio, estava na passadeira  e reparei que na TV estava a dar o "Preço Certo", aquele querido apresentador a formar as típicas bolhas de cuspo no cantos da boca enquanto se entusiasma a agradecer as prendas que os bombeiros voluntários do cu de judas lhe trouxeram. Repugnância. Quando saio do ginásio, e ao virar uma esquina, dou de caras com o Fernando Mendes em pele e "osso", ali mesmo à minha frente. Mais do que repugnância, ficou um mau estar instalado,  a absurda sensação de que estava a viver um dia mau - e contudo, mal eu sabia. Isto tudo vem a propósito de um post do Tolan que li agora, embora vocês  ainda não o percebam porque este é um post tipo  episódio dos Simpsons,  aqueles que começam com uma determinada história para depois irem acabar numa cena totalmente distinta.

O mais estranho dessa tarde toda foi eu contar isto ao meu namorado e ele dizer que "não desgostava" do Peixoto. Deu-se-me um baque no coração e seguiram-se umas tentativas meio atabalhoadas de explicar como o Peixoto é uma espécie de Rebelo Pinto, um cliché direccionado a outro nicho mas apenas isso. Isto foi na antevéspera de natal. Na  véspera ele comunica-me que uma tia deu-lhe o último livro do Peixoto. Questiono se o "não desgosto" será na verdade "é público que gosto dele". No dia a seguir vejo-o a chegar  a casa com o dito ainda semi - embrulhado e tive de brutalmente dizer que o Peixoto vai ficar, tal como um menino que se portou mal, virado para a parede, ou num canto escondido de uma estante alta, de forma a não deixar constrangido o Dostoivesky, o Kafka, o Wilde, o Flaubert e o Joyce, que me parecem ser os tipos mais susceptíveis de levar a peito uma desfeita destas - ao fim e ao cabo, partilhar uma estante com um tipo daqueles é como ter um roomate que cheira mal dos pés e apesar disso a primeira coisa que faz quando chega a casa é tirar os sapatos. Acima de tudo, preocupa-me que alguma visita ache que aquilo é meu. Daqui a uns meses, não se surpreendam de ver o livro discretamente à venda no custo justo, ao preço que a a minha consciência permitir.

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