segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Primeiro passo para a maturidade e para a infelicidade conscientemente auto-infligida

É um facto conhecido que nunca devemos aldrabar o currículo e entrar num estado delirante de amor- próprio apimentado com bazófia numa entrevista de emprego. Até gostaríamos muito de conseguir aquele trabalho sabe-se lá porque razão, até o podemos querer mais do que tudo naquele determinado momento da nossa vida mas sabemos que nesta situação não podemos abraçar a premissa maquiavélica de que os fins justificam os meios. Para aqueles para quem as noções de honestidade e moralidade são ainda locais obscuros e por descobrir no respectivo carácter há sempre a vergonha na cara que impede de mentir. É certo que mais tarde ou mais cedo irão perceber que não se é fluente em mandarim ou que não se domina vinte programas informáticos de complexidade acima da média. Que quando nos passarmos com o colega que tem fama justificada de retardado mental e só atrasa o trabalho em vez de ajudar, irão finalmente perceber que somos "team players" o caraças. Se temos esta noção de ética para um futuro empregador - que só nos ajuda a pagar as contas e que encontrará outro para o nosso lugar com rapidez - pergunto-me porque não é tão comum vê-la nas relações. Não faço acusações ou críticas mas antes uma nota de culpa perante as minhas promessas de ser uma pessoa que não sou mas que sei que o iria fazer feliz. Com o tempo, e tal como nos empregos, a revelação das inaptidões é inevitável. Falha-se e só se falha porque nos pomos nessa situação - não é uma questão de não se ser suficientemente boa no geral, é de não se ser boa para aquilo, o que é distinto. Reconhecer isto, fazer esta avaliação do que podemos dar e do que somos significa paradoxalmente pegar fogo ao egoísmo para preservar a nossa identidade, sem enganos exógenos e intrísecos, alheios e autos. A falta de habilitação, nem sempre encerra culpa, a habilitação também envolve dom, genética, coisas impossíveis de explicar e cultivar. E quando é esse o caso da inaptidão, só resta ter coragem, pôr o coração ao largo, bater com a porta de mansinho mas com convicção e deixar a tarefa para alguém mais competente.

3 comentários:

Isa disse...

Aê garouta!
Bjo

francisco disse...

Muito bom texto. Muito bom.
Felizes os capazes da auto-crítica.

RBM disse...

muito obrigada :)