sábado, 16 de junho de 2012

Ode aos sábados em casa

«As pessoas achavam que ela estava deprimida por passar os serões dos fins – de - semana em casa, invariavelmente a ver um pouco de má televisão ou a ler boa literatura. Era indiferente, a qualidade da actividade, qualquer uma delas não a impedia de adormecer ao fim de pouquíssimo tempo. Ela achava que os outros é que estavam deprimidos, só isso justificaria as horas consecutivas passadas em ambientes fechados, pesados pelas hormonas de demasiada gente concentrada no mesmo espaço e pelas manobras habilidosas de contornar a lei do tabaco. Na última vez que se tinha convencido a sair, acabou a noite num sítio alternativo da noite de Lisboa, um refugo no Cais do Sodré onde no meio do tudo ao molho e fé em deus, novos e velhos, betinhos e hipsters e metaleiros e normais assistiu a uma velha engatar do nada um gordo careca. Aproximou-se dele a dançar, com um vestido justo e rendado que deixava ver a combinação vermelha e ao fim de uns minutos roçavam-se um no outro, ele de cigarro na mão a ser deixado por fumar e ela com o vodka limão a ser deixado de beber. Ela – a primeira ela deste texto e não a velha – observou tudo encostada a um canto com vista privilegiada, enjoada com o seu próprio vodka limão que lhe dava um elemento em comum com aquela mulher e por reconhecer aquelas práticas de engate, tão comuns no Paradise Garage quando tinha quinze anos. Imaginou-os ainda, infelizmente, a acabarem a noite na casa de um deles, desesperados e entregues a uma sessão de sexo mau. Isso sim, deprimia-a. A noite consegue ser libertadora e o ácool e o MD e as pessoas certas podem ser impulsionadoras de mini gritos de Ipiranga mas também há o risco de ser a miúda que chora sentada no passeio sem qualquer palavra que a console ou daqui a uns anos a velha a engatar na discoteca decadente. De ser alguma coisa igualmente má, algures lá no meio.»

1 comentário:

Mary disse...

Antes passar uma noite sábado em casa do passar uma noite de sábado cuja perspectiva é um engate foleiro e vazio.