terça-feira, 29 de novembro de 2011

Elogio da Loucura

Hoje ao início da noite estava sentada num banco no Rossio à espera do transporte para casa quando reparei numa senhora de meia idade em quem não era preciso muito para reparar. Não sei se seria sem-abrigo, não tinha aquele ar de surro mais do que entranhado nas feições e nas mãos e acima de tudo não tinha aquele ar necessariamente desgastado provocado pelos acessos impiedosos do frio, do sol, da chuva, da humidade, da poluição central. Vinha também vestida normalmente, eram quase nove da noite e estava frio, estava composta para a temperatura, de collants de lã, sobretudo e chapéu de feltro, embora este antiquado. Num braço trazia um ramo enorme de flores amarelas cujo nome desconheço e na outra mão, uma garrafa de água - reparem água e não vinho- na qual bebericava energeticamente de tempos a tempos. Cantava altíssimo e quando passava demasiado perto de alguém curvava-se numa vénia com o seu quê de cerimonioso mas nada de serventil, enquanto se desmanchava em sorrisos. Naqueles minutos em que esteve no meu campo de visão - depois veio o autocarro- achei que ela tinha sorrido mais vezes para estranhos do que eu nos últimos meses para conhecidos. "Coitada, deve ser maluquinha", calculei. Depois pensei  "Coitada? Ao menos parece feliz.". Concluí que a única coitada deste episódio era eu - não no sentido de auto-comiseração da coisa - mas sim por ter-me permitido chegar a um grau de cinismo onde a mais prosaica expressão de alegria se traduz automaticamente numa qualquer forma de inimputabilidade.

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