sexta-feira, 8 de junho de 2012

A educação à antiga portuguesa

Num transporte público, já perto das oito da noite, uma mãe mais jovem do que eu tentava impingir um resto de uma carcaça a um puto com os seus sete/oito anos. A criança resmungava entredentes, contrariada por não querer comer o pão que a mãe quase que lhe enfiava à força pela garganta abaixo e visivelmente comprometida quando ela lhe começou a perguntar insistentemente "que porcaria é que  tinha comido na escola para não ter fome". As perguntas passaram a ameaças  -  as palavras foram acompanhadas da devida linguagem gestual,   mão levantada e olhar fulminante - de umas valentes tapas bem dadas na boca se ele não contasse a verdade. Perante isso, o miúdo lá cedeu e confessou um lanchinho de batatas fritas de pacote com um colega. A mãe respondeu "olha, agora vais apanhar por não teres contado logo". Desviei o olhar e ouvi somente o som seco de um quantas palmadas energéticas e ritmadas num compasso certo, seguidas de um prevísivel choro de susto. É a típica lição do preso por ter cão, preso por não ter cão ou uma bela forma de criar um qualquer mecanismo defensivo no puto que o ensine que é melhor ficar calado do que dizer a verdade, que em qualquer circunstância mais vale o silêncio da consciência pesada do que acatar consequências dos seus pecadilhos e faltas. E assim cria-se mais um mentiroso ou cobarde.

5 comentários:

Anónimo disse...

Interessante este post. Educar é difícil, mas há pessoas que não têm mesmo jeito nenhum e, depois, admiramo-nos de alguns dos jovens que temos...

Anaa disse...

vejo muitas mulheres querer desesperadamente ser mães e depois fazerem brincadeiras destas. Não percebo porque é que comer batatas fritas é um erro tão grande que valha ao rapaz uma dose de porrada, nem esta linguagem da violência constante. Também me questiono se a senhora percebeu a figura de mulher das cavernas que fez perante as outras pessoas. Ninguém tem o direito de dizer a uma mulher como é que deve educar os seus filhos, mas para isso acontecer parte-se do princípio que a dita mulher tem bom-senso, o que nem sempre acontece.

Mariam disse...

Cria-se mais um sociopata, no limite. Mais um pai que não sabe falar sem bater.

Para além do pormenor de ser proibido comer nos transportes, mas já é quase um costume, aceite e tolerado.

a mulher certa disse...

Sinceramente... coitado do puto.

Cookie Monster disse...

E, no fundo, é verdade, o ditado encaixa que nem "uma luva". Será, naturalmente, impossível este miúdo sentir-se à vontade com a mãe para falar e dialogar com ela. E é triste.