quarta-feira, 7 de novembro de 2012

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Há pessoas complicadas e depois existo eu. Continuo a entregar-me com determinada facilidade a crises existenciais que não passam de episódios injustificados, contudo continuo ainda a tentar encontrar-lhes uma explicação. Nos últimos meses ando num estado de espírito tão apaziguado que dei por mim a questionar essa mesma quietude interna. Como se necessariamente tivesse de existir algo podre, como se esta paz significasse que andava a dormir ou drogada ou qualquer coisa do género. Como se houvesse algo que me escapasse. Dei por mim a sofrer entregue ao revisionismo, isto até perceber que só o continuo a fazer porque as vezes que escrevi a minha história impossibilita que me lembre do que realmente aconteceu. E não tem relevância, porque as consequências ainda estão aqui, ali, naquela crença masoquista, submissa, repleta de auto-comiseração, de que nada de genuinamente bom me pode acontecer. Ter ansiedade é normal, deixa de o ser quando me tira tudo, começando pelo simples prazer automático que as coisas mais prosaicas me dão. No meio de todos as embrulhadas emocionais que vou arranjando, de umas lágrimas que vou soltando com vergonha extremamente reservada, há uma intimidade que se gera com que nos entende e - tão raro - não critica. Em vez disso, ele liga-me perto da uma da manhã e faz-me rir sem esforço com uma descrição non sense de quando era um miúdo a viver numa aldeia do interior e a avó levava-o aos funerais todos. Dei por mim perdida nesse riso,  a gozar mas encantada com o sotaque dele que é uma mistura de beiras e Porto e que para mim é o mais bonito do mundo apesar de ele me dizer que o mais bonito é o meu "de Lisboa" (como se houvesse tal coisa, como um sotaque de Lisboa, pffff). Adormeço descansada e de manhã ao procurar um casaco para sair, encontro umas Levis que ele se esqueceu aqui. Ao dobrá-las sinto o cheiro dele, do corpo e do amaciador que usa na roupa, apesar de nem saber bem onde começa um e acaba o outro e a paz solidificou. E solidificou não porque estou a dormir mas porque finalmente acordei e agora sei que as coisas devem ser fáceis, se não são é porque não o devem ser de todo.

2 comentários:

Isa disse...

:) sua linda, adorei a conclusão, é isso aí e serviu-me tb. god bless u 4 that.

RBM disse...

god bless you for understanding :)