terça-feira, 20 de março de 2012

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Advogado que é advogado sabe bem o que é ter de lidar com devedores. É uma merda, inevitavelmente, o papel de cobrador de fraque, mas é uma merda especialmente acentuada nesta altura. Há dias reuni com um sujeito que deve uma pequena fortuna, na casa dos trintas, com aquela pinta de bon vivant bonitão. Com uma execução suspensa por celebração de um acordo de pagamento que também não cumpre. "Então como é, meu amigo?" perguntei-lhe eu, usando linguagem apropriada. "Ah, tempos dificeis estes, também eu tenho quem me deva, é assim que é a vida é hoje em dia, infelizmente, em vez de gerir o dinheiro que temos gerimos a dívida, como dizia o outro...". E eu ouvia-o e via-o, a interromper a conversa para mexer no Blackberry, os botões de punho e toda uma outra série de detalhes mais ou menos evidentes e chegou a minha vez de o interromper para o informar que ia prosseguir com a execução. Ele ainda esboçou um sorriso, ao informar-me que a sociedade já não tinha bens em nome próprio - mas perdeu-o logo quando comuniquei que ia requerer que ela prosseguisse junto dos sócios. A ideia de perder o seu carro e o seu Blackberry foram suficientes para passados dois dias fazer uma transferência no valor das prestações do acordo já vencidas. E depois há a Dona E., que conheci hoje e que há oito meses deixou de conseguir pagar a renda do restaurante que explora. Primeiro, pagava o que podia, o que nos últimos tempos traduz-se em nada. A Dona E. que diz que toda a vida trabalhou, que nunca se imaginou numa situação como a que vive agora, que treme ao falar comigo, que não para de falar para tentar explicar o que escapa ao seu entendimento e que me leva a pensar que só tem vergonha quem não tem razões para a ter.

2 comentários:

VerdezOlhos disse...

Não podia concordar mais.

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VerdezOlhos disse...

Esta vida é lixada