segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Na rua onde trabalho, uma das mais movimentadas do centro da cidade, sou brindada quase todos os dias com o exemplo evidente que "Portugal não tem talento". A sucessão de artistas falhados é uma delirante, começamos cá em baixo com um rapazinho magricelas que canta o "with or without you" e o "born to run" de forma  entusiasta e violentamente esganiçada - a modos que todos que passam perguntam mentalmente quem é que tirá dito à pobre alma que ela sabia cantar. Esse esforça-se, toca guitarra, embora às vezes haja uma pausa na música para mudar o acorde e depois lá continua como se ninguém tivesse reparado e tem um estilo coerente com aquilo que canta - t-shirt a dizer "Road 69" e boné enfiado independentemente do tempo que faça. As pessoas param e riem, algumas filmam e ele ri-se também, aliás nesse momento que recebe mais atenção até canta com outro ênfase, parece a Sininho a ganhar forças com as palmas. Mais acima, uma rapariga toca acordeão. As músicas que escolhe não são do género Quim Barreiros ou Rosinha - esses virtuosos do instrumento rei de qualquer bailarico de aldeia de dimensão razoável- mas são antes aquelas coisinhas à Amélie Poulain. Raios me parta, que não já há paciência para tanta pseudo-intelectualice, pseudo-melancolia, pseudo-ronhónhó; se essa fosse lavar o cabelo passava melhor o tempo. Depois há os plásticos, que se limitam  a espalhar umas tintas em jeito aleatório, umas colagens, e esperam que uma pessoa ache que saber combinar cores é suficiente para se ser o novo Miró. E ainda há aqueles que esperam impressionar os trausentes e cativar-lhes a desejada moedinha com truques de Diablo que todos nós (enfim, os que erámos desse tempo) sabíamos fazer no quinto ano. Penso: a falta que fez naquelas vidas, a que um dado momento os progenitores tivessem dito "não, não és talentoso o suficiente para te sustentares com isso. Vais para a Faculdade de Direito"*. Obrigadinha Pais, a cidade ficou empestada de mediocridade pela ineficácia da vossa veia castradora.

*nota: não foi isto que aconteceu com a autora deste blogue.

1 comentário:

Sara disse...

Maravilhosa, acutilante e extremamente realista análise da "fauna" que se apresenta na zona em questão.:D