domingo, 19 de fevereiro de 2012

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Não é uma experiência inédita minha - aquela tida na infância de repetir, com variações de velocidade e entoação, a mesma palavra. Ao fim de um tempo, "passarinho" deixava de ser "passarinho", era apenas uma conjugação de sons, que embora me parecessem familiares, estavam já destituídas de qualquer sentido ou valor para o mundo da comunicação. Esta brincadeira é útil, porque ao fim de um tempo é inevitável o confronto com a fragilidade da nossa maior ferramenta como seres humanos. Consecutivamente, aprende-se a respeitar o peso das palavras e a guardá-la para as ocasiões certas, coisa extremamente importante num mundo onde as pessoas tendem a abusar de tudo que podem fazer sem gastar dinheiro, universo de actividades no qual se inclui o falar. A falta desta experiência de auto-descoberta explica que exista tanta gente, que por tudo e por nada, diga coisas como "adoro-te" e contudo, já não sinta à ponta de um corno, nem sequer empatia por quem os ouve e acredita que aquela exteriorização linguística tem o valor tido como normal.

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