segunda-feira, 30 de julho de 2012

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Ao ínicio da tarde afastei os olhos do livro que me repescou para os clássicos. Há muitos anos - não assim tantos, mas pelo menos dois - tentei ler James Joyce mas aborreci-me. Era um período díficil aquele, não convidava a densidade intelectual e a coisas que obrigassem a pensar com crueza no bicho humano. Desta vez peguei noutro título, agora o "Retrato do Artista quando Jovem" e vi-me absolutamente presa naquilo. Os tempos também são difíceis mas há uma predisposição para este tipo de leitura. O estilo e a substância são irreprensíveis. A isto acresce o facto da personagem principal ter uma inteligência que descamba para o snobismo, um carácter reservado acentuado por crises cismáticas e lutas interiores que em muito me fizeram lembrar a personalidade do meu  namorado e daí desenvolveu-se uma dolorosa mas comovente e empática ligação entre mim e a ficção. Ao ínicio da tarde estava então a ler as últimas páginas do livro, quando a atenção é captada para a beira-mar. Tinha-se reunido um grande grupo, umas trinta pessoas talvez quando um sujeito de calções de banho típicos às florzinhas tropicais e camisa azul, entrou dentro de água e com esta pelos joelhos iniciou uma série de baptismos, como se estivessemos perante João Baptista e o Rio Jordão. Os quase baptizados entravam na água,  todos de meia-idade, vestidos invariavelmente de branco e contrastando com a indumentária absurda do pastor/sacerdote/whatever que as empurrava por fim, uma a uma, num mergulho sacramental de costas. Observei aquilo por detrás do livro, sem querer dar nas vistas, mas podia ter dado que era indiferente. À volta do ritual, atravessando-se à frente do ritual, andavam os normais veraneantes de tanga enfiada no rabo e gordura abdominal pendente do elástico do fato de banho. Até reparar num miúdo embrulhado na sua toalha a olhar perplexo para aquilo, achei que estava a ter uma alucinação, que estava perante alguma metáfora kistch de purificação ou algo do género que pretendia levar-me de volta para o bom caminho. Afinal não, era só mesmo uma cerimónia qualquer, de uma igreja ou seita qualquer, conduzida por um senhor rechonchudo de calções com flores havainas e ninguém pareceu achar aquilo bizarro, além de mim e da criança. Também no outro dia, um amigo meu disse que estava a janela de casa a fumar um cigarro quando começou a ouvir "saia maldito!", "largue este corpo, demónio" e de seguida um urro "aharrrggggghhhh" que ele presumiu vir do tal diabo. Meio chocado, descobriu então que a cave de um prédio vizinho foi arrendada a uma igreja ou seita que se dedica a exorcismos, a determinado dia da semana. Enquanto vinha para casa conjuguei as duas histórias que me ficaram na cabeça. A crise faz com que determinadas pessoas não vão para fora nas férias e que se retraíam nos saldos, a crise faz com que outras determinadas pessoas procurem ajuda nos falsos ídolos e nas falsas promessas. Ou que acentuem essa necessidade, pelo menos. Quer-se desesperadamente acreditar em algo, numa ideia distorcida que a fé é a solução instântanea de todos os males em vez de uma força auxiliar. E assim entregam-se aos exorcismos em caves manhosas nos subúrbios  e a baptismos ali ao pé do casal que joga raquetes, todo o engano e artíficio são preferíveis à realidade que não querem enfrentar sozinhas. Desolador mas infelizmente, tão compreensível.

1 comentário:

Anónimo disse...

Post muito interessante. Gostei.