domingo, 24 de junho de 2012

Telhados de vidro

Durante tempos a fio - não sei precisar - tive aquela postura desdenhosa sempre que abria aqueles blogues tipicamente femininos de fundo cor-de-rosa e deparava-me com fotos, muitas fotos desinteressadas de cremes da clinique e coisas  semelhantes. Não conseguia deixar de lá ir, ainda não hoje consigo verdade seja dita, mas sempre que me deparava com um post do género cerrava todo o meu semblante numa máscara de reprovação, sobrancelhas e lábios contraídos ao máximo, enquanto pensava "estas tipas...futéis de um raio, porque raio venho ainda aqui, que me interessa saber que tipo de creme mete ela nas assaduras etc e tal" mas hoje...hoje é o dia de dizer que não sou diferente:

"Olá, eu sou a R. e estou viciada em cremes".

Não sei quando é que isto começou. Lembro-me de ser pequena e sempre que a minha mãe se aproximava com o protector solar com intenções de me passar uma camada tão espessa que nem várias idas à água eliminaria, eu gritar desalmadamente numa de mostrar ao mundo como tinha-me calhado na rifa uns pais  tarados que queriam proteger-me de melanomas. Outros episódios traumáticos com creme sucederam-se quando tive uma varicela hardcore. Era um gel untuoso para dar banho, era um óleo mal-cheiroso para me refrescar e aliviar das comichões, era um creme compacto como cimento para me cobrir a borbulhagem toda, desde os pés à cara.

Comecei  a ver os cremes de maneira diferente quando ao entrar na puberdade comecei a ter acne. Nada de grave, mas deus me livre, o fim-do-mundo que aquilo representou na altura. Ir à escola com uma borbulha no queixo? Motivo de depressão para um mês no minímo. E assim começou, do creme para as borbulhas, passou-se para um  quando a pele estivesse mais seca, depois para um hidratante diário, depois para um diário para a cara e outro para o corpo, depois outro mais forte para quando a pele estivesse mais seca, depois um para as mãos, outro para os pés, um gel para lavar a cara de manhã e outro para lavar à noite, um creme de noite, um creme de celulite, um contorno de olhos, exfoliante suave e outro agressivo, uma colecção de máscaras com finalidades diversas. Vem a altura da praia e acrescentam-se mais um reafirmante, mais um protector, mais um bronzeador, mais um after sun. Depois ainda há outra pequena coisa por resolver com produtos para o cabelo, mais uma panóplia sem fim de tudo e mais alguma coisa, que aí sim sou verdadeiramente doente e compro tudo que me impinjam mediante a promessa de uma crina luzidia.

Hoje arrumava tudo numa caixinha, de forma a já tê-los todos organizados para a mudança e mesmo assim  à mão até lá e a minha mãe ao ver aquilo aguentou-se uns minutos até dizer "percebes agora porque não és rica?". "Ao menos tenho bom aspecto e estou a envelhecer bem!", respondi num tom histérico mal disfarçado.

A única verdade que residiu no breve diálogo é aquela que mencionou o estado da minha conta bancária.

2 comentários:

Anónimo disse...

Engraçadíssimo este post!!! Nós, mulheres, e os cremes!!

Anónimo disse...

Engraçadíssimo este post!!! Nós, mulheres, e os cremes!!