segunda-feira, 2 de abril de 2012

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Há um livrinho bastante pequeno, que li pela primeira vez há uns anos atrás, e que comprei há pouco depois de me ter cruzado com ele numa livraria e ter tido uma estúpida sensação de déja vù. Ao folheá-lo não soube dizer se já o tinha ou não lido, se aquele sentimento de familiaridade era na verdade só resultante de alguém me ter falado dele em tempos, por exemplo. Comprei-o então, li-o em horas e às primeiras páginas não só soube que já o tinha lido, como recordei exactamente as circunstâncias dessa leitura. E também sei porque me "esqueci" dele. Porque " A Morte de Ivan Ilitich" não é um livro conveniente, não é a obra mais dura acerca da morte, é a obra mais dura acerca da vida. A morte tem honras de título mas a protagonista é uma vida que só foi aparentemente vivida. E quando lemos Ivan Ilitich a morrer, a receber a família e os amigos, a aperceber-se da superficialidade daqueles laços, o vazio do estatuto que ali não lhe serve de nada, receamos que o fim de Ivan Ilitich seja o fim de cada um de nós. Mais: receamos que o fim de Ivan Ilitich quando recebe os seus colegas juízes no quarto onde se encontra e faz «cara séria, severa e compenetrada» quando na verdade só queria chorar e que o acarinhassem, não seja o nosso futuro mas já o nosso presente. Assim, faço a correcção que "A Morte de Ivan Ilitich" não é a obra mais dura sobre a morte nem a obra mais dura sobre a vida: é a obra mais dura sobre a mentira.

4 comentários:

Sofia disse...

Procurei-o no Goodreads, sem sucesso. Depois percebi que tinhas escrito mal 'Ilitch'. Já o marquei, na wishlist.

RBM disse...

e fizeste tu muito bem ;)

Maria disse...

Foi o único que li do Tolstoi, infelizmente ainda não li mais nenhum. Esse livro marcou-me de certa maneira, é sem dúvida uma obra dura que nos leva a reflectir sobre a montanha russa que é a vida.

Lilith disse...

Não li (ainda). Fiquei curiosa... Vou procurar!! :)