terça-feira, 3 de abril de 2012

...

Sim, sou perigosa. E se não fosses tu a partir-me o coração, eu podia partir o teu em três tempos, com a minha brutalidade, com a minha depressão, com aquele orgulho filho da mãe ou intolerância de última ponta. Sou doente mental, eu sei,  gosto que me trates como uma diva mesmo que me apeteça tratar-te como merda e não gosto de ser tratada como merda quando te trato como um deus. Mas mesmo assim sujeito-me. Sou meio-malcriada mas sou bonita. E sei lá explicar o que é elasticidade em economia  mas, em contrapartida, percebo imenso de gatos. Tenho um excelente sentido de humor, desde que me apanhes de bom humor. E sou preguiçosa mas subia aqueles quatro sinuosos andares para te cair directa nos braços. Não via o Benfica contigo mas só porque consegui convencer-te de que eu era melhor do que o Benfica e acabavas por contentar-te a espreitar o resultado nas televisões dos sítios por onde íamos passando. Não sou a mulher mais fácil do mundo mas sou a única que te levou a sair de casa na noite de Natal para ir em meu auxílio e de uma gata com uma infecção urinária, reféns num automóvel sem bateria. Não te esqueças como sou tão única, que meti-te a paranóia que a tua casa tinha espíritos devido aos sons estranhos que ouvíamos durante a noite e que te obrigavam a levantar à procura da janela ou porta mal fechada para que eu finalmente me calasse com os seres do além. E de como quase pegava fogo à cozinha sempre que abria o bico grande do fogão. Sim, também eu tinha medo disto tudo, de ser perigosa e doente mental, de subir aqueles quatro andares até ao fim da minha vida, dos jogos de futebol que ficariam por ver, das almas penadas que viviam no sotão com as quais teria inevitavelmente de lidar, que a minha gata exigisse sempre intervenções médicas no dia 24 de Dezembro às onze e meia da noite, de eventualmente um dia explodir com a casa toda a brincar com o gás. É claro que também tinha medo disso tudo.

6 comentários:

Timido disse...

As mulheres costumam ter esses efeitos sobre os homens...
Mas é isso que as torna únicas e insubstituíveis... São esses pormenores, essas pequenas azelhices, percalços, azares que nos fazem sentir heróis... Sabe tão bem ir ajudar uma mulher em dificuldades... Pode ser só para empurrar o carro, coisa que qualquer pessoa pode fazer, mas foi para n´so que ela ligou...

Johnny Guitar disse...

«Some people never go cray. What truly horrible lives thay must live».

RBM disse...

heheh bukowski.

PA disse...

simplesmente lindo

Tatiana Pereira disse...

Se gostas e te sentes bem com o facto de seres quem és não é patológico. No entanto, se às vezes te detestas arrisco um diagnóstico: borderline. A Marilyn também era.

Jade disse...

Cheguei aqui pela publicidade que te fez a Kitty Fane, e só quero dizer-te que este foi o texto mais extraordinário que li nos últimos tempos. Muitíssimo eficaz, de simples, de curto, de tocante, de inteligente, de profundamente sentido. Brilhante. Parabéns.