quarta-feira, 12 de setembro de 2012

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Tenho-me mantido calada, não só aqui mas também no meu dia -a-dia, acerca de todo este fuzz acerca das novas medidas de austeridade do Governo. Por várias razões, sendo que a mais importante é que detesto política na teoria quanto mais na prática, porque tendência a andar deprimida dos pirolitos já eu tenho naturalmente, porque olhem, não há grande coisa a fazer e não acredito - chamem-me chata ou pouco filha do 25 de Abril - que as manifestações na José Fontana sirvam para muito além de perder uma tarde de Sábado. A verdade é que também eu estou lixada, também eu estou sempre a consultar o meu extracto bancário ao fim do mês, sustento uma casa sozinha com um salário que não corresponde aos seis anos e meio que perdi em licenciatura e mestrado, mais aos dois e meio de um estágio que tenho obrigatoriamente de fazer para poder exercer a minha profissão. Também eu sinto-me lixada, com muita expectativa frustrada, sinto que merecia muito mais desta vida de contar os trocos e sentir-me feliz com aquilo que tenho, obrigada a adoptar uma moderna atitude franciscana. Mas o meu pragmatismo obriga-me a ceder e a  ajustar-me à realidade que tenho e que apesar de tudo, continuo a escolher. Porque gosto de Portugal e aqui quero ficar. A verdade é que em Portugal de 2012 eu tenho sorte. A verdade é que em Portugal de 2012, embora também fodida, tenho sorte. Isto não é um discurso resignado de portuguesinha palerma que baixa às orelhas, é um discurso de quem se recusa a ficar triste porque acha que devia ter dinheiro para comprar cremes da Guerlain e da Clinique, quando no supermercado há país a escolherem as borrachas para os filhos que são dez cêntimos mais baratas do que as outras, como uma amiga minha assistiu ontem. Ir para a manifestação muito zangados e antes passar pela Zara para comprar o novo casaco militar que chegou é uma treta bacoca. Que todos tenham o direito de achar, como eu própria acho, que tínhamos direito a mais, a mais comodidade, a mais luxo, a mais desafogo, tudo bem, que se revoltem aos níveis altamente estupidificantes por estas razões, como se têm visto por aí, quando há gente que conta moedas para comprar um pacote de leite de marca branca é que revela a maior das misérias que abala este país: a mentalidade de certas das suas pessoas.

22 comentários:

Maria Fonseca disse...

Eu também não acredito que as manifestações tenham grande efeito, para além da catarse. Eu também sou privilegiada, porque o pouco que ganho ainda me vai chegando e até sou capaz de a caminho da manifestação, comprar o tal casaco. Mas reservo-me o direito de exprimir a raiva que me vai corroendo desde sexta feira, não porque estou a perder algum poder de compra ou pequenos luxos, mas porque considero que neste momento estão a roubar a mim e à maioria dos portugueses, apenas para darem corpo a uma ideia teimosa que se lhes meteu na cabeça (quero acreditar que é apenas isto e não a perversidade de se querer engordar ainda mais os já obesos). E não é porque o que roubam faz menos falta a mim do que a a outros, que vou deixar que o façam, de cara alegre. E com isto quero apenas dizer que penso que sejam quais forem os argumentos, nos dias que correm, são igualmente válidos, por muito bacocos que possam parecer.
(Gosto de a ler. Escreve muito bem. e aquilo ali em cima é apenas uma reflexão que o seu post me suscitou. Não o tome como um ataque às suas ideias.)

citacionista disse...

O que interessa que haja pessoas que passem pela Zara antes da manifestação? Até podiam passar pela Prada! Enquanto houver pessoas que vêem o seu ordenado mínimo a ser reduzido, ou pessoas a trabalhar a recibos verdes que têm de descontar quase metade daquilo que ganham, enquanto houver pais a escolher borrachas 10 cêntimos mais baratos, toda a gente devia ir manifestar-se.
Se não for por si que seja pelos outros! Os ricos, os abastados, os remediados, os pobres e os miseráveis têm de juntar as vozes contra medidas sem sentido, que em vez de estimularem a economia promovem a pobreza! Devemos protestar em nome desses pais!



IFB disse...

errr... algum dia tinha que discordar de ti. :) são pontos de vista.

IFB disse...

a política é o que a RBM faz todos os dias. não só no seu emprego, acima de tudo na sua vida. dizer que se detesta política (e, pior, dizer que se detesta porque "não se acredita nas manifestações" como se a política se resumisse a uma prática tão banal como a referida..) e ainda fala da mentalidade bacoca dos portugueses? enfim.

RBM disse...

IFB, releia lá o texto. Eu disse em algum lado que detestava política porque não gostava de manifestações? Se quiser deixar comentário educativos - são bem-vindos, a sério - deixe-os com fundamentação. É a única coisa que peço.

Pink World Fabuloutin disse...

Ehehe... tenho de me rir com a compra do casaco militar da zara... n vou para manifestações que não tenho paciência para essas coisas e já tenho eventos marcados mas se fosse agarrava já a ideia e ia assim fashion fashion... :D

IFB disse...

então expressou-se mal. Se reler o seu texto percebe que as várias razões que a levam a detestar política vêm seguidas dum pequeno "porque não acredito que as manifestações sirvam para mais do que perder etc" - independentemente disto e porque acredito que não quisesse dizer o que, de facto, disse, acho que devia dar uma oportunidade à política. é que não gostar de futebol, ou de apanhar sol, ou de ir ao ginásio é uma coisa. Uma pessoa evita e vive bem sem aquilo. Não gostar de política é um comentário que revela ignorância. Coisa que não me parece ser característica sua através dos seus posts, claro.

RBM disse...

IFB eu nenm vou perder tempo a contrariar a quantidade de coisas com as quais não concordo no seu comentário, a começar pela interpretação do meu texto. Ainda bem que gosta de política, eu tenho o direito de a considerar uma realidade que não me diz nem ai nem ui. Fica a achar-me ignorante por isso? Deixe lá, não faz mal.

IFB disse...

a política não lhe diz ai nem ui? deixe-me rir. sente-se "frustrada", "lixada", consulta constantemente o "extrato bancário ao fim do mês" (sabe que a política o influencia directamente, não é?) mas, ainda assim, política não lhe diz nada? fará se dissesse. Eu não a acho ignorante - aliás, este post não me chocaria se tivesse sido escrito por uma blogger qualquer da moda, nomeadamente pipocas e afins - também não tenho a pretensão de achar que a minha opinião a afecta. É-me indiferente. Eu disse que fez um comentário ignorante, que é totalmente diferente.

IFB disse...

(expliquei-me mal em cima. O que eu queria dizer é que só comentei porque me chocou ter sido escrito pela pessoa em questão. E não pelo tal rol de bloggers que mencionei.)

RBM disse...

E eu acho os seus comentários ignorantes. E ligeiramente facciosos, o que pode ser coincidência admito, mas é uma características que encontro frequentamente em quem se interessa muito por política. Para mim a política pode ter a mesma importância que apanhar sol, uma tem influência na conta bancária, outros em melanomas. Acredite, ainda me preocupo mais com estes.

IFB disse...

já cá faltava o comentário revelador da mais bacoca mentalidade portuguesa existente - a de que os políticos são todos iguais. ou também não foi isso que quis dizer? é engraçado ver como quando se sente "confrontada" perde qualidade no processo argumentativo, é péssimo exercendo algo no campo do direito.

IFB disse...

em relação aos melanomas desejo sinceramente que, a vir a ter algum, Deus queira que não, ainda viva num país com um sistema nacional de saúde tendencialmente gratuito. talvez aí a política lhe diga um olázinho.

RBM disse...

IFB, muito obrigada por deduzir as minhas aptidões profissionais de uma caixa de comentários à meia noite e meia. Gostei muito deste bocadinho.

* disse...

não sou sua leitora e vim aqui muito por acaso. desculpe-me responder-lhe a este comentário sem ter um conhecimento mais alargado sobre aquilo que são as suas convicções e a sua personalidade, mas tenho que concordar com os comentários acima, no geral. acho que pode dizer que se interessa por política ou não, mas dizer que detesta política não faz sentido. se valoriza o seu direito de escolha,como diz, não faz. assim como não me faz sentido, se me permite, não tendo interesse nenhum nela, e não a conhecendo ou percebendo, fazer julgamentos de valor sobre quem, independentemente das condições que tem, se interessa, percebe as suas implicações para além daquilo que lhe diz respeito à situação pessoal, e manifesta o seu desagrado em relação à forma como está a ser conduzida. na realidade acho que o seu post não tem mal nenhum, a não ser uma total falta de reflexão prévia sobre o que vai dizer, e uma inclinação para ver a situação de um prisma muito próprio. é superficial. se tirar tempo para perceber o que de facto se está a passar acredito que se sentirá de uma forma muito diferente. a questão em relação aos melanomas é que as pessoas ainda têm liberdade de escolha em relação a serem responsáveis pelo sol que apanham, mas estão a perder essa liberdade de escolha em relação a coisas muito essenciais como comer ou não comer, viver na rua ou em casa, ter assitência médica ou não. e essa liberdade devia existir, para quem trabalhou uma vida inteira e descontou parte substancial do que ganhou para garantir alguma dignidade no fim da vida. ou para quem estudou tanto ou mais que a RBM mas não tem possibilidade de trabalhar,na área ou não, ou para quem trabalha mas vê grande parte do seu ordenado sair para ser colocado à disposição de empresas milionárias que podem escolher se empregam mais gente ou escolhem um artigo de luxo.
assim: imagine que a sua conta é gerida por alguém, e muito mal. que esse alguém lhe tira direitos adquiridos em relação a ela. o acesso, por exemplo. tomaria alguma medida em relação a isso, não? se pudesse escolher. pois bem, dentro de todas as possibilidades de escolha que nos foram e têm sido recusadas, escolhemos dizer que estamos descontentes com a forma de governação. somos responsáveis por nós e somos responsáveis pelos outros. isto é interessar-se por política. alguma vez votou? gostava de saber com base em quê..

Mariam disse...

Vá, não li nada do que se comentou acima. Sem te conhecer, mas professando da mesma profissão (sem pleonasmo), só te digo que o que escreveste podia ter sido escrito por mim. Só não podia porque eu não escrevo tão bem e, apesar de deprimir com menos facilidade, não tenho a cabeça tão bem arrumada. Parabéns.

SA disse...

exactamente o que eu penso! desculpe a falta de originalidade do comentário, mas até pelo meu próprio facebook, constato que muitos dos que por lá se "esgatanham" contra as medidas são os que andam a comer em restaurantes caros todas as semanas, ou têm maridos lá fora a trabalhar no Dubai a ganhar bem e que acabaram de comprar casa nova há pouco tempo, e ainda bem para eles... mas ao mesmo tempo é esta falta de pudor que a mim me assusta verdadeiramente

SA disse...

não ir a uma manifestação também é um acto político... sinceramente não tenho estômago, cêrebro e afins para me meter numa manif em que de um lado estão realmente as pessoas que vão sofrer e bem na pele os efeitos das medidas e do outro os betinhos que já não vão poder comprar 10 pares de sapatos por mês etc etc... É certo que ninguém gosta que se lhes vá ao bolso e este segundo grupo tem todo o direito de também querer continuar a gozar de certas mordomias e hábitos tudo bem... mas é no minímo de uma grande falta de noção de si, e um acto de grandessíssimo egocentrismo e falta de pudor

Maria Flausina disse...

Quando li tudo isto (post e comentários) ficou uma voz lá no fundo do meu cérebro a querer lembrar-se de uma coisa que eu já li há muito e não me conseguia lembrar de quem era. O Google faz maravilhas e, depois de lhe dar algumas palavras soltas, consegui resgatar na internet o que estava perdido na minha memória:

A INDIFERENÇA
Bertolt Brecht

"Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.
Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.
Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.
Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.
Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde."

Eu também já me encostei no sofá a pensar que não valia a pena e que isso das manifestações não nos levam a lado nenhum. Nunca fui a nenhuma.
Felizmente ainda vou tendo algum poder de compra, que me permitiria passar numa Zara antes de ir à manifestação, mas não é por isso que desta vez vou ficar em casa. E não censuro aqueles que vão porque agora só vão passar a poder comprar cinco pares de sapatos por mês em vez dos dez do costume (como diz o poema, um dia destes alguém virá por esses/nós também, e depois?).
Estamos fartos de dizer que tem de se fazer alguma coisa, mas não fazemos nada e muitos continuamos a dizer que nada disto vale a pena. Então começamos por onde? Utilizando um velho cliché: uma grande caminhada inicia-se com o primeiro passo.
Este cartoon que a Cocó na Fralda publicou resume bem a minha ideia:
http://coconafralda.clix.pt/2012/09/dia-15-saiamos-todos-rua-actualizacoes.html

RBM disse...

Eu não sou indiferente. E não acho que os outros devam ser. E muito menos acho que não se deve fazer nada. O que eu acho, e este post vai nesse sentido, é que são rídiculas estes exemplos de grande revolta e depois vai-se a ver e se calhar a única contribuição que se faz para mudar esta porcaria de situação é ir à manifestação. Depois no dia a dia, a solidariedade e a preocupação com aqueles que estão próximos é nula. É fácil reinvidicar pelo direito do trabalhador que ganha o salário mínimo quando esse trabalhador é um ser assim abstracto mas depois se calhar já não lhes apetece pagar mais do que isso à empregada lá de casa. Este post não é sobre o direito ou não de revolta, é sobre meios, é sobre consciência e acima de tudo sobre a hipocrisia que parecemos ter constantemente nestas alturas, de abraçar as grandes causas, e depois no fim, nunca fazer nada do que partilhar graçolas do passos coelho no facebook.

SA disse...

mais uma vez sublinho as palavras da autora do blogue... não vamos ser hipócritas: a solidariedade é bonita, sim senhora, mas muitos dos que lá vão estar na manif, os betos e derivados, não vão deixar de olhar de cima para baixo para os outros, como sempre fizeram em nome das palavras bonitas, como essa da solidariedade. É a natureza humana é verdade. Posso ser radical, mas detesto a figura do pecador que ao domingo vai comungar à igreja

Limited Edition disse...

concordo com o que escreveu e acima de tudo, revejo-me nas críticas que faz e percebo onde quer chegar. gostei muito do blog, hei-de cá voltar mais vezes :)