quarta-feira, 30 de maio de 2012

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A pior das tristezas é esta que sinto hoje. Vaga, de contornos indefinidos, discreta ao ponto de passar por cansaço até a uma certa altura em que se torna obscena e flagrante. Sem motivos também, ou melhor, sem motivos objectivos que me levem a sentir triste hoje e agora neste momento em particular. Esta é a pior das tristezas porque não resulta assim do dia que correu mal no emprego, de uma discussão, do síndrome pré-menstrual ou de um dia mau de cabelo, é antes um reflexo de um mal instalado, acomodado dentro da minha emocionalidade e dos meus nervos como um antigo hóspede que faz estragos na nossa casa e que contudo não temos meios para despejar . A noção de que não tenho motivos para me sentir desta forma porque tenho tido, em geral, alguma sorte com e na vida faz-me ainda sentir pior, quase que tenho inveja dos loucos que não têm a percepção das coisas e logo podem disparar o que querem porque as pessoas olham para eles e dizem umas para as outras "coitadinho, então é tontinho" em vez de partilharem sermões new age em entoações condescendentes. Para evitar isso, as condescendências, as lições de moral e - vade retro - os conselhos não requisitados não digo a muita gente que me sinto assim e este aspecto também não me faz sentir muito melhor. À tristeza acaba-se por juntar um certo sentimento de ingratidão e falsidade, há uma maléfica pescadinha de rabo na boca e sinto-me um pouco impotente para quebrar estes ciclos. Não tenho motivação, nem tempo, na verdade nem sei como o poderia fazer. Fica o desabafo da onze da noite, mais vale isto do que ir beber uma garrafa de vodka sozinha. Ou então...

6 comentários:

Anónimo disse...

Se escrevesse tão bem como tu poderia ter escrito exactamente o mesmo..

Em vez da garrafa de vodka venho ver bogs, um por um, mesmo os que não têm novidades. Porque nesta tristeza, neste cansaço, às vezes não há sequer energia para ir dormir. Ou para acordar.

Obrigada por estares aqui.

Piston Cabeça disse...

Os loucos não o são do nada, por mero acaso.

Anónimo disse...

Sim, há momentos assim. E há realmente essa tristeza, mesmo nas vidas mais afortunadas. Já tive momentos de pegar imediatamente no telefone e falar, falar sobre ela, mas, agora, opto por me manter só e em silêncio, mesmo quando partilho as horas com outras pessoas.

Anita Garcia disse...

Só neste bocadinho, já somos três... É uma característica da vida actual, ou então da falta dela :(
Espero que vás melhorando. Há que fazer por isso, porque só depende de nós, por difícil que possa parecer.

Paula disse...

Esse sentimento é horrível. Eu andei nesse estado permanente durante cerca de dois anos. Passou. De vez em quando volta em menor força. Mas assustei-me, porque achei que nunca passaria esta sensação de que nada vale a pena, uma tristeza indefinida e sem razão aparente (lá está, nada na minha vida me dá razões para isso). Também não falei nisso porque achei que ninguém me iria compreender exactamente por não ter razões para esta sensação.

Kitty * disse...

"Malegría es esa dulce y a la vez amarga emoción que se tiene cuando la alegría y la melancolía se funden en una sola sensación, cuando todo parece ir bien, pero no cómo más nos gustaría. Es lo que sientes cuando la mujer a la que amas no está a tu lado, pero sabes que es feliz, o cuando un ser querido muere, pero no volverá a sufrir. Para nosotros no todo está bien, pero por mucho que queramos, no podría ir mejor. Ante eso, lo mejor es hacerse a la idea, resignarse."
Manu Chao

http://www.youtube.com/watch?v=f1lhho7XnCU