quinta-feira, 13 de setembro de 2012

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No meio da busca da verdade, só vou descobrindo mentiras. Vou descobrindo mentiras de quem dizia odiar mentiras, de quem se deliciava com a ironia de Lear para a Cordelia, com aquela frase da "verdade será o teu dote". Não me surpreende nem me faz grandes impressões muita coisa nesta vida. Houve uma altura em que tinha pavor de mortos, resquícios de uma infância impressionável, mas agora com a sucessão de funerais essa estranheza perdeu-se e é uma coisa desagradável, como outra coisa desagradável, mais que umas e menos que outras. Contudo, esta mentira contínua e continuada, aliada a uma hipocrisia aguçada mexe comigo, revolta-me as entranhas. Ainda agora, que tenho tudo para esquecer. Mentira vinda de quem detesta mentira é um perverso e rebuscado paradoxo. É isto que me faz impressão agora, continuo afinal a recear os cadáveres, mas percebo que a putrefacção está apenas noutro lado.

2 comentários:

noiseformind disse...

O uso da mentira é algo tão comum... tão vulgar... sinceramente, acho que a surpresa com a mentira é coisa de crianças de espírito. Assumo que tudo o que me dizem é mentira, adultos são assim, capazes de mentir nas nossas caras e fazer a coisa jogar bem na nossa cabeça e de acordo com as nossas expectativas. O que me incomoda é aquelas pessoas que usam a sua suposta sinceridade como arma de arremesso e incómodo para com o mundo. Provavelmente pq são maus mentirosos :)))

Mariam disse...

Olha, os cadáveres transformam-se em fantasmas e, um dia, conseguimos trancar aquilo tudo num armário, do qual deitamos fora a chave.