terça-feira, 10 de janeiro de 2012

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Hoje de manhã tive de ir aquele sítio maravilhoso que espero que vocês não conheçam e que se dá pelo nome "Campus de Justiça". Se à primeira vista somos iludidos pelo aspecto moderno dos edíficios, pelas enormes escadarias que os separa, ladeadas de um manto florido bem tratado, depressa a quimera se desvanece. Mal falamos com o primeiro de muitos funcionários que se seguirão, sentimo-nos plenamente remetidos para uma atmosfera kafkiana. No atendimento, há de tudo: despachados e solícitos, enconados que encarquilharam nas secções do tribunais e que acham que ao atender-me estão a fazer um favor, esquecendo-se que na verdade só estão a fazer o trabalho deles. Depois daquelas primeiras horas da manhã (as mais produtivas, ainda por cima) totalmente desperdiçadas, venho para o trabalho. Enquanto caminhava em direcção ao metro vejo a parar numa paragem ali próxima um autocarro exactamente com o mesmo destino que eu - e como  gosto muito de andar mas na passadeira do ginásio- apanhei-o sem hesitação. Seguiu-se algo memorável: uma viagem de quarenta e tal minutos pelos subúrbios feios (desculpem lá o eufemismo) de Lisboa. O motorista bufava em manobras complicadas para conseguir fazer outra curva extremamente apertada. Os prédios pequenos, encavalitados a justificarem a invenção das cortinas, de fachadas pintadas de cores que há trinta anos atrás eram vivas e agora são apenas humidade e bolor e estuque à mostra. As pessoas na rua - são aquelas que fingimos não existir em Lisboa - mal-vestidas, desdentadas, velhas. Lado a lado, vejo o "Talho Rui" e o "Cabelereiro Unisexo Faty", o primeiro prometendo em cartolinas escritas a feltro o melhor preço para miudezas, o segundo cortes de cabelo adequados com a moda dos anos 80, deduzo eu pelos posters debotados pelo sol expostos nas montras. Fala-se no interior, fala-se na margem sul e a umas estações de metro o cenário de quem pode dizer que é tão lisboeta como eu e como quem costuma fazer essas observações, é outro. Quando chego ao Chiado volto à realidade de quem combina as botas com o cinto, dos cortes de cabelo no Bairro Alto e não na "Faty". É outro mundo, outra cidade.

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