segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Como detectar que está deprimida - II

No fim-de-semana, depois de mais uma aparente encruzilhada, vai para a cama às nove e meia da noite. Um gato ao lado, com a traseira a emanar calorzinho animal directamente para o ombro esquerdo, outro gato em cima dos pés, a arrumar com a concorrência de qualquer saco de água quente por mais ambicioso que este fosse. A roupa é chique como a ocasião exige: blusão de fato de treino com capuz e calças de pijama com Hello Kitties caracterizadas de fadas, de asinhas cor-de-rosa e tiaras entre as orelhas, com varinhas empunhadas com uma estrela na ponta a emanar faíscas brilhantes para dar aquela ilusão de magia. Ao menos as duas peças de roupas conjugam nas cores pelo que se afasta - ainda que ligeiramente- da decadência que seria descarada se vestisse amarelo com roxo. Tem uma caneca com um chá de frutos vermelhos, antioxidante pois claro, a fumegar nas mãos, de seguida acende as luzinhas de presença para criar um ambiente cousy e a acção culmina com  o início do visionamento do DVD do Casablanca. Percebe que alguma coisa não está a correr bem quando repara na péssima postura do supostamente cativante Rick e imagina o pivete que devia ser aquele hálito com todo aquele tabaco e whisky. A lindíssima Ilsa parece-lhe agora um cavalona nariguda com um excelente guarda-roupa.  Na cena final, quando ele lhe diz a mítica "we'll always have Paris" e vê depois o avião partir, levando a mulher da vida dele com outro homem para a amada Lisboa, sente-se nada. Não há uma borboleta no estômago, um apertão no esôfago, uma actividade no canal lacrimal a denunciar emoção, humanidade. Pensa-se "se calhar é porque já vi isto demasiadas vezes". Conclui-se  que afinal"as histórias de amor com finais mais tristes não são as que aparecem nos filmes".

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