domingo, 6 de novembro de 2011

(Mea) Culpa

Céline tem uma frase conhecida cujos contornos não me recordava bem - logo tive de recorrer ao Google, desculpem lá não sou como toda a gente que faz actualizações de status no Facebook com citações profundas, que estão ali na pausa para o café e de repente lembram-se com detalhes de pontuação de uma frase do Chesterton - que diz assim "i think that all great innovations are built on rejection". Vamos ignorar ter encontrado isto em inglês e não na língua original, caraças para os formalismos linguísticos. A rejeição, tal como a guerra, é uma força motora de evolução, acho. Já diz o ditado que a seguir à tempestade vem a bonança e o povo não se engana excepto em alturas de eleições, também acho. A destruição, seja ela causada por lançamento de bombas que transformam uma cidade em ruínas poeirentas ou pela recusa individualizada que traduz uma rejeição, raramente se acomoda; após um período inicial de pânico, em que tanto numa como noutra situação, vai-se de queixo ao chão com a  ideia que se perdeu tudo, o tempo cisma na impiedade dos dias e ao fim de uns meses a acordar perplexos com a nossa capacidade de resistência percebemos que não há outra solução além de continuar. Aliás, que já estivemos a "continuar" esse tempo todo sem querer. Fica tudo bem, pensamos? A inovação, tal como evolução, são palavras enganosas, imagina-se logo uma linha em ascensão vertiginosa, tudo é bom e melhor e fantástico. E esquecemo-nos que até os períodos de maior inovação da História, como a Revolução Industrial, tiveram o seu preço- mas afinal também diz o povo que não há bela sem senão. Estou-me a afastar do ponto: a rejeição. Tive uma dose dela no último ano, o suficiente para distribuir por garrafinhas e vender se alguém estivesse interessado; sabe-se lá, uma vez soube de uma história de um psicopata que pôs um anúncio no jornal a pedir interessados em serem assassinados e comidos por ele e houve quem respondeu, por isso acredito em tudo. Estou-me a afastar de novo do tópico e vocês já bocejam: rejeição. Pensei durante algum tempo que esta tinha trazido com muito custo a renovação da minha auto-estima porque eventualmente acabei a perceber que não a merecia. É certo que existiram erros e condutas mais do que condenáveis mas não invalidavam as qualidades que tinha e que eu permiti  questionassem. Curiosamente, à medida que as fui reafirmando de forma ostensiva esqueci-me que a rejeição foi originada pelos erros e não por uma questão de défice qualitativo, como tão conveniente seria para mim. Sim, sou orgulhosa como um raio e preferia não ter qualidades nenhumas a admitir que fiz merda. A inovação da rejeição fez-me forte naquela acepção moderna de mulher descomplexada e respondona, que não leva desaforo para casa, abstraindo-me da realidade inevitável que às vezes temos mesmo de os levar. A inovação de um ano a acreditar que tinha sido rejeitada injustamente só me tornou esta cínica arrogante capaz de rejeitar injustamente.

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