terça-feira, 13 de dezembro de 2011

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A má-educação tem sobre mim um efeito contagioso. Nem sempre foi assim, há uns bons anos atrás eu era o típico bicho do mato que aturava tudo e mais alguma coisa em nome do saber estar. A verdade é que chegou a uma altura em que as frustrações acumuladas com mil coisas que não podia controlar extravasaram-se para o contacto com aquelas pessoas com que nos cruzamos e que por uma razão ou outra nos irritam. É a velha que tenta passar à frente na fila do supermercado, só porque tem duas coisinhas para pagar e eu tenho um cesto e sendo assim acha que é desnecessário ao menos perguntar se me importava -  porque sei lá, podia ter que ir tirar o meu pai da forca, por exemplo. São aqueles homens que passam e dizem coisas indecorosas, que "faziam isto e aquilo" e que todas as noites devem reflectir porque é aquela dica não resultou com nenhuma mulher a quem não tenham também oferecido dinheiro. É a colega irritante que tem sempre de ter uma opinião e que essa opinião tem de ser sempre a certa,  nem que para isso tenha que inventar uma história que contrarie todas a leis da física. Para não ficar com problemas de consciência penso sempre que estas descidas do salto alto não são reais expressões de falta de educação mas a concretização de um ideal de justiça retributiva. Mas a realidade, aqui me confesso porque adivinho a vossa capacidade para guardar segredos, é que fico com remorsos. Fico a pensar que devia respirar fundo e esforçar-me para atingir um estatuto de ser humano elevado, porque bem sei que aqueles montes de conflito andantes são uma corja a precisar de uma válvula de escape porque também não conseguem lidar com as suas próprias contrariedades. Sendo assim, custa-me mesmo entender as pessoas a quem falta a educação de forma gratuita, a quem é possível detectar até alguma maldade consciente na forma como interagem com os outros. Hoje tive um exemplo disso mesmo - numa Zara de uma grande superfície comercial. Estavam duas caixas abertas sendo que a fila era única e estava formada em frente de uma delas. Aparece uma mulher, daquele estilo "tia falsa",  com a cara besuntada de base numa tentativa falhada de tentar ficar finalmente com uma dívida perante a beleza e vai directa para a caixa que não tem ninguém. A funcionária explica-lhe o óbvio - que todos nós que estamos ali em carreirinha não somos otários, que a fila é única. A cliente grita irrealidades que puseram a miúda da caixa completamente encarnada enquanto contrariada mete-se atrás de mim, que era a última pessoa. Por destino, quando chegou a vez dela, acabou mesmo para ir para a caixa a que se tinha dirigido primeiro e quando lá chegou diz com um ar triunfante "Vê, não me queria atender mas não teve sorte. É assim a vida...justa. Tem de levar comigo. É tudo para devolver!" e atirou com o saco para cima do balcão, num safanão desdenhoso que fez as peças saltarem todas lá de dentro para cima da rapariga e para o chão. Não, a vida não é justa, pensei. Seria se ela ao sair dali partisse o pescoço ao pôr mal o pé numa escada rolante e poupasse o mundo de futuros acessos histérico-estúpidos.

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