terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

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No meio da superioridade excentricidade que achamos ter na forma como sentimos as coisas, em comparação com a maioria das pessoas, esquecemo-nos de algo que para mim é actualmente claro como água ou como o céu de hoje. Também nós, como todos que conheço - arrisco-me a tirar os "que conheço" - somos impedidos de nos apaixonarmos pela realidade porque continuamos apaixonados por memórias. Enterrar uma memória é muito mais díficil do que enterrar um cadáver, que apodrece e desaparece, enquanto uma memória, com a passagem do tempo só fica mais bonita e perfeita, numa bolha revisionista inconsciente. Faz confusão, claro que faz, olhar para aquela pessoa tão querida e reconhecer o mesmo corpo, as covinhas que surgem com o sorriso, toda uma panóplia de trejeitos típicos que vão desde a forma como se pega no cigarro, ao tique de enrolar os cabelos entre os dedos e o traçar da perna e, contudo, admitir, aceitar, que só aquela exteriorização é que é igual. A pessoa já não é a mesma e entretanto não se enterrou nem o corpo, nem a memória e continuamos presos a nada mais do que uma ficção. Isto tudo porquê? Porque passou tempo, passaram pessoas, passou a vida e eu sinto-me estranha contigo porque ambos esperamos coisas um do outro que se calhar já não existem. Mas isso não é impeditivo de dizer que ainda te amo - porque o amor é mais do que arrebates momentâneos que se traduzem em satisfação e sorriso parolo imediatamente estampado na cara.  Amar também é isto, de ter inquietações e alguns hiatos que originam (esperemos) momentos de renovação. Com calma e muita instrospecção, evitavam-se muitos divórcios, bem sabes que eu acho. Se calhar um dia, também para nós, tudo será calmo e seremos daqueles casais que combinam as cores das roupas ao fim-de-semana, ou se calhar não, não seremos um casal. Quero lá saber,  ainda não me faz falta a estabilidade, gosto desta roleta russa que é gostar de ti. Se um dia levar fatalmente com a bala, paciência, valeu a pena.

3 comentários:

Sofia disse...

Magnífico.

RBM disse...

Magnífico parece um adjectivo exagerado, mas obrigada :)

Sofia disse...

Cada um vive com o ego que tem, eu acho mesmo que escreves magnificamente.