domingo, 11 de março de 2012

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Percebo que com a idade cada vez menos fico surpreendida com algo, tudo devido à experiência própria e alheia. Se poucas coisas são aquelas que ainda me surpreendem, muito menos são as que me chocam, pelas mesmas razões. A reiteração torna-as apenas banalidades infelizes e a dor é apaziguada pela vulgaridade porque se aprende que nada do que é vulgar merece o nosso tempo, atenção, estado de espírito. A idade assim, ensinou-me a fintar a surpresa e o choque - o que não é mau, penso - já é representativo de uma martelada nos cornos bem menor do que as anteriores. Porém, não sei o que fazer ainda com a minha capacidade de desilusão. Desiludir para quem se ilude com extrema dificuldade, tem sobre o estado emocional da pessoa algo semelhante aos efeitos do terramoto de 1755 sobre a cidade de Lisboa. Continuo a ser uma miúda ingénua frequentemente acusada do oposto, de ser o lobo das relações, uma velhaca dissimulada num ar inofensivo do qual usa e abusa. No fim, fica sempre a fama sem o proveito, fico eu a bebericar tisanas relaxantes com um calmante dissolvido lá no meio, a chamar de novo o Marquês de Pombal que há dentro de mim para reconstruir isto tudo outra vez, consciente que um dia, todas as novas benfeitorias serão pequenas e fragéis de mais para aquilo que a minha ilusão ousar  criar numa outra nuvem.

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